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Reportagem

Contador de Histórias

20.3.2013  |  por Maria Eugênia de Menezes

Ele já foi chamado de “mestre do teatro site-specific”. Afinal, criou peças que se passam em lugares tão inusitados, como os bastidores de uma sala de concerto, um jardim, um museu e até mesmo os cômodos de sua própria casa. A presença constante de elementos tecnológicos nessas criações, também lhe renderam o título de “menos convencional e mais ousado dos autores do teatro escocês”.

Muitas são as tentativas de definir o trabalho de David Leddy. Mas é o próprio dramaturgo quem se encarrega de jogar todos os rótulos por terra. “Não vejo meu trabalho como ‘site-specific’ nem tenho um apreço especial por questões tecnológicas. Às vezes, mudo a locação ou a maneira como o texto funciona ou a tecnologia empregada. Mas o que realmente me importa é experimentar a forma do teatro. Esticá-la e testá-la ao máximo. Misturar as estruturas e colocá-las de volta em uma ordem diferente”, diz o artista inglês.

Diretor da companhia Fire Exit em Glasgow, Leddy está no Brasil para trocar experiências com companhias e criadores de São Paulo. E, sobretudo, para a estreia de uma de suas obras em Minas Gerais.

Com versão brasileira produzida pelo British Council, a peça Susurrus será exibida, até 14/4, no Instituto de Arte Contemporânea Inhotim. Além de detentora de uma milionária coleção de arte contemporânea, a instituição é também um imenso jardim botânico: cenário ideal para o enredo proposto.

Enquanto percorre uma trilha dentro do parque, o espectador acompanha a trama com fones de ouvido conectados a um aparelho de MP3. Em pontos diferentes do trajeto – escolhidos pelo próprio autor -, a plateia vai descobrindo os segredos revelados pelos quatro personagens. São pontos de vista distintos sobre um mesmo episódio. Pedaços de um quebra-cabeça que vão se encaixando até elucidar as causas das mágoas de cada um. Um misto de abandono, omissão e pedofilia que deságua, por fim, no suicídio do cantor de ópera Robin Goodfellow.

A escolha do nome Goodfellow já entrega a referência do dramaturgo. É assim que se chama o travesso e perigoso duende de Sonho de Uma Noite de Verão. Tratada habitualmente como leve comédia, a criação de Shakespeare carrega também o seu lado escuro na série de amores desencontrados que elenca.

Leddy diz que o teatro convencional não lhe interessa: “Pode até ser bom, mas é uma receita que já foi testada há 200 anos.” Ainda assim deixa evidente seu apreço pelas tradições. Além de evocar Shakespeare, também entremeia Susurrus de conhecidas referências musicais: Nat King Cole, Edith Piaf, Maria Callas cantando La Mamma Morta, ária da ópera Andrea Chénier. “É preciso saber quais regras manter e quais quebrar. Você pode alterar a estrutura, experimentar. Mas se você joga todas as tradições fora, fica só um barulho incompreensível, sem nenhum sentido”, acredita.

As explicações para os seus experimentos de linguagem, ele garante, não são racionais. “A emoção é sempre o ponto de partida para mim. Tento despertar, em quem assiste, um sentimento que dificilmente pode ser descrito em palavras. Gosto de sair de um espetáculo como se tivesse sido atingido por um trem. E é isso que tento criar para outras pessoas.”

Não é usual que expoentes do teatro experimental falem em “emoção” ou “sentimentos” quando descrevem seus trabalhos. Alguém que já inventou um espetáculo sem protagonistas (e que demandava momentos de meditação da plateia) também não parece ser o tipo de criador que defende o “poder” das narrativas. Leddy não está muito preocupado em soar coerente.

“O ato de contar histórias está presente em todas as épocas. E você não pode ignorar isso. Diferentes formas de arte funcionam de diferentes maneiras em cada cultura. Mas contar histórias é algo que permanece em todas elas.”

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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