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Crítica

Scapin dá passagem à arte de Myrian Muniz

17.9.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: João Caldas

O solo Eu não dava praquilo se sobressai ao historiar a vida de Myrian Muniz (1931-2004) e, com ela, rememorar personalidades e situações indicativas da modernização do teatro brasileiro em seu período essencial de consolidação nas décadas 1960 e 1970.

Cassio Scapin, na atuação e coautoria do roteiro, e Elias Andreato, na direção, evitam os tons saudosista ou didático. Vão direto ao ponto: simplesmente dão passagem ao pensamento humanista e à arte que a atriz paulista tomava por sagrada.

Os criadores a abraçam com a sofisticação e o compromisso de ofício que Muniz exigia de si e dos parceiros de trabalho. Pobre daqueles que viessem a confundir o talento de comediante, verve histriônica das raízes ítalo-portuguesas, com falta de rigor.

Papéis cômicos, de fato, forraram o seu caminho. Mas os dramas da vida também vieram à carga, como na autocrítica ao abrir mão da presença continuada junto aos filhos parar dedicar-se à prática e à pedagogia das artes cênicas – porção idealista canalizada para o nascimento do Centro de Formação Macunaíma, atual Teatro Escola Macunaíma.

Em cartaz no CCBB SP, a montagem abre-se ao bom humor e às verdades cortantes. É feliz e inteligente ao dispensar a verossimilhança ou a caracterização para conversar diretamente com a maioria dos espectadores que desconhece a homenageada e não tem familiaridade com a cultura de teatro – e, no entanto, mostram-se embarcados.

Despojamento dá o tom na atuação de Scapin

Conhecido pelo timing cômico, Scapin harmoniza diferentes registros sem dificuldades. É narrador, Muniz e ele mesmo, ator. Quase sempre pisa ou está sentado ao centro do palquinho circular e saliente, com cerca de 1 metro de diâmetro, a lembrar os testes para quem presta vestibular diante de uma banca examinadora. Isso correspondente aos universos documental e ficcional da atriz e diretora formada pela Escola de Artes Dramáticas, a EAD.

Vestindo roupa preta básica, o ator é sutil na variação gestual que complementa os jeitos de falar e de olhar femininos. O figurino de Fabio Namatame dispensa adornos, idem para o espaço cênico que também concebe sob a equação do menos é mais. Com exceção à cena de desfecho literalmente brilhante.

A estratégia da neutralidade garante a plena comunicação das ideais da atriz e a humaniza por meio de relatos impagáveis e feitos notáveis – neutralidade que pode estar na base da relação simbiótica com o cinema de Ana Carolina, que sabia dosar a voltagem emocional da sua expressão diante das câmeras.

É assim que o espectador de todos os quadrantes acompanha sua inabilidade para trabalhar como enfermeira, enfrentar paciente nu quando ainda não tinha transado. As primeiras aulas na EAD, antes de incorporada à USP, quando levava dicionário para entender o palavreado difícil dos professores.

A constrangedora primeira vez em que dirigiu uma peça infantil e convidou o cenógrafo, arquiteto e amigo Flávio Império a assistir ao ensaio e ele reclamou da falta de perspectiva na disposição dos atores no palco, unidimensionais e sem jamais buscar o olho do público – o aprendizado da perspectiva.

Coautor sincroniza preceitos da homenageada

O roteiro, do qual Cássio Junqueira é coautor, contextualiza ainda os núcleos artísticos pelos quais ela passou, experimentando as mais diversas linguagens e estilos no Teatro Oficina, no Teatro Brasileiro de Comédia, no Teatro de Arena e nas companhias de Dulcina de Moraes e Nydia Licia.

À parte o meio teatral dominante, seu encontro com Elis Regina e a direção do show Falso brilhante fornecem algumas pistas quanto à convivência fraternal naqueles tempos sob ditadura. Eram meses de ensaio para outros tantos meses de temporada, caminhando juntos, independente das intempéries entre os gênios fortes da atriz e da cantora, para não dizer do restante da equipe e da produção.

Eu não dava praquilo atualiza com desafiadora naturalidade a magia que Myrian Muniz prezava tanto na troca sem rodeios com o espectador. Além de rememorá-la sob medida, Scapin e Andreato proporcionam à plateia de 2013 a experiência do encantamento que ela emanava do palco e o sentido da arte que a movia. Sem discurso, sem retórica. Uma história de ações concretas e de reflexões compartilhadas com prazer a cada noite. Uma mulher para quem o teatro sensibiliza, transforma e ata gerações. Como ela.

Ficha técnica

Roteiro: Cássio Junqueira e Cassio Scapin

Com: Cassio Scapin

Direção: Elias Andreato

Figurino e cenário: Fabio Namatame

Iluminação: Wagner Freire

Trilha sonora: Jonatan Harold

Assistente de direção: André Acioli

Produção executiva: Angela Dória

Fotos: João Caldas

Programação Visual: Denise Bacellar

Assessoria de imprensa: GM Casting – Gabriel Mendonça e João Assunção

Direção de produção: Fernanda Signorini

Realização: Signorini Produções e Dub Serviços Artísticos

 

Valmir Santos

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