Menu

Assine nossa newsletter

Artigo

Até a crueldade imprime poética em Sueli Araujo

11.9.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Guto Muniz

Cada um é a soma de signos e atos que carrega em seu mundo desde o primeiro respiro. A palavra, o gesto, o toque, o silêncio e o que as mulheres e os homens fazem deles dizem muito do indivíduo. Conforme Hannah Arendt, em A condição humana, “essa qualidade reveladora do discurso e da ação vem à tona quando as pessoas estão com outras, isto é, no simples gosto da convivência humana, e não ‘pró’ ou ‘contra’ as outras”. As personagens de Sueli Araujo não conseguem estar com ninguém nas peças aqui reunidas. Algumas tentam companhia, mas não vingam plenamente; já se bastam na luta para suportar a própria. São umbilicalmente deslocadas. Desassossegadas consigo, com o outro, com a casa, com a cidade. O anônimo, o vizinho e o consanguíneo são divisados desde a beira do fosso. Uma ponte pênsil imaginária estendida até o lado de lá regula minimamente os acenos, gritos, sussurros, risos, choros.

Tanta concentração de desalentos, curiosamente, não faz desta uma dramaturgia sem esperança. Os textos da paulistana radicada na capital paranaense são luminares pelo estranhamento que geram, ecoando uma das premissas de Tom Stoppard, para quem escrever diálogos é a única maneira respeitável de se contradizer.

Os recantos dilacerados da alma são cutucados em Bicho corre hoje (2004), Delicadas embalagens (2008) e Homem piano – uma instalação para a memória (2010) com a mesma vara curta que atiça a linguagem da escrita arquitetada para cenas de carne e osso. No vácuo entre o Eu e o Mundo desses seres-ilhéus, é ali que borbulha a fala, a ruminação e as sinapses que estalam.

Como na voz multifocal em Homem piano:

Ele.

Eu.

Aquele que fala isso que agora digo.

Sueli escrutina a arte do drama feito uma gramática expositiva do vão. Estão dispensadas adesões sentimentais ou niilistas nas histórias que dão o que pensar afiando a ironia e o tirocínio na ponta da língua. Nelas, até a crueldade tem vigência poética. Ninguém é julgado. Constata-se.

Patricia Saravy e Greice Barros em Bicho corre hoje

Em Bicho corre hoje, realidade e fluxo onírico dançam nas cabeças de uma aposentada e de uma empregada. Elas são vizinhas tangendo a inconsciência e o acaso. Não morrem de amores uma pela outra, mas a lei da física as tornou cúmplices de parede e solidões. Uma, devota, tenta decifrar o que os sonhos querem dizer no afã de alcançar a sorte que não lhe deu o ar da graça em 30 anos sobre saltos altos no serviço de protocolo da “cidade-sorriso-feliz-e-hospitaleira”. A outra, ressabiada, é convencida a driblar o azar grudento de sua condição social, passando chão para madame, e finalmente arrisca a aposta numa loteria.

As personagens-narradoras exprimem linhas de força complementares em suas misérias espirituais e ambições materiais, talvez duas faces da mesma moeda. Entre a fé, o escárnio, a escatologia e a derrisão, esse painel trágico, cômico e brutal transcorre em superposições tênues de tempo e espaço que não deixam o espectador à deriva e o convida a jogar também as suas fichas até o desfecho magistral de tons grotesco e absurdo.

Escrita há quase uma década, a obra antecipa em seu conteúdo questões da mobilidade social que são mais flagrantes no Brasil de hoje, quando o trabalhador doméstico começa a sair da invisibilidade e a chamada classe C ascende, para gozo do mercado e do governo de turno que impingem o consumo à população, e ponto, fim de papo, enquanto os sistemas de saúde e de educação agonizam – para não dizer do rebaixamento histórico da cultura no plano da cidadania.

Um parêntese. Ressalvamos que o pendor sociológico é percebido de soslaio; nasce das entrelinhas. Jamais personagem, figura, narrador ou autora apelam à exposição direta. Antes, é a sustentação formal de cada texto que dá a ver o conceito por trás dos projetos da cofundadora da CiaSenhas de Teatro.

Se em Bicho corre hoje “rótulos vadios inauguram o dia pastel”, como desencanta uma das vizinhas, o estado de coisas é ainda mais gritante em Delicadas embalagens, que veio à luz quatro anos depois. A dramaturga como que sobe ao andar de cima para espreitar a família e sua crise permanente na contemporaneidade. Instância que patina, é reconfigurada e segue torta, tateante e claudicante na formação basilar do sujeito. Aqui, no entanto, o hipertexto é deformação.

Barros e Saravy em Delicadas embalagens

Pai e mãe. Duas filhas. Elas estudam. Ele trabalha. Ela é dona de casa. As situações mais corriqueiras são viradas de ponta-cabeça pela mentalidade código de barras dominante. O afeto vira objeto. Da escola ao lar, todos estão sob a regência dos produtos. Coisificados. Teleguiados por uma nuvem de estupidez e alheamento de mundo que não deixa pedra sobre pedra.

E já que se está a falar da espetacularização da vida, um apresentador prologa ao microfone que “os personagens estão encarcerados nesta ficção”. De fato, há uma bolha. E ela não está no chão, pois o condutor sugere que “os frágeis personagens desta narrativa se acomodam em um jardim de grama sintética fabricada de acordo com as normas internacionais de qualidade: 100% polietileno”.

Delicadas embalagens constrói acontecimentos terrificantes pela condição de vida em morte projetada por meio dessa estirpe e retroalimentada pelos laços fora de casa. Apesar do nonsense, a polifonia nos convence, aos poucos, de que essas figuras são mais palpáveis do que a vã imaginação. As feridas revestidas de humor não deixam de exalar a infantilização dos adultos. A desconexão familiar na era da comunicação digital. A anestesia pela perda, não importa o prejuízo. E o esvaziamento da capacidade de sentir.

Casado com a filha do chefe que engravidou, o jovem pai balizado pela Síndrome de Peter Pan resume a ópera com o libreto do bom patrão e sogro: “Deu-nos um carro, um apartamento e a incumbência de mobiliá-lo e torná-lo um lar. Estávamos fazendo isso”. Até que tudo ruiu. E mesmo assim ninguém auscultou.

Luiz Bertazzo no solo-instalação Homem piano

O texto Homem piano – uma instalação para a memória possui eixo performativo claro. O que move o sujeito ficcional (apesar da inspiração factual no caso de um jovem pianista inglês encontrado deambulando pela rua em 2005, sem eira nem beira) são as sensações vividas e guardadas no baú do corpo sob a expectativa do tempo que está por vir. No roteiro de quatro anos atrás, o ser de aura hamletiana atravessa as estações da lembrança e do esquecimento em busca dessas experiências. Boas ou ruins, ele intui revolvê-las como um modo da existência não estancar.

Do espaço público da rua aos cômodos do edifício que se embrenha, a interlocução com o espectador flutua por caminhos líricos, em verso ou prosa, e lança pistas do que teria levado à desmemória. O itinerante circunscreve o território onde pisa. E desse labirinto ele pode ir até a janela e indagar ao universo: “Ei, alguém pode me dizer quem eu sou?”. Uma vez pactuada a jornada, o homem implora aos presentes, com discrição, para que também acessem suas lembranças lúdicas, inconfessáveis ou mesmo dignas de pastelão. Afinal,

O ser sem lembranças

Padece de dores agudas

De esquecimento

É o esforço para alcançar o duplo, o outro, a si. Movimento recorrente nas três peças deste volume. A partícula “se” rastreia as condicionantes de um abraço entre as vizinhas, os pais e filhas, o “desmemorioso”. Todos por um triz.

Nesses escritos, o corpo é a plataforma vocabular.  “As pontadas de gracejos na boca do estômago ecoam por dentro do corpo tinindo na cabeça em ironia”, fabula a Vizinha 1. “A faca era própria para produzir fatias regulares e definitivas. O cabo, com proteção antibacteriana, me excitava o corpo e me transportava para um mundo de perfeições ilusórias”, viaja a Mãe. Lembrar “uma topada no dedão do pé’ ou “algo sobre o susto provocado pela língua molhada do primeiro beijo”, convida o Homem Piano em sua música interior.

No momento em que escrevemos este prefácio, final do outono de 2013, a CiaSenhas de Teatro está prestes a circular por festivais do país com Circo negro, sua produção mais recente, texto do argentino Daniel Veronese. O encontro com a obra do prestigiado encenador que problematiza a representação em tudo que é de sua lavra soa sincrônico ao pensamento artístico de Sueli Araujo. Sua escrita teatral não facilita a vida do espectador; excita-o para além do sofá do lugar-comum.

Ler as três peças nos faz evocar os rostos que as habitaram ou ainda habitam, conforme os espetáculos a que assistimos. Como tudo nesse coletivo em atividade desde 1999, a dramaturgia é entranhada pela colaboração vertical dos atuadores-criadores, os parceiros aos quais se dá as mãos a cada processo: as atrizes Anne Celli e Greice Barros, o ator Luiz Bertazzo, a produtora Marcia Moraes, a preparadora corporal Cinthia Kunifas, a figurinista Amábilis de Jesus, a fotógrafa Elenize Dezgeniski, o músico Ary Giordani e outros nomes fundamentais para empreender pesquisa e inquietação continuadas. Uma equipe de protagonistas. E de entrega incondicional que pode ser aferida ainda na realização, desde 2005, da Mostra Cena Breve Curitiba – A Linguagem dos Grupos de Teatro. O livro, portanto, constitui mais um capítulo para fruir o pensamento artístico da companhia e o olhar espirituoso e agudo de sua autora, diretora e atriz.

>> Prefácio ao livro Narrativas em cena, de Sueli Araujo, lançado em agosto de 2013 pela Máquina de Escrever Editora, de Curitiba.

Valmir Santos

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados