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Reportagem

Aos 45 anos de carreira, Denise Stoklos encontra Franz Kafka

6.8.2013  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Thais Stoklos

O Brasil tem muito mais a ver com Franz Kafka do que se poderia imaginar. Sabe-se que o escritor tcheco descreveu situações absurdas, mostrou as armadilhas da burocracia, criticou formas despóticas de poder. Mas não são apenas esses os pontos de contato entre a ficção do autor e o País. Ao menos, não são esses os aspectos que Denise Stoklos resolveu destacar em seu próximo espetáculo.

Com estreia prometida para o dia 23, Carta ao pai apoia-se no livro homônimo, aproximando-o de mazelas atuais por um viés específico. “Neste livro, Kafka é espancado moralmente pelo pai. Mas eu não vou falar daquele homem que foi submetido à opressão do pai”, comenta a atriz. “Se fizermos uma aproximação, quem está sendo espancado hoje é também o ente brasileiro, o ser social que vem sendo espancado pelo seu pai que é o Estado, é a própria sua origem.”

Escrito em 1919 e só publicado postumamente, Carta ao pai é um longo desabafo do artista sobre a tumultuada relação que manteve com o pai, um autoritário comerciante judeu. Na abordagem escolhida por Denise, o que deve ir ao palco transcende a temática original. “Em Kafka, são tantas as possibilidades de aproximação que qualquer coisa que você faça sempre resulta em apenas mais uma leitura”, diz ela, que também responde pela direção e pela dramaturgia da criação. “O que fiz foi escolher alguns fragmentos e ir criando um roteiro para que tudo faça sentido também para quem não conhece a obra.”

A atriz e diretora discute o “pai” Brasil em Kakfa

As adaptações feitas por Stoklos justificam-se se observadas em relação à sua trajetória. Com 45 anos de carreira dedicados exclusivamente aos palcos – nada de filmes ou televisão – a performer é também a criadora de uma técnica que ela denomina: “teatro essencial”.

Dentro dessa perspectiva, o intérprete entrega o personagem sem lançar mão da representação ou da fantasia. “Para interpretar o padre Antônio Vieira, por exemplo, não usava uma batina nem trejeitos de 1600”, argumenta. “Era a partir de como aquele texto batia em mim que eu ia construindo o espetáculo.” Tudo o que vai à cena é dito com simplicidade. Depende do domínio do corpo, dos gestos. E, não se pode deixar de ressaltar, surge filtrado por um viés político.

Assim aconteceu em sua montagem mais recente Preferiria Não (2011), em que mesclava o texto de Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, a referências biográficas da atriz e considerações sobre um sanatório. O mesmo já se podia notar em afamadas produções anteriores, como Mary Stuart (1994) e Desobediência civil (1997).

Franz Kafka revolucionou a literatura pelo estilo direto, pela forma como prenunciava o existencialismo, pelo caráter metafórico de suas criações. Essas características transpareciam no inseto de A metamorfose, apequenado pela realidade das grandes cidades. Mas também estavam presentes nesta autobiográfica Carta ao pai. No cerne de suas reflexões, despontava sempre a liberdade – fosse ela individual ou social. O escritor queria libertar-se da opressão paterna, mas não podia: dividido entre a mágoa e a admiração. Seus personagens queriam estar livres do peso do Estado, das instituições, do sistema penal. Invariavelmente, porém, também fracassavam.

Ao sobrepor a imagem do escritor sufocado à do brasileiro, a atriz pretende indicar uma revolta contra o “pai” Brasil, “que vem espancando seus filhos, esmagando-os, impedindo-os de ganhar um corpo digno de existir”, diz ela. “Até mesmo a representação da nossa esquerda, que se apresentava como saída, não existe mais. Mas é preciso manter alguma esperança.”

Se no teatro essencial de Denise Stoklos tudo ganha conotação política, nada mais natural que ela inclua nesta sua versão da Carta ao pai questões que dizem respeito à sua própria classe. “Interpretada por uma atriz, o objeto desta obra é o universo teatral. Se fosse interpretada por um embaixador, a visão necessariamente seria outra.”

Aqui, a classe teatral também desponta como personagem do espetáculo. Cerceada, impedida de avançar, oprimida pelas instituições que poderiam lhe impulsionar, mas não o fazem. A imensa quantidade de dinheiro que corre no mundo do entretenimento não está disponível para a “arte” ou para os profissionais da reflexão. “Porque pensar sobre a liberdade não faz o mundo de negócios girar. Ao contrário, é inconveniente para o mundo que acumula, mas pouco reflete”, acredita a performer. “O teatro está desde sempre em crise. Designado a não crescer pelas condições nacionais que determinam um teto que jamais será superado. Submetido a institutos culturais cegos e até corruptos.”

Só que nada disso deve ser transformado em resignação ou desistência. Ao longo da entrevista, Denise Stoklos fala muitas vezes em sonho e possibilidade de mudança. A mágoa que alimentava contra o pai não fez de Franz Kafka um ressentido. Seu sofrimento era também uma forma de potência, algo que o movia e que o impulsionou a produzir tanto. “E isso também pode ter o mesmo significado para nós”, considera a artista. “Um meio de a gente superar essas coisas.”

 

Carta ao pai

Sesc Consolação. Teatro Anchieta

R. Dr. Vila Nova, 245, 3258-3830 Estreia dia 23.

De 24/8 a 29/9 – 6ª., 21h; sab., 20h; dom.; 18h.

R$ 32

 

Entrevista com a atriz 

Quando você criou espetáculos como Vozes Dissonantes, sobre os 500 anos do Descobrimento do Brasil, havia ali um retrato pessimista, mas alguma esperança. Isso mudou?

Denise Stoklos – A gente tinha, sim, uma esperança ali. Mas a gente precisa ter sempre, ou a gente desiste, acaba. Esperança, aliás, é uma palavra proibida para os deleuzianos, porque esperança é esperar e não fazer. Acho que enxergar é importante. E a nossa luta, no teatro, é refletir sobre a natureza humana.

Os seus espetáculos continuam se transformando mesmo após a estreia. Como esse processo funciona?
Denise Stoklos – Meus trabalhos são sempre work in progress. As peças vão mudando, o público funciona um pouco como assistente de direção, não é apenas voyeur. É só depois de um ano em cartaz que a forma do espetáculo costuma se estabelecer.

Há anos você trabalha praticamente sozinha, escrevendo, atuando e dirigindo. Por que essa opção?
Denise Stoklos – Faço desse jeito desde criança, escolhendo aquilo que me toca. Me coloco como intérprete da minha situação histórica – não da minha pessoa, do meu ego, que é muito pequeno – mas do meu ser social. Acredito que possa contar a história do meu tempo através de mim e que isso reflete em cada um na plateia.

 

 

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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