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Reportagem

Comédie-Française traz Marivaux ao Brasil

15.10.2013  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Brigitte Enguerand

Mais antiga companhia teatral do mundo, a Comédie-Française volta ao Brasil. Em turnê, que já passou por Montevidéu, Buenos Aires, São Paulo e deve incluir o Rio de Janeiro, a companhia criada por Luís XIV, em 1680, apresenta O jogo do amor e do acaso, texto escrito por Marivaux em 1730, que merece direção do búlgaro Galin Stoev.

A escolha não poderia soar mais clássica, uma mordaz comédia de costumes, conhecida do público que frequenta a sede da cia. – um suntuoso palacete na Praça Colette, no centro de Paris – desde o século 18. “Mas, ainda que se trate de um texto antigo, é uma peça capaz de tratar do tema que me parece mais urgente hoje: a intolerância em relação ao outro. A relação com a diferença é algo que tem mobilizado a França. E nos parecia importante levar essa discussão adiante”, comentou Muriel Mayette, que comanda a Comédie desde 2006.

Turnê inclui Uruguai, Argentina e Brasil

Em O jogo do amor e do acaso, acompanha-se a história de Sílvia (Leónie Simaga), moça prometida em casamento a Dorante (Alexandre Pavloff). Com a intenção de conhecer o noivo antes do enlace, ela consegue convencer o pai a deixar que o encontre, disfarçada como criada. Nessa farsa, cabe a sua camareira (Suliane Brahim) ocupar o papel da patroa. Sílvia, porém, não contava com a possibilidade de que seu futuro marido tivesse a mesma ideia e se apresentasse travestido como servo.

O engano está na origem da comédia – o fato de um dos personagens ignorar o que, de fato, se passa em cena é elemento essencial para o gênero. Marivaux vai além: coloca os dois protagonistas em estado de ignorância durante boa parte do espetáculo. E retira daí o seu efeito cômico. Seu intuito, porém, não se restringe a entreter a plateia. Quer usar o riso para observar os costumes.

Por trás do enredo aparentemente ingênuo, a obra está a esmiuçar convenções sociais. Existe um evidente debate sobre a diferença de classes a ser colocado. Para o encenador, Galin Stoev, “hoje, é difícil abordar a questão de classe”. “Poderia quase dizer que as classes já não existem ou que se trata de uma questão muito menos visível. Em todo caso, prefiro falar de diferenças, de abismos. Vivemos em um mundo onde, paradoxalmente, as diferenças são destacadas de uma forma invisível.”

As máscaras são uma constante nas criações de Marivaux. Nessa peça, que ele concebeu para uma companhia de artistas italianos e, em seguida, foi incorporada ao repertório da Comédie-Française, a busca pela verdade desponta em primeiro plano. Ainda que essa verdade, em alguns casos, advenha necessariamente de uma mentira.

Marivaux usa comédia para observar costumes

Viagens não são novidade para a instituição. A casa de Molière realizou sua primeira turnê em 1889. E, desde então, já aportou em mais de 80 países. “A Comédie-Française ocupa um lugar único dentro da França, pela sua estrutura e pelas suas produções. Mas uma de suas mais importantes funções só se cumpre quando ela está no exterior, representando a cultura do nosso país”, conta Muriel, que no último ano levou a trupe a visitar pela primeira vez locais como a China, a Sibéria e o Iraque. “São lugares onde o teatro pode exercer um papel fundamental para o diálogo, pode atuar como um embaixador da paz, para compreensão das nossas diferenças. ” O Brasil é um dos países mais visitados pelo grupo, que já estiveram aqui em 1952, 1959, 1977, 1981, 1986 e em 2000.

Ao dizer que a afamada companhia ocupa um lugar único na cena francesa, Mme. Mayette não está a proferir um discurso vaidoso, mas a descrever uma situação sem par: 450 funcionários, 36 milhões de euros de orçamento anual e um repertório de 3 mil peças, que não para de crescer.

Grupo tem 333 anos de história

Ainda que essa pareça ser a imagem da perfeição diante da precariedade das produções brasileiras, a Comédie-Française não se viu imune à atual crise financeira da Europa. O orçamento ainda é 75% subvencionado pelo Estado, mas a busca por novos parceiros e mecenas tornou-se um imperativo para os negócios. “Para viajar ao Brasil, por exemplo, tive patrocínio das empresas francesas, mas não do governo”, diz Muriel.

Outro desafio para uma companhia centenária: como escapar à condição de “museu do teatro”, conciliando tradição a novas propostas estéticas? A preocupação, garante a diretora, surge no horizonte a cada novo encenador convidado, a cada nova obra que o grupo decide montar.

Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo, em 10/10/2013

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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