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Reportagem

Satyros e Parlapatões retornam aos clássicos

14.8.2013  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Divulgação

A Praça Roosevelt tornou-se o epicentro do teatro alternativo na cidade. Dois dos grupos mais atuantes dessa cena, porém, resolvem agora voltar aos clássicos. Após um hiato de dez anos, os Satyros retornam à tragédia grega com Édipo na Praça, uma versão da obra de Sófocles. Logo ao lado, os Parlapatões também empreendem sua visita aos cânones da dramaturgia. Pela primeira vez, os palhaços encenam um texto daquele que é considerado o mestre da comédia ocidental: Molière.

Curioso é que, nesse pretenso retorno ao passado, ambas as companhias se depararam com o presente. Nas duas criações são os temas e debates contemporâneos que conduzem as tramas. “É impressionante a quantidade de interpretações que um clássico pode suscitar”, comenta Rodolfo García Vázquez, diretor dos Satyros. “Decidimos fazer a peça por um motivo. Mas, no decorrer do processo, a emergência das manifestações nas ruas acabaram mudando o nosso olhar sobre a obra.”

Édipo na Praça surgiu da vontade do grupo de levar adiante sua pesquisa sobre aquilo que denomina “humanidade expandida”. Desde Hipóteses Sobre o Amor e a Verdade, espetáculo de 2010, investigavam formas de viver e se relacionar suscitadas pelas novas tecnologias. No projeto atual, o intuito era deter-se sobre contradições da reprodução assistida. “Uma geração de crianças está nascendo sem saber quem são seus pais. Isso é justo com elas? Será que deveriam ter esse direito? O tabu do incesto acaba tomando um novo vigor nesse cenário”, observa Vázquez, justificando a escolha do título grego. Édipo, afinal, mata o pai e se casa com a própria mãe sem ter conhecimento da gravidade dos atos que cometia.

Os dilemas éticos e existenciais do rei de Tebas, contudo, também possuíam contornos políticos. E é isso que sobressai nessa versão. “Não havia como negar essa questão. Era algo que estava acontecendo com a gente. As manifestações passaram aqui na praça. Muitas pessoas se abrigaram da polícia aqui dentro do teatro”, conta o diretor. “Logo no início, a peça já coloca que existe uma crise em curso em Tebas. Mostra como essa crise acaba desestruturando uma nação e a responsabilidade dos governantes em tudo isso.”

Outro dado a reforçar o caráter político da montagem é a escolha do espaço público como cenário. Apesar da estreita vinculação entre os Satyros e a Praça Roosevelt, essa é a primeira vez que eles rompem os limites de sua sala de espetáculos e tomam a rua. “Nunca antes tivemos autorização para utilizar a praça em nossas obras. Agora, poderemos explorá-la esteticamente”, observa Vázquez.

Muitos títulos de Molière poderiam soar engraçados. Ao deter-se sobre o legado do comediógrafo, Hugo Possolo chegou a considerar O Tartufo e Don Juan. Mas nenhum deles conseguiria flagrar tão bem as mudanças sociais que ocorrem hoje no País como O Burguês Fidalgo.

Concebida em 1670, e apresentada diante do rei Luís XIV, a peça trata do risível percurso de Monsieur Jourdain: burguês que sonha tornar-se um membro da aristocracia. Para tanto, ele contrata professores, que lhe ensinem as maneiras da nobreza, e busca casar-se com uma marquesa. “Não deixa de ser um retrato do Brasil, que quer ser mais do que consegue, onde todas as classes ambicionam ascender socialmente a qualquer custo”, comenta Possolo, que responde pela direção.

Para delinear analogias com a contemporaneidade não foi preciso transportar as ações no tempo e situá-las nos dias de hoje. Tudo continua se passando em uma corte do século 17. As mudanças feitas na obra preservaram personagens e a estrutura da dramaturgia. “As figuras que estão em cena nos lembram pessoas que encontramos todos os dias. Não era preciso fazer adaptações ou usar cacos”, considera o encenador.

 

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 14 de agosto de 2013

 

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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