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Entrevista

Odin: pensamento em ação por Roberta Carreri

1.6.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Jan Rüsz

Roberta Carreri é a força motriz da jornada Odin Week Festival. Quando a atriz italiana concebeu a primeira edição do encontro, em 1989, a perspectiva pedagógica era clara: transmitir aos participantes conteúdos práticos e teóricos sobre o treinamento de ator. Aos poucos, as bases espraiaram-se pelos princípios individuais e coletivos dessa arte de natureza gregária. O que era uma semana de atividades se transformou, atualmente, em dez dias de imersão na cultura de teatro forjada pelos artistas da equipe, entre elenco, técnicos e administradores do Odin Teatret.

Nascida em Milão em 1953, filha do funcionário de uma fábrica de automóveis e de uma dona de casa que se conheceram num bonde de Città Studi, bairro universitário milanês onde viveu a infância e a juventude. Militou no movimento estudantil, fez curso técnico em gráficas publicitárias e a faculdade de letras na universidade estadual. Intentava forma-se em crítica de arte, até que um professor, Renzo Vescovi, fundador do Teatro Tascabile di Bergamo, lhe assoprou em 1973 “uma ocasião que não se pode perder”: receberia em sua sede um grupo com integrantes de 20 e poucos anos, nascido em Oslo, Noruega, havia nove anos e transmudado para Holstebro, Dinamarca, havia sete.

Foi portanto na condição de espectadora que Roberta Barbara Carreri encontrou o Odin Teatret, seus atores e seu diretor Eugenio Barba, a bordo do espetáculo A casa do pai, inspirado na obra de Dostoievski. Semanas depois, fez uma oficina com o grupo. Assuntou Barba sobre o conteúdo da monografia de crítica de arte que já intitulara Do corpo como estátua ao corpo como música, quando ele a convidou para acompanhar o processo de criação de um espetáculo. Ela chegou a Holstebro em abril de 1974.

O primeiro espetáculo do qual participou foi O livro das danças, logo após dois meses de sua chegada, representado em espaços abertos ou fechados. Durante quase 15 anos, sistematizou uma pedagogia para o treinamento do ator, fruto de trabalho diário com exercícios físicos, plásticos, acrobáticos, além de procedimentos de composição, introversão, extroversão e “slow motion”. Costuma dividir esse período em “quatro estações”: 1) maneiras de pensar o corpo e encontrar sua presença cênica; 2) treinamento individual e a autocrítica para desmontar clichês aninhados ao longo dos anos; 3) organização de partituras físicas culminadas em cenas ou danças com a ajuda de músicas e objetos; 4) necessidade existencial de expressar, como consequência do “jardim secreto do ator”, conteúdos dramatúrgicos nos níveis da palavra, do corpo, do espaço cênico, dos figurinos e assim por diante.

Sua trajetória é pontuada por encontros seminais com outras culturas, como as trocas artísticas com a dança clássica japonesa de Katsuko Azuma; o butô igualmente nipônico de Natsu Nakajima; e a dança odissi indiana de Sanjukta Panigrahi. Para transcender a técnica e desaparecer a dicotomia mente/corpo, Roberta Carreri alude à seguinte metáfora: “O grande flautista é a música que ele toca. O grande cantor é a canção que ele canta. O grande ator é a ação que ele realiza. Diante dele, o espectador, esquecendo de si mesmo, transforma-se em parte do som, da dança, da ação. Não existe silêncio mais forte do que o de duzentos espectadores durante o espetáculo”, anota em Rastros: treinamento e história de uma atriz do Odin Teatret (2007), livro que circunscreve um tanto de autobiografia e ancorado na sua demonstração de trabalho Pegadas na neve – saiu no Brasil em 2011, pela editora Perspectiva, em tradução de Bruna Longo.

No plano pessoal, a vida de Roberta Carreri também fundiu-se com a do Odin  Teatret. Foi casada com dois atores: o americano Francis Pardeilhan, pai de Alice, que integrou o núcleo de 1976 a 1987; e o norueguês Torgeir Wethal (1947-2010), com o qual manteve uma convivência de mais de 27 anos.

A primeira vez que a via em cena foi no solo Salt (Sal), em 2005, durante o Festival Internacional de Londrina (Filo). Sob direção de Barba, a obra é inspirada numa das cartas do romance epistolar Está ficando Tarde Demais, do compatriota Antonio Tabucchi. Mulher viaja de uma ilha a outra do Mediterrâneo em busca de um amado desaparecido. Tanto em Salt (obra de 2002) como em outro solo, Judith (de 1987), este apresentado durante a Odin Week e baseado na histórica bíblica da mulher que serve ao rei Nabucodonosor em jogo erótico a um só tempo luminoso e violento, a atriz contracena com o músico e ator dinamarquês Jan Ferslev.

Leia a seguir a entrevista com Roberta Carreri, 59 anos, 39 de Odin, feita em seu camarim-escritório num dos “respiros” durante a última jornada da Odin Week:

A italiana Roberta Carreri chegou a Holstebro em 1974

Teatrojornal – A Odin Week é uma proposta original sua. O encontro é muito intenso e os participantes, temos a sensação de compartilhar um pouco do espírito, da dinâmica, do pensamento, do treinamento do Odin. A ideia é justamente nos permitir observar para além da fechadura?

Roberto Carreri – Sim. A ideia é propor tudo o que a gente tem. Abrir as portas e apresentar tudo o que o Odin Teatret é e faz. O que ele é, fisicamente, no sentido de que podemos viver aqui, experimentar a simples tarefa de limpar o seu espaço, essa forma de contato direto com o seu espaço vital e profissional. E também encontrar o todo, não somente o Odin Teatret que geralmente os espectadores encontram nos espetáculos. Como os setores da administração e do Odin Teatret Archive, por exemplo, esse pessoal ‘escondido’ do Odin Teatret que é indispensável e que costumo chamar de parte submergida do iceberg, que é maior do que a gente vê. Trabalham 25 pessoas no Odin Teatret e geralmente, nas turnês, são vistas apenas dez, doze delas.

Ademais, há o contato físico com o treinamento do ator e a recepção intelectual no ato de observar as demonstrações de trabalho de cada ator, como cada um pensa e constrói seu trabalho através do encontro com o Eugenio, e aqui também como o diretor pensa e constrói o seu trabalho. As demonstrações expõem ainda como as duas lógicas colaboram entre si. E, ao final de cada noite, são apresentados um ou dois espetáculos. Ou seja, na Odin Week você tem a possibilidade de verdadeiramente fazer uma imersão total em nosso universo. O número de participantes  gira em torno de 50, no máximo. Inicialmente, eram 25 participantes ativos e 25 observadores, porque nessa época só eu aplicava o treinamento e usávamos só uma sala. Com o tempo, outros atores passaram a ajudar nessa tarefa, utilizando mais de um espaço.

Teatrojornal – Para o criador, esse contato com o público que chega a cada Odin Week também é uma forma de medir a temperatura das expectativa dos jovens em relação ao teatro, de sua visão de mundo? Ou seja, dá para medir a cultura de teatro com a qual eles chegam aqui?

Roberta – É muito interessante encontrar essas pessoas. Quando leio os currículos, fico muito impressionada porque a maioria parece ter uma experiência maior que a minha. Têm 23 anos e já trabalharam com esse ou aquele criador, possuem uma experiência enorme. Mas, depois, quando nos encontramos com essas pessoas, deparamos com outra realidade. Geralmente, as colaborações do currículo aconteceram num tempo limitado e a questão é saber como essas pessoas foram capazes de trabalhar cada dia com as informações que, afinal, vão permitir criar a sua experiência real. Para muitas delas, é muito difícil ter um lugar aonde trabalhar. O saldo de sua experiência, portanto, é uma conexão de workshops.

As pessoas que elegem o Odin Teatret são muito diferentes. Procuro sempre equilibrar entre homens e mulheres para não exceder no estrógeno (risos). O problema é que, na realidade, as mulheres são as mais interessadas em nosso trabalho. Elas são mais fascinadas pelo Odin Teatret. Também há pesquisadores acadêmicos, alguns com bastante experiência. Há estudantes, muitos mais jovens que minha filha [a cantora Alice Carreri Pardeilhan, de 31 anos].. Há pessoas que têm gana de fazer teatro, mas que não podem fazer porque talvez não tenham a coragem de deixar o seu emprego. Enfim, são participantes muito diferentes, de diferentes culturas.

Teatrojornal – O cotidiano desse encontro nos faz perceber a importância da disciplina quanto às tarefas, os horários, a convivência com o diferente.

Roberta – O respeito para com o lugar e para com o outro. Respeito é uma palavra importantíssima para mim. É parte do treinamento a tarefa de confrontar-se dia após dia com as próprias motivações. Esse esquema é muito forte, mas é também uma proposta. Você pode tomar tudo ao pé da letra ou decidir que, hoje, não vai fazer. Isso permite a cada um dos participantes montar a sua própria Odin Week. Neste ano, por exemplo, há muita gente jovem, há muita energia no ar. E eles fazem tudo, isso é fantástico. A cada dia a pessoa é confrontada com o seu limite e com a sua necessidade. “Tenho verdadeiramente a necessidade de fazer isso?”. Esta é uma pergunta essencial para mim. Faço isso por que gosto de usar figurinos lindos ou por que tenho necessidade? Acho que a Odin Week é uma boa possibilidade para tomar consciência de sua realidade, de suas motivações. Outra coisa muito importante na Odin Week é a possibilidade de criar o “network” global, uma rede de Taiwan ao Congo, do Brasil aos Estados Unidos. Pessoas que ficam atadas por um fio invisível, compõem uma visão do mundo do teatro.

Teatrojornal – Noto também no seu treinamento e na sua demonstração de trabalho uma autonomia muito grande, uma forte presença da Roberta no Odin, assim como os demais atores têm essa autonomia. Sua presença é verificada nos mínimos detalhes, no modo de coordenar, na disponibilidade dentro das salas de trabalho, no bom humor pelos corredores. É coerente. Surpreende constatar isso para quem não conhece de dentro e tem a imagem de que o Eugenio é a figura centralizadora típica do diretor. Trata-se de uma conquista essencial para vocês que dedicam anos de suas vidas a esse projeto artístico?

Roberta – Este é o resultado de um caminho. É o meu caminho. Eu cheguei aqui quando não tinha nem 21 anos. Aprendi aqui tudo sobre o trabalho teatral. E o estágio a que cheguei hoje é simplesmente o resultado de um passo após o outro, mantendo essa coerência da qual você fala. Coerência para mim é respeito – como se fosse uma palavra de duas pernas, elas vêm juntas. Segui a minha motivação, a minha necessidade. Às vezes, eu também fico cansada, mas tenho a necessidade de fazer. Então faço. Se a necessidade não surgisse aí, não teria forças. Ela vive em mim. Eugenio sempre teve uma grande habilidade para oferecer desafios aos seus atores. Às vezes, a gente pensa que o desafio é demais e, depois, aos enfrentá-lo, nos damos conta de que não era tanto assim. O lugar aonde me encontro agora certamente é resultado de confrontar-me regularmente com desafios que são maiores do que acho que posso fazer. Mas, se tenho a necessidade, vou e faço. Se precisar nadar, eu nado.

Teatrojornal – O desafio muitas vezes tem a ver com a liberdade e o que fazer com ela?

Roberta – Tem a ver com responsabilidade.

Roberta Carreri em Judith (1987)

Teatrojornal – Outro ponto que desperta atenção em seu relato é a associação entre a vida e a arte. Como conciliar integralidade artística e campo pessoal?

Roberta – Tenho sido muito afortunada. Até dois anos atrás, eu tinha meu marido no grupo, no mesmo espaço. Meu marido e companheiro de trabalho. Minha filha nasceu aqui no Odin Teatret. Isso resulta de uma grande sorte e também de um grande desejo que sempre tive: o de que minha vida fosse redonda, que não apresentasse dicotomia entre o trabalho e a vida privada. Ou seja, que minha vida era uma. E tenho conseguido isso até hoje, apesar das dificuldades dos últimos dois anos. Desde o dia em que meu marido Torgeir morreu [27/6/2010], é como se não tivesse vida privada. Estes anos têm sido cheios de problemas práticos para resolver, vender a casa, comprar outra, comprar carro, herança, enfim. Somente agora começo a ficar um pouco mais tranquila. A minha casa é minha casa agora, uma nova casa. A vida privada tem sido com minha filha, meus amigos. Eu tenho amigos fora do Odin Teatret, que não são atores, que não se ocupam de teatro. E isso graças à minha filha. São os pais das suas amigas de escola, os vizinhos. Esse universo tem sido muito importante para mim. Encontrar pessoas com as quais possa falar de outra coisa que não o teatro. Isso tem a ver com busca por equilíbrio, uma visão que permita enamorar-se do trabalho.

Teatrojornal – Numa das demonstrações, você fala do desafio quanto à intensidade do treinamento que é assimilada após alguns anos de atividade. As partituras de um solo que você retoma muitos anos depois, como fazer com que elas não se tornem mecânicas? Como faz para manter o frescor a cada apresentação e não se deixar trair pelo que já assimilou?

Roberta – Duas coisas. O treinamento físico e mental do ator, esse eu fiz cotidianamente por cerca de 13, 14 anos [final da década de 1980]. Depois, o treinamento mudou muito, porque essa sabedoria, após esse tempo todo, estava incorporada. Bom, eu sofri um acidente e meu esqueleto não podia praticar tal treinamento como antes. Mas meu esqueleto sabia, o meu sistema nervoso também sabia, já não precisava mais fazer o treinamento com a mesma intensidade. Tudo isso foi o caminho que percorri para encontrar a minha presença cênica. E para aprender a aprender. Segui aprendendo de uma forma mais tranquila. Uma das coisas essências nesses 13, 14 anos de treinamento era evitar que ele se tornasse mecânico, e aí já não funcionaria mais, viraria um clichê comportamental. O corpo faz sem que o cérebro colabore. Claro, o cérebro colabora porque senão você não poderia levantar um braço. Mas você não pode fazer isso mecanicamente.

Parte do treinamento é também, para mm, o que chamo de mito de Sísifo. Quando você se confronta com alguns exercício e trabalha sobre isso, precisa ter seu corpo e sua mente disponíveis para aprender, para explorar, pesquisar e, depois de um tempo, assimilar tudo isso. Mas, no momento em que você fica tão bem nisso e deixa de pensar, tal qual andar de bicicleta, pronto, está aí o  momento de começar a trabalhar sobre outro princípio, outro exercício, outra dança. Continuar a manter seu cérebro na condição do aprender, do ser novo, ser aberto. Esse processo de manter vivo o que você está fazendo, e não tornar automático, é uma maneira de treinar o cérebro, de sincronizar com o que você está fazendo. É isso que eu utilizo para fazer o espetáculo. Em cena, para mim é o aqui e agora, jamais o mecânico. E posso modificar pequenas coisas, das quais nem o espectador se dá conta. Mas se olho por meio da imaginação [e enxergo] uma cegonha ou uns patos, vou lá, é diferente. Eu trabalho sobre a minha imaginação para manter vivo o que estou fazendo.

Teatrojornal – Seus trabalhos solos tocam bastante em questões do feminino. Essa abordagem seria reducionista?

Roberta – Todos os meus personagens foram escolhidos pelo Eugenio. Isso você tem que perguntar a ele. Judith, para mim, podia ser Lady Macbeth ou Salomé. Ele elege os personagens.

Teatrojornal – Já teve experiência como diretora?

Roberta – Eu tive. Dirigi um espetáculo com Cinzia Ciaramicoli [Rumor, para a Masakini Theatre Company, da Malásia, em 2009], mas não me considero diretora. A mim fascina muito mais o trabalho do ator. Ainda. Eu gosto dos desafios.

Teatrojornal – E quando você era jovem e queria ser crítica de artes gráficas, não nutria ali um olhar de criadora?

Roberta – Sim. E também se você vir até minha casa, verá meu jardim… Eu gosto muito de organizar o meu espaço, seja ele o espaço interior ou exterior. Tenho um grande senso estético. Sou perfeccionista.

Teatrojornal – Acompanhar sua condução da Odin Week sugere a imagem da diretora, o modo como organiza o material humano, essa turma de 50 pessoas, e também como nos faz pensar que estamos em casa na dinâmica dos encontros, como você introduz, comenta, sai e volta a cada etapa. Você sugere um olhar exterior privilegiado para a cena, o que poderia render bons frutos como encenadora.

Roberta – Obrigada.

>> O jornalista viajou a convite do Odin Teatret

Leia:

Introdução ao dossiê

Entrevista com Eugenio Barba

Entrevista com Augusto Omolú

Valmir Santos

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