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Reportagem

Dossiê Odin Teatret

20.7.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Tommy Bay

No programa do primeiro espetáculo do Odin Teatret, Ornitofilene (Os amigos dos pássaros), de 1964, lia-se: “Nosso teatro não busca entreter nem defender teses. Apenas fazemos perguntas para as quais cada um de nós deve encontrar suas próprias respostas: a arte comprometida não dá respostas precisas, antes formula as perguntas precisas”.

Quarenta anos depois, por ocasião da estreia de Sonhos de Andersen, em 2004, Eugenio Barba anota a constância com que, nas cidades para onde viaja, depara com jovens que conhecem mais os livros do que a cena do grupo – e eles, os livros, não são poucos, às dezenas, dada a produção editorial profícua do teatrólogo.

Os jovens, segundo Barba, “creem que somos somente um capítulo da história do teatro e nossa persistência anormal perturba seu modo de pensar”, escreveu. “Os ossos doem, a visão se debilitou e custa muito mais esforço trabalhar doze horas por dia. Ainda assim, é como se uma força insensata mantivera minha necessidade de fazer teatro. São muitos os motivos pelos quais continuo. Posso sintetizá-los em uma frase: a profissão teatral é minha única pátria e Holstebro, sua casa.”

Cidade da região noroeste da Dinamarca, onde o grupo está sediado desde 1966, dois anos após sua origem em Oslo, a capital norueguesa. Holstebro conta hoje cerca de 57.000 habitantes. No mesmo ano em que deu guarida aos artistas do teatro, a prefeitura adquiriu a escultura Mulher no carro, popularmente batizada Maren, uma daquelas emblemáticas figuras esguias de Alberto Giacometti, exposta em local público, perto da biblioteca municipal.

Somente no sétimo dia da Odin Week Festival, realizada entre 20 e 30 de agosto de 2012, os cerca de 50 participantes pudemos conhecer o centro da cidade. Foram dez dias de imersão diuturna na cultura teatral do núcleo cofundado pelo italiano Eugenio Barba. De quem 11 brasileiros, em maior número, os múltiplos espanhóis, mexicanos, dinamarqueses, ingleses, franceses, além dos representantes únicos argentino, norte-americano, polonês, belga, italiano, português, australiano, suíço, estoniano, grego, maltês e taiwonês, muito provavelmente a maioria conhecia mais sobre a mitologia e a vasta bibliografia em torno de Barba e Odin Teatret do que já vivenciaram seus treinamentos ou foram espectadores de suas criações.

A colombiana Sofia Monsalve em A vida crônica

Este repórter e espectador de obras ou conferências do Odin em passagens pelo Brasil desde a década de 1990 fora convidado a acompanhar o retiro prático e teórico. A condição de observador/ouvinte implica frequentar demonstrações de trabalho, espetáculos solo ou coletivo, diálogos sobre as tradições do grupo e uma breve conferência diária e vespertina a cargo do diretor, aberto a quaisquer perguntas ou argumentações pelos participantes.

Em termos simbólicos e arquitetônicos, estamos de fato no interior de uma casa em que corredores levam a cômodos ou salas multiuso – a Vermelha, a Branca e a Preta. Anexos ligam o térreo e o piso superior. Há espaços administrativos, arquivos, dormitórios, cozinhas. Em frente ao escritório de Barba localiza-se o cômodo em que Jerzy Grotowski era hospedado, por isso batizado com o nome do teatrólogo polonês, interlocutor seminal na carreira dele.

Outros quartos evocam ainda artistas como Kazuo Ohno, Dario Fo e Franca Rame, Julian Beck, Jean-Louis Barrault, Jacques Lecoq, o norueguês Jens Bjørneboe e o também japonês Katsuko Azuma. A dançarina e coreógrafa indiana Sanjukta Panigrahi designa uma torre entre os dois pisos servida por uma escala espiralada. Recebemos cópia da planta dessa residência que, a princípio, soa como um labirinto e, não demora, converte-se em lar por osmose.

Revezamos a limpeza de cozinha, banheiro, corredor, salas de apresentação e de treinamento. Montamos o café da manhã. Tocamos um sino para ninguém atrasar na jornada de atividades que, em média, acontece das 7h às 22h.

Surpreende o modo generoso como os anfitriões da casa Odin se deixam revelar aos visitantes. É como se não houvesse cerimônia em abrir a geladeira de gente que não se conhece direito. A corresponsabilidade que os veteranos criadores e sua equipe de apoio imprimem desde os primeiros momentos firma os códigos para bom entendedor. A disciplina é a tônica. Compromisso para que o convívio teatral realmente se estabeleça em contexto empenhadamente fraterno, multicultural e humanista. Cada um é instigado à consciência para perceber seus limites, adesões, negociações, sem paternalismos, maternalismos.

A reprodução da carta endereçada aos embarcados da Odin Week Festival, subscrita a caneta por Eugenio Barba, parece dizer tudo o que virá e veio.

Bem-vindo ao Odin Teatret. Esta é a tua casa, temos construído-a para ti durante quase meio século. Está plena de história, experiência, energia. Desfrute de tua estadia, que sejas acético e entusiasta, severo e indulgente. E, sobretudo, astuto: aprende a aprender. Não te deixes seduzir.

Durante os poucos dias que estarás conosco dê o máximo, como o fazemos cada um de nós edificando, pedra sobre pedra, esta ilha flutuante de liberdade e intercâmbio. Dentro de uns dias você a deixará. Saiba esquecê-la, queimando-a em tua mente e com tuas ações. Que o incêndio possa lhe acrescentar paixão para fazer o teatro dos teus sonhos. As cinzas ao vento indicarão o teu caminho.

Lembre-se apenas isso da gente: sete vezes a terra, oito vezes em pé.

É desse intervalo de quase um ano que revolvemos aqueles dias, horas, pensamentos e emoções para trazer a público um dossiê com entrevistas que traduzem um pouco do espírito Odin Teatret de ser há 49 anos.

… E na tarde do décimo dia, no encerramento do encontro, fomos levados de ônibus até a praia de Bovbjerg. Um passeio de duas horas sobre a areia grossa, o vento forte, o sol acanhado, as águas agitadas batendo no píer e um horizonte perfeito para apascentar as reflexões.

>> O jornalista viajou a convite do Odin Teatret

Leia:

Entrevista com Eugenio Barba

Entrevista com Roberta Carreri

Entrevista com Augusto Omolú

Valmir Santos

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