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Crítica

Ester Laccava interpõe autobiografia e arte

22.8.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Pedro Bastos/Solus

No sertão mítico sugerido como pano de fundo da obra, a intérprete se permite escavar a arqueologia pessoal e estreitar o vínculo com a dolência da personagem octogenária que abraça firmemente em A árvore seca. Como atriz, idealizadora e produtora do projeto, Ester Laccava provocou o mote do texto de Alexandre Sansão, de inspiração cordelista, e confiou a direção à dupla Antonio Vanfill e Leandro Goddinho. Este jovem trio equilibra, substancialmente, as profundezas arcaicas e contemporâneas também conjugadas na atuação que comove e colhe os frutos de três décadas de tablado.

Atriz caracteriza-se como octogenária diante do público

Laccava interpõe o relato autobiográfico e a narrativa épica sobre a velha que rememora não ter filhos, porque estéril, mas consente ao marido dormir com outra mulher, vindo a adotar a criança nascida daquela relação, que depois se saberá com deficiência mental, culminando no desaparecimento do marido amuado.

Para dialogar com o espectador e convencê-lo a acompanhá-la nos saltos temporais e espaciais, a atriz lança mão do dispositivo metateatral em que revela todos os procedimentos à boca de cena. Ela entra, cumprimenta o público, abre a mala, maquia-se, caracteriza-se como a protagonista e, a partir daí, estabelece o código de ir e vir entre narrar, atuar e dar seu depoimento, costurando as mulheres de sua vida – avó, mãe e filha – à caminhada pelas superações da voz ficcional.

O risco de ser piegas é iminente, mas o mérito da intérprete é dominar esses registros com densidade, leveza e concisão bem dosadas. A encenação zela pelo dinamismo de cena evitando estereotipar a sertaneja e tampouco apelar à comiseração. Da mesma maneira, a intervenção do testemunho é comedida, com passagens inerentes à história matricial.

Além da oralidade sem afetação, Laccava imprime ações físicas mínimas fundamentais como construção simbólica da aridez do sertão. O contraponto na imagem do mar manso ou revolto, conforme projeção ao fundo, em vídeo concebido por Goddinho, é outra boa quebra de probabilidade quanto ao território inóspito. O desfecho para o baú que vemos postado no centro do palco, sobre o qual não se pode adiantar, é outra solução solar.

A personagem adapta-se, aos poucos, às reviravoltas no roteiro da existência. Nos parênteses abertos ao depoimento, a atriz molda-se em igual sincronia entre os ciclos de nascimento e morte. O espectador, por sua vez, navega com tranqüilidade por ambas as “máscaras” que o conduzem a planos narrativos e pedem esforço intermitente de invenção e reinvenção, ao que corresponde.

Subvertidas as expectativas quanto ao regionalismo identificável em textos rentes à escrita roseana, para citar um farol-mor, A árvore seca alarga seu horizonte para as questões ambientais. Ângulo lateral, despido de intenções didáticas, mas plausível como metáfora das violências do homem ao planeta e seus reflexos nas devolutivas do presente.

Comediante, na acepção mais abrangente do ofício, com desempenho reconhecido em peças como A festa de Abigaiu, de 2007, texto do britânico por Mike Leigh, Ester Laccava celebra no drama em análise um trabalho que só poderia ser feito do lugar da maturidade em que se encontra. A arte agradece quando os criadores se permitem a coragem para olhar no retrovisor e pensar em perspectiva.

O jornalista viajou a convite da organização do Solus – Encontro de Solos Verbais e Não Verbais, de Ipatinga (MG)

Valmir Santos

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