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Reportagem

Concebidas antes das manifestações, peças dão dimensão política ao FIT

22.7.2013  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Pierre Duarte

As manifestações populares que deram o tom à Flip neste ano também reverberaram no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. Não apareceram em discursos ou análises, como no evento de Paraty. Mas se refletiram em alguns dos espetáculos selecionados para esta edição do FIT.

Galvarino é uma peça chilena. Discurso de un hombre decente, que abriu a programação do festival, vem da Colômbia. Ambas foram concebidas muito antes dos protestos que tomam as ruas do Brasil. Só que ganharam significados imprevistos quando lidas à luz da atual convulsão social. Talvez porque partam de uma matriz comum: a realidade, lidando com documentos e fatos verídicos. Talvez porque, mesmo sem ter o intento de serem obras políticas, questionem fortemente os poderes tais quais estabelecidos, iluminem a distância imensurável entre governantes e governados.

Terceira criação do grupo Teatro Kimen, Galvarino conta a trajetória de um homem anônimo. Ele é irmão da dramaturga, Marisol Ancamil. E tio da diretora da companhia, Paula Gonzaléz. Tudo o que se vê é o interior da casa da família do personagem. O cotidiano de pai, mãe e irmã que preparam o jantar enquanto esperam sua chegada. Uma história privada, mas que merece contornos coletivos. “É um testemunho individual, mas que tem muitas arestas e se cruza com muitos aspectos da história, o golpe de Estado no Chile, a queda da União Soviética, o fato de serem mapuches e, portanto, pobres”, comenta a encenadora.

Descendente da etnia mapuche, Galvarino deixou seu país e partiu para a Rússia 30 anos antes. Foi em busca de trabalho e conseguiu estabelecer-se por lá. Tinha bom emprego. Casou-se. Manteve contato com os pais durante todos esses anos. De repente, desapareceu. A cena à qual assistimos se passa no início dos anos 90. Desde a queda do regime comunista, ele não dá notícias. Sua irmã decide escrever ao Ministério das Relações Exteriores pedindo ajuda para localizar seu paradeiro. São muitas as cartas sem resposta. E, diante delas, não é preciso nenhum discurso inflamado para evidenciar a impotência de quem pede e a soberba de quem se recusa a atendê-las.

“Trata-se de dar voz a quem não tem. Mas sem desprezar a visualidade ou fazer menos do que se leva à cena”, observa Paula, que encerra com Galvarino uma trilogia de “teatro documental”. Antes, ela dirigiu Ni pu tremem – Mis antepassados (2008) e Território descuajado – Testimonio de um pais mestizo (2010). Trabalhos nos quais já se valia de não-atores e de depoimentos verídicos para construção da dramaturgia.

O uso de não-atores é também prerrogativa da criação dos colombianos do Mapa Teatro. Em Discurso de un hombre decente, os irmãos diretores Rolf e Heidi Abdelhalten trouxeram para o elenco o rapper Jaison Castaño e o músico Danilo Jimenez, integrante da banda que se apresenta no espetáculo. Ambos foram convocados para rememorar uma figura marcante da recente história colombiana: o narcotraficante Pablo Escobar.

Ainda que desponte como protagonista, a peça não se dispõe a apresentar uma biografia de Escobar. Antes, recorre à sua imagem para dar conta daquilo que Heidi classifica como “fracasso no combate às drogas”. A questão é repleta de contradições: a repressão ao narcotráfico se mostrou ineficaz. A legalização indiscriminada também não se apresenta como solução. “Me parece muito cínico que ex-presidentes latinos, que nada disseram enquanto eram governantes, agora se ponham a defender a legalização das drogas”, disse a diretora e dramaturga, que planeja uma trilogia sobre a tipologia da violência.

Um pedaço de papel, que Pablo Escobar de fato trazia no bolso da camisa quando foi morto, ofereceu o mote para a montagem. A fagulha veio do real, mas a obra bebe diretamente nos procedimentos da ficção, embaralhando linguagens e elegendo personagens cômicos, como uma fútil apresentadora de TV.

O chefe do cartel de Medelín, que teve realmente um passado como deputado, aparece na encenação como candidato à Presidência. E, surpreendentemente, põe-se a defender a liberação de entorpecentes. “Ainda que tomemos o real como ponto de partida, queríamos trazer um aspecto delirante ao espetáculo. E nada nos pareceu mais surreal do que isso”, diz Heidi. “Todas as palavras do discurso que estão na peça são de Escobar. Nenhuma foi inventada. Apenas chamamos um especialista em retórica que pudesse reorganizá-las e dar-lhes essa forma.”

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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