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Crítica

Palco e circo se emendam

6.8.2012  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Valmir Santos

O menino conta 14 ou 15 anos. Ele se equilibra com cuidado sobre as tabuazinhas de madeira da arquibancada. Carrega a bandeja de sagu, de pipoca ou de maçã do amor. A guloseima varia conforme a noite. Luta de telequete, com Ted Boy Marino, Fantomas e outros lutadores que desfilam à tarde na carroceria do caminhão, mascarados a caráter, para anunciar pelo megafone a sessão noturna. Às vezes, o circo recebe Os Trapalhões, com Mussum, Dedé e Zacarias – Didi nunca aparece. E há, claro, as atrações fixas, o número de reprise com palhaços, os malabaristas, o globo da morte cuja moto zune em nossos ouvidos.

É início dos anos 1980 e este autor faz bico para os artistas que erguem lona no campinho de futebol próximo de casa, na zona leste de São Paulo, bairro natal de São Miguel. Ficamos sem a pelada com pés descalços no chão de terra fofa, mas compensa conhecer os bastidores, o cotidiano das crianças, mulheres e homens nos trailers rebocados que a gente só conhece dos filmes na televisão.

A formação do olhar para o teatro passa pelas memórias dessa movimentação vizinha. A aventura de “furar a lona” junto com os colegas da rua quando não conseguimos trabalhar como vendedores de doce para assistir à apresentação. A serragem no picadeiro. As jaulas dos animais quase sempre maltratados. As lantejoulas que desprendem das pernas das moças nas alturas.

De espectador mirim no circo ao jornalista de teatro, lá se vão 28 anos de afeição por essas artes. Nesse tempo todo, vimos o circo cada vez mais alijado da paisagem urbana. Os empreendimentos familiares, modestos, como aqueles da adolescência, perderam espaço para um ramo cada vez mais competitivo, como quase tudo nesta vida. Corroborou ainda o preconceito de prefeituras e demais órgãos públicos que atravancavam o caminho com suas taxas e exigências absurdas para com o artista mambembe que depende diretamente da bilheteria e tem nas populações empobrecidas sua plateia dileta e assídua, e não só nas periferias.

Mas o cenário mudou e os artistas de circo, hoje, estão mais articulados.

Tiveram que se fazer representar para riscar o chão junto às políticas públicas. O Ministério da Cultura demonstra mais clareza sobre esse setor, a quem dedica editais específicos. Exemplo: uma bolsa de residências para artistas das artes cênicas, lançada há pouco pela Funarte, fundação ligada ao MinC, selecionará 43 proponentes de dança, de teatro e de circo com recursos de R$ 45 mil cada um. O circo está no páreo.

Nos planos da cena, da fusão de linguagem, a percepção é de amadurecimento e profissionalização. Não tem mais sentido a timidez formal do artista de circo, revestida do ramerrão de que cultura popular não pode ser sofisticada em suas soluções e conteúdos. Rigor e vigor não carecem de diploma.

Em paralelo à abertura do mercado brasileiro para o corredor internacional de produções como o canadense Cirque du Soleil e os chineses do Circo Nacional, que inclusive atraem artistas brasileiros para seu escrete, despontaram criadores do chamado novo circo, de verve contemporânea, cujos procedimentos técnicos, estéticos e temáticos transitam com frequência pelo teatro, e deste para aquele.

Corremos o risco de esquecer alguns nomes, mas citamos núcleos teatrais pautados pelos experimentos circenses em seus percursos, uma mão dupla: Ornitorrinco, Lume, Pia Fraus, Parlapatões, La Mínima, Circo Mínimo, Barracão Teatro, Nau de Ícaros, XPTO, Os Fofos Encenam, Jogando no Quintal, em São Paulo; Galpão, em Belo Horizonte; Intrépida Trupe e Teatro de Anônimo, no Rio; Udi Grudi, em Brasília; a Companhia Carroça de Mamulengo, de Juazeiro do Norte (CE); o Clowns de Shakespeare, de Natal; o Circo de Teatro Tubinho, de Curitiba, cuja origem familiar remonta a 1918, com o casamento do palhaço Caolho com Lola, trupe que no momento está circulando pelo interior paulista, precisamente em Ibiúna; e o Teatro Biriba, que resiste desde os tempos do pavilhão de zinco, há mais de quatro décadas, em turnês pelo Brasil ou sediado na pequena cidade de Tangará, no meio-oeste catarinense, conjunto familiar dos mais fiéis às tradições do circo-teatro levando dramas e comédias às pencas.

No campo da pesquisa e da documentação, as perspectivas melhoraram bastante. Erminia Silva, Mario Fernando Bolognesi, Ana Lúcia Ferraz e Verônica Tamaoki são exemplos de militantes que produziram estudos de referência. No início da década, Silva e Tamaoki bolaram o site Pindorama Circus, cujo acervo foi completamente incorporado ao portal Circonteúdo no ano passado.

Também desde 2009 Tamaoki coordena o Centro de Memória do Circo, um projeto da Secretaria Municipal da Cultura em São Paulo, instalado no prédio da Galeria Olido, no centro, com destaque para acervos familiares como os do Circo Garcia (1928-2003) e do Circo Nerino (1913-1964), este que foi fundado em solo curitibano pelo casal Nerino e Armandine Avanzi, os pais de Roger Avanzi, o Picolino II – uma trajetória tão belamente retratada em preto e branco pelas lentes do francês Pierre Verger.

Não por acaso, o 27 de março é dia devotado ao teatro, em nível mundial, e também ao circo, em território brasileiro onde é evocado o dia de nascimento do palhaço Piolin, o Abelardo Pinto, em 1897, em Ribeirão Preto (SP), morto na capital paulista em 4 de setembro de 1973. Palhaço que faz par na constelação brasileira com outros mestres do cômico: Benjamin Oliveira, Queirolo, Carequinha, Arrelia, Picolino, etc.

Piolin cativou os participantes da Semana de Arte Moderna de 1922, entre eles Tarsila do Amaral, Pagu, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Mario de Andrade. Sobre essa arte milenar, o autor de Macunaíma escreveu: “Só no circo ainda tem a criação, porque as próprias circunstâncias de liberdade sem restrições e de vanguarda desses gêneros dramáticos permitem aos criadores deles as maiores extravagâncias”.

Valmir Santos

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