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Reportagem

CiaSenhas adia Mostra Cena Breve Curitiba

9.8.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Elenize Desgeniski

Um dos encontros mais afetivos e efetivos em que colaborei, escrevendo críticas ou mediando rodas de reflexão junto a criadores de várias paragens do país, teve sua nona edição adiada por falta de recursos, indiferença dos gestores públicos da cultura, insensibilidade da iniciativa privada e, quem sabe, pelo alheamento da própria categoria e dos estudantes de artes cênicas se não empreenderem alguma forma de reação.

Trata-se da descontinuidade da Mostra Cena Breve Curitiba em plena maturidade da CiaSenhas de Teatro, que a organiza, em seu modo singular de pensar a si e aos outros, articular-se junto à produção de sua cidade e de outros Estados.

Em 2012, foram recebidas 112 inscrições, número recorde, e selecionadas 16 cenas com representantes do Paraná, São Paulo, Bahia, Pará, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal. Uma das estratégias adotadas recentemente, e desafiadora, era a circulação de algumas criações por cidades vizinhas ou nem tanto. A edição deste ano aconteceria de 27/10 a 5/11.

O subtítulo “a linguagem dos grupos de teatro” nunca foi um apêndice, mas o coração no peito de Marcia Moraes, Sueli Araujo e Greice Barros, respectivamente (mas não só) produtora, diretora e atriz. Elas são as idealizadoras e coordenadoras desse projeto que, desde 2005, fomentou a cultura de teatro de pesquisa na cidade que sedia o principal festival do país e, no entanto, soava acanhada. Mas as coisas não eram bem assim para quem só aportava por lá nos meses de março ou abril.

Do formato de cenas curtas, à maneira do festival organizado pelo mineiro Galpão Cine Horto, a CiaSenhas circunscreve identidade, estende a inquietude pela criação à dinâmica de trocas e contaminações estéticas, ideológicas, éticas. De modo que quem por lá passasse não ia embora com a sensação da brevidade, pois a experiência do tempo costuma ser dilatada durante as edições da Mostra – pelo prazer e pelo trabalho do encontro, da fricção de olhares, desejos e caminhos.

A seguir, o texto-manifesto divulgado pela CiaSenhas diante da impotência que vem combinada à vontade de resiliência para que os próximos outubros não desidratem o meio universitário, o teatro de grupo e a curiosidade do público em geral para aventurar-se pelo risco que o desafio à síntese de 15 minutos implica sob todos os aspectos.

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É com tristeza, perplexidade e indignação que anunciamos que no ano de 2013 não haverá a edição da Mostra Cena Breve Curitiba. Ela está interrompida, adiada, suspensa! (esperamos que temporariamente!).

Tristeza porque acreditamos que é possível e necessário existirem territórios para que o teatro entre em ebulição através de apreciação, reflexão e compartilhamento; porque disponibilizamos muito tempo, energia e dedicação neste evento que agrega artistas de várias regiões do país e cria um ambiente de troca entre artistas e a cidade de Curitiba.

Perplexidade porque, apesar da Mostra estar estabelecida no calendário da cidade e legitimada pela participação da sociedade, apesar das ações realizadas nos últimos nove anos para o teatro em Curitiba, apesar da participação de importantes artistas, colaboradores e amigos e de termos o teatro com uma plateia crescente a cada ano; apesar de contarmos com apoio e o incentivo de todos aqueles que se envolveram com a Cena Breve e de termos, em cada edição, procurado manter a Mostra em constante reavaliação, ouvindo atentamente as demandas da arte, dos artistas e do público, mesmo assim não conseguimos, até agora, recursos para realizá-la de modo a assegurar a qualidade do encontro que tanto prezamos.

Indignação porque mesmo agindo incessantemente em diferentes frentes por busca de recursos ou apoios necessários para esta edição, nos vemos paralisadas por impedimentos arbitrários e burocráticos que impedem ações independentes como esta que realizamos. De outro lado, esbarramos em interesses capitalistas e mercadológicos impostos por empresas que exigem produtos de impacto comercial em detrimento da identidade do evento e impõem um jogo vil e distorcido com os mecanismos de incentivo público.

Não compartilhamos da lógica imediatista e “pavoneadora” do mercado, pois ela distorce o princípio fundamental da Mostra que é o de manter-se como uma clareira em que a veemência da arte e a intensidade dos encontros sejam os únicos e os maiores objetivos. Embora impossibilitadas de realizá-la em 2013, não desistimos, juntamos força e perseveramos para que em cada edição a arte e os encontros produzam reverberações tão fortes que sejam capazes de movimentar e fortalecer não só o presente, mas também os desejos e o destino do futuro do teatro no Brasil.

Coordenação da Mostra Cena Breve Curitiba

Curitiba, 07/08/2013

Valmir Santos

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