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Reportagem

Subversões ao pátrio poder

12.8.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Thais Stoklos

Franz foi o filho fora da curva de Hermann Kafka, o comerciante judeu de origem pobre que começou a trabalhar como ambulante, depois abriu uma mercearia e de fato vingou como um comerciante bem-sucedido no centro de Praga, então uma cidade desimportante naquele final de século 18, sob a monarquia austro-húngara.

O pai prosperou sem esconder o cenho autoritário diante da mulher, Julie, do “primogênito” Franz (dois irmãos mais velhos, Georg e Heinrich, morreram bebês) e das filhas Gabriele, Valerie e Ottilie (todas executadas em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial). Mas fracassou no intento sistemático de demover o autor de “A Metamorfose” de ler e escrever, ofícios em que investiu a vida e revolucionou com sua arte literária de base realista e impregnada da ferrugem burocrática que até hoje atravanca máquinas públicas e privadas.

Franz Kafka (1883-1924) chegou a trabalhar em escritório de companhia de seguros e foi sócio de uma fábrica de amianto. Conhecer tais entranhas o permitiu subvertê-las, assim como o fez com o pátrio poder. No direito romano, o pai tinha poder absoluto sobre o filho, a ponto de bater, abandoná-lo, vendê-lo ou inclusive matá-lo. Esses mecanismos jurídicos foram transformados durante as Idades Média e Moderna.

O entroncamento dessa conturbada relação emocional é um dos pontos de partida e de chegada da atriz, diretora e autora Denise Stoklos em sua adaptação homônima de Carta ao pai (1919). Na obra, o tcheco, que escreve em língua alemã, disseca o desprezo e a tirania paternos em tom confessional e catártico.

“Não há como deixar de entender que aquele filho espancado cruelmente pelo pai é o ente brasileiro, aquele mais primário, o nosso Jeca Tatu mesmo, falando contra o pai, o Estado, o Brasil caipira que historicamente impõe limitações a sua gente”, diz Stoklos.

A obra Calendário da pedra, de 2001

Ela escolheu Kafka para adaptar, encenar e atuar em celebração aos 45 anos de carreira, 34 deles sob o procedimento da criação solo. A experiência a permitiu forjar uma linha de trabalho que denomina “teatro essencial”. Nela, o intérprete é despido de adornos, economiza os elementos constituintes da cena. A luz, os figurinos e a cenografia são desenhados em favor das potencialidades do corpo e da palavra.

A atriz paranaense de 63 anos encarna profundamente o conceito autoral da obra em suas idiossincrasias e contingência sociopolíticas, como espera mostrar no novo espetáculo que entra em cartaz dia 23 no Sesc Anchieta, em São Paulo.

Suas peças resultam manifestos cênicos porque transpassadas pelo depoimento político. Quando visita o mito grego em Des-Medeia (1994), por exemplo, foca a opção pela vida, em qualquer época, espécie ou situação, seja ideológica, comunitária ou amorosamente falando. Na sua versão, a feiticeira de Eurípides não sacrifica os filhos e nem a mulher por quem o marido a abandona. Antes, aspira à dialética, suscita reflexão sobre a quebra de vínculo e a lealdade aos valores humanos.

Agora, em chave patriarcal, Stoklos quer abordar o descompasso indivíduo e sociedade. Por meio da sombra indelével do pai sobre a existência e a obra de Kafka, numa Europa prestes a ser castigada pelo nazifascismo, quando os conceitos de nação e raça massacram a cidadania, a atriz se permite sondar os abismos e as contradições de seu país, de seus compatriotas, de seus pares na arte do teatro e de si mesma.

“Não sabemos o abismo que somos. Nele não há eco, apenas narrativa”, afirma sobre o esforço contumaz de Hermann para empurrar a criança, o adolescente e o já adulto Franz à nulidade na hora de definir a profissão ou a mulher com que deseja se casar. A atriz é consciente do risco de abordá-lo sob o prisma do coitadinho, chafurdar no sentimentalismo.

Como em todos os escritos kafkianos, para usar o adjetivo universal, “ou você traz ele enciclopedicamente, sem tocá-lo, sem interferir, quase como uma leitura mesmo, ou então você faz essa identificação com a tua vivência”, diz a criadora. Em Carta ao pai, ela tem vontade de explorar outras possibilidades no registro de atuação. Pende mais ao caráter performativo, em que o espectador divisa claramente a atriz, a personagem e as terceiras vias metafísicas geradas na prosa autobiográfico do narrador em sua desesperada tentativa de se esquivar da opressão sublinhando-a no talento para os contos e os romances.

Cena de Olhos recém-nascidos, de 2004

Será possivelmente o menos teatral dos seus trabalhos em termos dramáticos, ela admite. “Se teatralizasse Kafka eu seria antiKafka. Jogo com o distanciamento, a conversa com o absurdo está muito próxima.” Em cena, há uma atriz, alguém que enuncia o texto com seus recursos, mas o dispositivo não é exatamente teatral.

Neste processo de pesquisa e de criação, cogitou radicalizar com uma performance em que, a cada noite, levaria um fragmento ao palco, sugerindo a imagem de um móbile. Pode ser que o formato não frutifique, mas não quer aliviar a determinação experimental.

“Cumpro mais o papel de dizer que temos aqui, nesta noite, um espetáculo com este texto. E fazê-lo através da linguagem do teatro que eu possa ter absorvido nesses 45 anos, dentro das minhas limitações, das minhas escolhas, colocando-me como instrumento”, afirma. Seu objetivo é evitar o depoimento “altamente pessoal”, como define o estilo do ator norte-americano Spalding Gray (1941-2004). “Ele era maravilhoso, mas eu nunca fui por aí. Há sempre um elemento que me situa como representante deste nosso século, deste milênio, nascida neste país, na região sul [Irati, Paraná], do gênero feminino, etc.”

Autodefinida como de temperamento fechado, pois sai pouco e vê pouco o que as categorias de dança e teatro andam fazendo, Denise Stoklos habituou-se à solidão em mais de três décadas de solos. Nos últimos anos, porém, diz precisar “cada vez mais de pessoas, quase como uma Blanche Dubois”, brinca, citando a lânguida protagonista de Um bonde chamado desejo, do norte-americano Tennessee Williams (1911-1983). Entre os interlocutores desta jornada de Carta ao pai, cita a irmã Dayse Stoklos Malucelli, psicanalítica lacaniana, como assistente, e o pesquisador Welington Andrade, doutor em literatura brasileira na USP e vice-diretor da Faculdade Cásper Líbero, como consultor.

Solo Denise Stoklos em teatro para crianças, de 2007

No início da carreira, a atriz ouviu de um dos seus professores de mímica, o norte-americano Leonard Pitt, que tinha que parar de se esconder “atrás da técnica e jogar fora tudo que estava aprendendo”. Ela não seguiu o conselho ao pé da letra. A essa altura, confessa que “seria legal ter essa coragem”. Sonha, por exemplo, chegar ao estágio de não falar nada no palco, nem por meio do gesto e do movimento, e ainda ser teatro, “só pelo fenômeno da presença cênica”.

Que o diga a performer sérvia Marina Abramovic na exposição A artista está presente (2010), realizada no MoMa de Nova York e desdobrada em documentário. Em suma, ela surge postada numa cadeira e fica olho a olho com cada um que senta à sua frente, pelo tempo que seus silêncios desejarem preencher.

Às vésperas da estreia, Denise Stoklos sente-se como que realizando o “levantamento” do repertório. Algumas imagens aqui reunidas dão a medida. Na (retro)perspectiva da atriz, “uma forma teatral de brincar com a história.”

>> A versão editada deste texto foi publicada no jornal Valor Econômico, caderno Eu& Fim de Semana, sob o mesmo título, à página 17, em circulação nos dias 9, 10 e 11/8/2013.

Carta ao pai

Teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 11 3234-3000); de 23/8 a 29/9; sex. e sáb., às 21h; dom., às 18h; de R$ 6,40 a R$ 32.

Valmir Santos

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