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Crítica

Moçambicano inscreve a história no corpo

30.8.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Júnior Aragão/Cena 2013

O corpo enquanto documento ganha contornos pungentes na obra do bailarino, ator e coreógrafo Panaibra Gabriel Canda. Ele transpira sua pátria e seus ancestrais em Tempo e espaço: os solos da marrabenta, uma experiência antiespetacular. A economicidade nos elementos de cena relativiza os pesos da mimese e da representação em favor de um manifesto em que o corpo é fala e música e estas o reverberam. Não apartando, naturalmente, o lugar e o coração de sua arte, Moçambique. Os horizontes histórico, político e social vão dar no entroncamento da galáxia corporal, a escala do humano.

Antiespetáculo porque, mesmo quando lança mão de recursos mínimos de adereços, luz e uma cadeira em palco nu, o faz para contrariar a estetização como fetiche do corpo assimilado, como ele diz, à mercê das marcas exteriores à identidade que o esculpe.

O bailarino e coreógrafo Panaibra Gabriel Canda

Canda é filho de músico e de uma costureira. Acompanha-o em cena o guitarrista Jorge Domingos, figura espectral em seu chapéu panamá de aba longa, a lhe ocultar o rosto, para depois deixar-se ver com um chapéu-coco colorido. O dueto joga sem que necessariamente um olhe para o tempo do outro.

A musicalidade apodera-se da narrativa oral e gestual porque inexorável: a guitarra é a base rítmica da marrebenta, gênero híbrido de música e coreografia popular surgido na metade do século passado, na capital Maputo, uma fusão de influências europeias e ritmos tradicionais da região.

Em suas pesquisas e procedimentos criativos, o trabalho delineia uma visão etnocêntrica que lembra a evocação da dança dos orixás pelo brasileiro Augusto Omolú, bailarino filho do candomblé que codificou as confluências afro-brasileiras junto ao grupo dinamarquês Odin Teatret.

Postando-se de costas, de frente ou lateralmente, Canda ocupa o tablado em sua totalidade. É especialmente ousado ao avançar para o plano baixo no mapeamento físico do corpo. As mãos são vetores para os elementos do céu e da terra, sendo as energias do fogo e da água simbolizadas por “remos”, “hélices” ou “faíscas” do vocabulário gestual que elabora.

Canda, coro e alma do país no dueto com Domingos

Na contradança expositiva, a contundência do pensamento é amparada pela qualidade das ações e dos movimentos: o pensamento é músculo, e vice-versa. Expor a deformação cultural requer refinamento para voltar ao eixo. O bailarino e cidadão fundador da Companhia CulturArte conduz essa descentralização com nuances que passam pela dor da colonização portuguesa, da guerra pela independência (há apenas 38 anos, seu grupo tem 15), dos regimes comunistas e republicanos, da guerra civil, enfim, uma retrospectiva cambaleante.

Canda não toma para si a totalização histórica. Permite-se fazer valer a condição de testemunho de sua época expressado-a na forma de um documentário cênico que parte do corpo do indivíduo para analisar o corpo social e os reflexos que incidem diretamente sobre ambos.

Esse corpo múltiplo é lusófono e foi colonizado por Portugal, o que o aproxima ainda mais do espectador brasileiro. Sobretudo o que vive nas bordas das cidades e carrega o seu pedaço n’alma. O moçambicano emana o didatismo sereno e a determinação dos fortes que herdam a sabedoria e a servem à roda e à consciência, tornando o corpo-encontro inesquecível.

>> O jornalista viaja a convite da organização do 14º Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília.

Trecho do espetáculo em vídeo

Ficha técnica

Coreografia, atuação e texto: Panaibra Gabriel Canda

Música: Jorge Domingos

Iluminação: Myers Godwin e Aude Dierkens

Figurino: Mama Africa & Lucia Pinto

Suporte administrativo: Jeremias Canda

Produção: Companhia CulturArte

Coprodução: Sylt Quelle Cultural Award for Southern Africa 2009 e Goethe Institut Johannesburg

Valmir Santos

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