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Crítica

Apreciação crítica em noite de 5 cenas curtas

28.9.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Guto Muniz

Acompanhando o Festival de Cenas Curtas pela segunda vez (a primeira foi em 2011), no Galpão Cine Horto, nos convencemos do quão a experiência qualifica o olhar e a escuta do espectador. É um projeto sensibilizador. A maioria dos 200 lugares é ocupada por gente ligada ao universo teatral de Belo Horizonte e de outras regiões mineiras. Notam-se também os cidadãos comuns curiosos pelos experimentos que virão a cada noite. A entrada é franca e o ambiente, francamente festivo.

Isso fica mais claro nos entreatos das cinco cenas, este ano, quando os comes e bebes são vendidos e os organizadores ainda estimulam jogos de interação com a plateia na linha bingo de paróquia. Estimula-se o sentir-se à vontade, desde que pactuados a concentração e o silêncio durante as apresentações. Das cenas esfuziantes às introvertidas, o rito se cumpre, com raríssimas exceções de celulares ligados, garrafa ou lata caindo da arquibancada.

A formação pedagógica do público em cohabitar a arte do teatro, os pressupostos do encontro ao vivo – esta 14ª edição é movida pelo tema “encontros que transformam” – ecoa na disponibilidade dos criadores para ousar em suas pequenas obras epifãnicas ou tonitruosas. Ou…

Na programação que exibe 20 trabalhos predominam artistas em formação ou recém-iniciados nas artes cênicas. Eles surgem em simbiose, este ano, com quatro núcleos convidados e bem rodados: Armazém Companhia de Teatro (RJ), Clowns de Shakespeare (RN), Companhia Brasileira de Teatro (PR) e Grupo Espanca!, prata da casa que teve seu primeiro espetáculo, Por Elise, embrionário de cena homônima apresentada na quinta edição do festival, nove anos atrás.

Compartilhamos as percepções da segunda noite do evento, a de quinta-feira, quando nos coube escrever nos conformes da atividade paralela No calor da cena, que reúne textos críticos cometidos até às 12h do dia seguinte (mas sem a faca no pescoço do deadline das redações jornalísticas). Ao final do post, detalhamos outros caminhos para fruir a experiência de recepção pelos demais colegas de sites de teatro presentes nesta jornada que vai até a noite de domingo.

Gênese e destino

As cinco cenas da segunda noite nos tomaram do útero, do berço e da casa. Os espectadores, fomos levados pelas mãos ao mundaréu. A mãe como figura e mito em suas metáforas de estrela-guia pelos caminhos e atalhos que virão. Os desvios. As rupturas. Os desejos. Conexões. A imaginação no poder. E os sonhos de carona.

A ‘Aurora’ felliniana do Mamãe Tá na Plateia (MG)

Entrou por uma porta e saiu por outra

O homem da matraca. E o homem da bicicleta. Eles atravessam a espaço cênico em distintos momentos. Num, o som forte e seco do instrumento. Noutro, o sussurro dolente de um cantor de tango. Duas vinhetas cinematográficas para a narrativa que tem no cancioneiro popular a sua base e é impregnada de informações audiovisuais dignas da obra de Fellini. É nessa atmosfera que vemos bailar a moça de Aurora, a de cabelos vermelhos e roupa bege e anódina que só quer colorir um pouco sua vida com namorar, dançar e cantar. O coletivo Mamãe Está na Plateia, de Betim, conta a sua história com uma composição engenhosa. A cenografia multiforme, um paredão de janelas e portinholas que ganha outras feições ao longo da apresentação, poderia estorvar. Ainda mais quando se corre contra o tempo. Mas a presumida ansiedade dos 15 minutos dissolve-se por meio da conquista do outro tempo, aquele forjado pela arte, quando silêncio e emoção cohabitam ações, movimentos e planos sem congestionamento de cuca. A criação coletiva celebra o rito teatral com atores preparados mínima e tecnicamente para o canto e o repertório gestual exigido, em certo instante, à maneira do filme O baile, de Ettore Scola. No rito de passagem que a cena é, com a mulher agora dona de si em seu vestido branco, quem a conduz são espíritos simbolizados por seres mascarados e devidamente paramentados, numa citação aos festejos populares remotos e remanescentes em muitos rincões latino-americanos, para ficar num pedaço do universo. Eis a cosmogonia de tons bucólicos, líricos e fantásticos à qual Aurora nos enreda com a inventividade de recursos e linguagens das quais qualquer recriação cênica afeita à cultura popular jamais deveria se eximir. O ruído, na sessão, vai para o desfecho que soou abrupto, ínfimo, sem ornar com o que foi bordado com ardente paciência até ali.

‘Vodka com maça’, da Ateliê Voador Cia. (BA)

Dialética do desejo a palo seco

No prólogo, ou naquilo que se insinua como – já que as aparências enganam e às vezes, enfim, transparecem –, a dupla de atores nomeia quase tudo. A si, o núcleo artístico, o mote do que será visto dali a segundos, enfim, as origens. E logo a introdução brechtiana e o rebuscamento antropológico serão percebidos dentro da estratégia de pistas desviantes que vão levar ao encontro de dois homens num bar e seus respectivos desnudamentos do desejo. Aparentando nervosos no início, Duda Woyda e Rafael Medrado não demoram a aprumar o jogo de ideias mediados absolutamente pela palavra, a palo seco. É dessa fricção que brotam as imagens num palco nu em que apenas uma lâmpada suspensa, um copo e um blusão constituem os signos sutis. Dividimos a mesa invisível com essas figuras, divisamos o garçom que para de atender para mandar o dono às favas, compartilhamos a casa da luz vermelha em que os sujeitos até há pouco estranhos vão se tornar mais íntimos do que poderiam imaginar enquanto esperam/buscam/procuram as garotas que nunca chegam, evocação a Beckett. A direção de Djalma Thürler para Vodka e maça propõe um mapa claro e arguto ao espectador, pontuando ironias quanto ao academicismo e sem baratear sua própria condição de criadores-pesquisadores no campo das artes. Desconstrói convenções dicotômicas (heterossexual/homossexual, ativo/passivo, masculino/feminino, etc.). E lança heterônimos ao mar. Pena que na hora do verbo tornar-se carne, por assim dizer, o beijo e o abraço não acontecem. O afeto interrompido contraria perigosamente o discurso da cena e dá margem ao afeito bumerangue sobre as falsas morais suscitadas.

Rodrigo Fidelis ou Pereira espalha o mal-estar

Instabilidades feitas de convicção libertária e ambição poética

Nos deslimites da arte, Açougue dos Pereiras leva os paroxismos da representação às últimas consequências. Rodrigo Pereira, na certidão de nascimento, ou Rodrigo Fidelis, em arte – ou ainda tanto faz a persona – abraça o ato performativo com convicção libertária e ambição poética. É uma proeza conciliar esses vetores quando se assume a cena enquanto manifesto. Abre como veio ao mundo, pelado e com uma foto de bebê emoldurada, entoando biograficamente que não faz mal a ninguém, “a não ser a mim mesmo”, como dizia Cazuza. O documento desse atuador é subcutâneo (apesar do figurino malandro-rodriguiano que incorpora aos poucos). Ele transcende o material pessoal propriamente dito e sobre o qual sugere estar manejando. Há um fiapo narrativo sobre um ator autodefinido cínico. Sujeito que volta a morar com a família, no interior, para cuidar da mãe que sofre dores agudas devido à esclerose múltipla, doença incurável. Além disso, tem que tocar o comércio dela. Não há menor chance para sentimento de piedade, a começar pela ‘representação’ da mãe por um manequim. As relações profissionais no passado com a casa que ora pisa, o Galpão Cine Horto, lhe permite cutucar também o anfitrião que o reacolhe sob a condição de artista sem fronteiras e, como fez com a imagem da mulher que o pariu, sem condescendências. Idem para o espectador ávido para aliviar o riso diante dos estranhamentos. Açougue dos Pereiras desestabiliza a si e aos que se destina. O ego, a comiseração, a nudez, o palavrão, o teatro contemporâneo, a dissimulação, tudo vai para o espaço, ou melhor, para o paredão. Os criadores Rodrigo Pereira, Paolo Pereira e Melgaço Pereira manipulam o real e operam a ficção com a inteligência de linguagem que o improviso do jazz intui. Respira-se a orquestração dos desarmes com o pulso e a urgência do aqui – o que no “aqui” mineirês soa mais deslizante ainda. Em sua performance antiteatral, a cena revela-se poderosamente teatral, assumindo o divã, a dilaceração da perda, a precariedade do Eu e a condição humana em seus dilemas mais profundos da existência, tudo exposto sob outras fechaduras e modos de percepção. Nos conformes da coragem de desagradar que a arte reivindica aos que não querem usá-la em vão. A reação inteligente do público, que transcendeu o primeiro plano das provocações para fruir outros horizontes, prova que muitos topam ser assim desafiados.

‘Anã marrom’, por Ethel, Emediato e Coletta (MG)

Gravitações sobre pedaços esparsos

Com sua dramaturgia espiralada, a versar sobre estrelas, por exemplo, e o percurso de uma vida – ou de duas, mãe e filho –, Anã Marrom é uma cena sideral que pouco traz de fio terra em sua concepção para dialogar com o interlocutor. Conjuga noções de astronomia – como o episódio da cadelinha Laika que não voltou da missão soviética à lua – e o percurso de uma menina desde o encontro com o cara que ficou na balada até a juventude do filho que hoje lhe pergunta sobre o namorado que dormiu com ela. A contemporaneidade que convida à fragmentação de tempo, espaço, decomposição de personagem e afins, é a mesma que seduz à dispersão. Ethel Braga e João Marcelo Emediato não cativam para aquilo que estão contando. Vão e vêm, cumpridores da partitura, mas transmitem a segurança de quem já sabe onde está a poesia da cena. Não dão margem para que ela aconteça no “durante”, no pacto criado ao vivo, como na passagem lapidar dos primeiros passos do bebê sobre patins. É esse titubeio, esse “entre” que não desponta em Anã marrom, sob dramaturgia de Marcos Coletta. As platitudes das ciências astronômicas transmitem mais racionalidade sobre o que se diz do que descolamento, metáfora ou suspensão. Desfocam da trajetória em pedaços dessas duas figuras que viram satélite e planeta uma da outra. Sentimos falta de tônus na presença dos atores. Há uma obsessão pela linguagem que não deixa vir ou ver outras camadas (aprisionamento que o figurino da estrela em si ilustra bem). Quando a técnica ou o plano de voo ficam demasiado em primeiro plano, a obra não decola.

Elogio da fábula pela trupe Clowns de Shakespeare

Abençoados frutos da musicalidade

O Clowns de Shakespeare adota em O homem que chovia, cena convidada, procedimentos que confirmam a excelência artística plantada em mais de duas décadas de caminhada. Sobretudo dos seus primeiros anos de formação, quando semeou a terra da musicalidade para colher frutos sob uma árvore frondosa. É dela que dá à luz, organicamente, a fábula encenada do misterioso forasteiro que aporta num vilarejo e promete providenciar chuva àquela gente sob o flagelo da seca. A condição é que alguns moradores o façam verter lágrima a partir de suas histórias. A essa estrutura herdeira das narrativas e crenças populares, a encenação de Fernando Yamamoto, codramaturgo com João Ricardo Aguiar, opta pela economicidade formal, inclusive nos figurinos e adereços coloridos que são peculiares ao grupo. Os sete atores preenchem e esvaziam a cena com fluidez. Mesma harmonia sugerida pela condução musical de instrumentos ao vivo e pelo coro de vozes em revezamento com os solos. A registrar ainda o potencial da ênfase na corporeidade: a seminudez e as evoluções coreográficas prenunciam, quem sabe, enveredar por estéticas tangenciais à dança contemporânea. A criação, enfim, é uma sinfonia que prende a atenção como o narrador de história assentado na oralidade e na ancestralidade. Tem o público nas mãos, ou melhor, ao pé do ouvido.

PS: No debate sobre a cena, no dia seguinte, o núcleo potiguar revelou que concebeu a criação como uma homenagem ao Grupo Galpão. Há referências sutis a peças e memórias dos 13 atores do espaço anfitrião – a roda reflexiva acontece na sede da r. Pitangui, a poucas casas do prédio do Cine Horto. Parte deles assistiu à obra, captou muitas das citações e se emocionou.

‘Careta’, a cena inventiva da Primeira Campainha (MG)

Textos sobre as demais noites

O Teatrojornal reveza a escrita das criações do Festival de Cenas Curtas com os sites Questão de Crítica, por Daniele Avila Small, do Rio de Janeiro; Satisfeita, Yolanda?, por Pollyanna Diniz, do Recife; e Horizonte da Cena, por Soraya Belusi, de Belo Horizonte – esta jornalista coordena a atividade e os debates do dia seguinte em parceria com Luciana Romagnolli.

Confira a leitura de Pollyanna também sobre as obras da segunda noite, quinta-feira.

Leia ainda os textos de Daniele e de Soraya sobre as cenas da primeira noite, quarta-feira.

Veja a cobertura do encontro pelo fotógrafo Guto Muniz.

Núcleo da UFOP (MG) revisita peça de Beckett

Valmir Santos

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