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Artigo

A teatralidade e seu duplo

29.6.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Guto Muniz

Três anos separam o aparecimento de A gaivota da inauguração do Teatro de Arte de Moscou, no final do século XIX. Trata-se do hiato entre um dramaturgo renomado pela condição de contista, cioso de diretores que elevassem o realismo e a simplicidade à enésima potência, e uma companhia teatral inquieta por novas visões estéticas, filosóficas e poéticas para o ator. Do futuro em que escrevemos, o encontro de Tchékhov com a equipe de Stanislavski e Nemirovitch-Dantchenko – a montagem da peça seminal da companhia estreia em 1898 – transformou paradigmas que continuarão a ecoar amanhã adentro.

Separados por três anos de nascimento, o Grupo XIX de Teatro e o Grupo Espanca! dão-se as mãos no século XXI embebidos por aquele efervescente movimento que revolucionou os palcos na virada de século. A dramaturgia (e a encenação) de Marcha para Zenturo evocam os artistas e a ”comédia em drama” citados há pouco para compor uma mensagem, colocá-la numa garrafa, lançá-la ao mar e endereçá-la ao porvir, aos-que-virão-tchekhoviano, saudando a modernidade russa em fusão com um profundo sentimento de mal-estar contemporâneo.

O espectador-leitor-criador é lançado numa parábola subversiva que implode as unidades de tempo e espaço, decanta as durações e distâncias interpessoais para medir o quanto as memórias física e d’alma estão deslizando, elas que deveriam ser alimentadas pelos sentidos da esperança. Para retratar essa enfermidade existencial, mal do século que mal começou, o texto é rigorosamente estruturado sem condenar a emoção. Está assentado em partituras de movimento, trajetória e referencial de cinco figuras que não se veem há anos e marcam o reencontro em pleno Réveillon (de 2441!). Suas falas e ações são concomitantemente atrasadas, presentes e adiantadas. Transpor esse relógio suíço para a cena é um feito e tanto.

O recurso de atemporalidades do aqui expõe idiossincrasias e vazios. A anfitriã e os convidados toparam a referida festa, sobretudo, para acolher um deles que está doente: padece da consciência de mundo. É esse sujeito que chega da rua, reivindica o toque, o olho no olho, e quer voltar de onde veio, aderir à passeata por Zenturo (corruptela de zen com futuro, intuímos). A realidade convulsiva lá fora invade as relações daquelas pessoas como que confinadas. Os manifestantes planejam meio minuto de silêncio à meia-noite, auge dos fogos de artifício. Essa condição absurda é só a ponta do iceberg da escrita de Grace Passô, em colaboração com os atores dos dois grupos.

Para tanta fuga da narrativa em sampleamento de tempos mortos e de faiscantes retardamentos e avanços, eis que surge uma janela genial para o século XIX que se faz presente por meio da companhia que encena A gaivota dentro da festa-peça, literalmente um “presente único” de um dos amigos que a contratou para aquela reunião especial – uma deixa para introduzir o fundo biográfico dos agrupamentos protagonistas, pois a trupe está por ser dissolvida, anuncia sua última apresentação. Tal licença para metalinguagem sincroniza o espectador-leitor-criador com Marcha para Zenturo e com os desafios de dois grupos em busca de uma terceira via.

Numa das personagens da peça dentro da peça, Palavras de Anton, um escritor afirma que “é uma pena que a juventude esteja indo embora”. Algumas cenas depois, agora na voz do ator que interpreta esse escritor, ele fala dos 15 anos de lida com o teatro de grupo, “rezando a arte, e acreditando ingenuamente que tudo isso, tudo isso, pode curar alguma agonia do homem”. O chão realista tem a ver com os momentos pessoais/coletivos tanto do XIX de Teatro como do Espanca!. Ambos vinham de três espetáculos acompanhados com expectativa pelo público e pela crítica em suas temporadas ou circulações, a reboque das impactantes projeções de Hysteria (2001) e Por Elise (2004), respectivamente.

O projeto espelha as vicissitudes de lado a lado, o então recente desligamento de integrantes fundadores, os desafios da manutenção, da convivência e até da cohabitação quando se trata de construir com outro grupo a 586 quilômetros, ponte rodoviária Belo Horizonte-São Paulo, por mais que tenha havido residência artística semanas aqui, semanas lá. As células dessas crises são revivificadas enquanto linguagem, engatam procedimentos criativos que desestabilizam os temas e as formas até então reconhecíveis e os empurra para equilibrar-se em corda de aço sem rede.

Cena do espetáculo Marcha para Zenturo (2010)

O sofisticado sistema de cálculos e padronizações aplicado para romper com as convenções dramáticas em Marcha para Zenturo nos faz lembrar os experimentos dodecafônicos de John Cage, na música, ou matemáticos de Merce Cunningham, na dança. As atonalidades e aporias surgem aparentemente desconectadas dos matizes das obras de cunho social e político encenadas em edifícios históricos invariavelmente abandonados e sob a luz do dia, no caso do Grupo XIX de Teatro, ou de criações associadas à poesia das palavras e das imagens para se interrogar sobre incomunicabilidades, no caso do Grupo Espanca!.

A interação, no entanto, carrega tais vestígios e os reelabora entre os espaços público e íntimo. Na peça, o protesto organizado fora do apartamento ecoa frequentemente nos corações e mentes da festa. Apesar de “paralisados” entre quatro paredes, delineadas no tablado por luz neon, é inevitável que todos sejam afetados pela voz rouca das ruas que articula um protesto pacífico de 30 segundos de silêncio. Esse cenário permite estabelecer outra analogia, agora com o drama chileno Neva (2006), escrito e dirigido por Guillermo Calderón, que se passa na São Petersburgo de 1905 e apanha um grupo de atores ensaiando, entre eles a viúva de Tchékhov, enquanto há uma revolução operária nas ruas e os aristas se indagam se seguem ensimesmados com sua arte ou se juntam à massa.

Marcos, o amigo “doente”, também põe a sociabilidade em xeque. São dele as análises mais contundentes quanto à realidade, a metáfora do barco solitário em alto mar, a nostalgia da solidariedade. Não por acaso, ele é interpretado por um dos atores do XIX de Teatro, Rodolfo Amorim. É o próprio quem vai pisar para além daquele quadrado cenográfico crônico, em todos os sentidos, avançando e olhando nos olhos do espectador, uma vez que aquelas figuras em cena não o fazem entre elas, descompensadas. A relação direta com o público é cara às montagens do grupo dirigido por Luiz Fernando Marques, que também assina esta Marcha.

O tensionar de tempos narrativos já constitui, por si, um ruído de comunicação permanente, como convém aos dramas do Espanca!. Os estados de absurdidade derivam dos raciocínios esparsos e vão até as atitudes desses homens e mulheres de profissões reconhecíveis, lá pelas tantas, uma historiadora, um médico e advogado, uma estilista/jardineira, um fotógrafo (a apreensão desse caos pela lente é uma metáfora poderosa), todos de caráter e atitudes estranhas, confusos e perigosos como sua época, o século XXV. Pelas fendas dos conflitos que não são elementares, brotam as alteridades do estilo Passô de escrever com suave gravidade e dolente ironia, estalos que dão o que pensar.

A dramaturgia que o Grupo Espanca! ora publica está endereçada, como se disse, à posteridade. A consistência dessa pesquisa e suas provocações reafirmam a ousadia dos coletivos mineiro e paulista na renovação da cena brasileira. A experiência evidencia uma etapa de trocas mais sinceras e efetivas por parte dos trabalhadores de teatro, despidos do personalismo que marcou o modernismo dessa arte entre nós. Decerto, não há instância de mais desnudamento que a sala de ensaio. Um grau assim de compartilhamento exige habilidade, perseverança, porque os obstáculos não são poucos.

Os filósofos já nos iluminaram que a virtude é sempre o cume entre dois abismos. A coragem, por exemplo, é o meio-termo entre a covardia e o medo. A dignidade, funâmbula nos extremos da complacência e do egoísmo. A doçura faz a mediania da cólera e da apatia. Seguindo essa toada, a dramaturgia e a cena de Marcha para Zenturo podem ser lidas como a pororoca de dois núcleos artísticos que se encontram em seus verdes anos para lastimar a perda da juventude em seu sentido metafórico, ou nem tanto. Seus vícios são o passado e o futuro, fazendo da arte do presente a razão da teatralidade de ser.

>> Capítulo do livro:

PASSÔ, Grace. Marcha para Zenturo. Rio de Janeiro: Cobogó, 2012.

 

 

Valmir Santos

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