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Reportagem

Grupo 3 explora poder de manejar sujeito e cena

15.10.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: João Caldas

O quarto espetáculo do Grupo 3 de Teatro constitui prato cheio para os criadores habituados a transformar tudo em ação: a palavra, o gesto, o espaço, a luz, a sonoridade e tudo mais que estimule o jogo de cena. Desde o ventre de seu nome, Contrações, a peça do inglês Mike Bartlett já sinaliza as potencialidades físicas e faladas. Os diálogos enxutos, a codependência de quem comanda e é comandado, o rumor do assédio moral e a circunscrição de um ambiente corporativo são algumas das possibilidades formais e temáticas operadas pela diretora Grace Passô e pelas atrizes Débora Falabella e Yara de Novaes.

Nos tempos atuais, em que o conceito de gestão transborda para o campo pessoal – a vida a ser administrada por “você sociedade anônima” –, Bartlett é cirúrgico em seu diagnóstico e prescrição dramática. Para demonstrar o processo transformador do sujeito e de sua consciência em coisa, o autor radica a concisão de linguagem. O verbo é desferido entre quatro paredes como um sistema de agressões reiteradas para anular a subjetividade alheia. Velha estratégia dos regimes de opressão cada vez mais aplicada à nova ordem mercantil das relações.

É nesse lugar que a gerente de uma grande corporação vai manipular uma funcionária, confundindo deliberadamente aspectos profissionais e privados. Logo na primeira vez em que Emma pisa a sala e abre uma série de conversas informais com a gestora inominada, ela é instruída a ler uma das normas do contrato trabalhista que assinara. Aquela em que são vedados aos funcionários se apaixonar ou manter relações sexuais, curto e grosso assim, sob o álibi de evitar injustiças ou discriminações.

Bartlett, de 33 anos, não abre mão da ironia e do humor, independente do grau de violência a que Emma, interpretada por Débora Falabella, é submetida segundo a lógica cruel daquela que a provoca, na atuação de Yara de Novaes. A desconstrução cumulativa do sujeito é avassaladora a cada reunião a sós. Com medo de perder o emprego, Emma submete-se às perversões de quem a interpela e invade sua intimidade. O açodamento vai às últimas consequências, feito o impiedoso retrato da condição humana composto por George Orwell no romance 1984.

No seu primeiro texto encenado, My Child (2007), Bartlett abordou as agruras de um pai recém-divorciado em busca de acesso ao filho. Em Cock (2009), a sexualidade masculina é colocada em xeque após uma separação. Invariavelmente, ele perpassa a instância do íntimo e tem espaço cativo entre as produções do Royal Court Theatre, renomado centro internacional de pesquisa, formação e fomento a novos autores.

Em oito anos de formação, o Grupo 3 consolida uma identidade coerente ao desvelar tensões em vez de recorrer a procedimentos criativos convencionais na hora de contar uma história no palco. Seus trabalhos convocam o espectador à cumplicidade na jornada pelo desconhecido, estranho, deslocado. Basta citar a disponibilidade em circular pelo interior paulista, em abril passado, expondo o processo criativo de Contrações, ora estreando temporada no CCBB SP. Cada sessão foi seguida de escuta do público sobre os experimentos tateados pela equipe, contribuições valiosas para efetivar as escolhas estéticas e poéticas.

Débora Falabella e Yara de Novas na peça de Bartlett

Convidada a encenar a peça, a também dramaturga e atriz mineira Grace Passô é conhecida pela inventividade ao dosar contundência e delicadeza. Registros que também imprime enquanto escritura cênica, para além do texto, não importando os pendores absurdos ou grotescos nele contidos. Na primeira parceria com o Grupo 3 de Teatro, ela encontra interlocutores com fôlego para extrair dos subtextos da obra inglesa outros paradigmas sobre os sentidos da arte. Procura evitar, por exemplo, leituras moralizantes ou maniqueístas, deixando o espectador livre em suas percepções.

De fato, o caráter da obra aberta e capaz de discutir o próprio campo do fazer teatral, suas razões, superações e limites, é um dos traços marcantes no pensamento de Grace Passô. Vide a segurança com que conduziu o Grupo Lume em Os bem-intencionados (2012), uma simbiose de gerações. E a pesquisa continuada desenvolvida junto ao Grupo Espanca!, de Belo Horizonte, que deu frutos como Por Elise (2005), Prêmio Shell de Teatro de melhor autora em São Paulo; Marcha para Zenturo (2010), parceria com o Grupo XIX de Teatro; e O líquido tátil (2012), direção do também autor argentino Daniel Veronese, referência da cena portenha contemporânea.

Em recente mostra de repertório realizada no Teatro Sérgio Cardoso, o Grupo 3 compartilhou a memória dos espetáculos de que é feito. O público viu ou reviu A serpente (2005), de Nelson Rodrigues, dirigido por Yara de Novaes; O continente negro (2007), do chileno Marco Antonio de La Parra, por Aderbal Freire-Filho; e O amor e outros estranhos rumores – 3 histórias de Murilo Rubião (2010), também por Yara de Novaes.

Débora Falabella e Yara de Novaes, portanto, são criadoras curtidas nessa entrega incondicional ao ofício. Princípio que está na gênese do núcleo cofundado ainda pelo produtor Gabriel Fontes Paiva. Tal filosofia de trabalho é tributária da manutenção dos laços com colaboradores como o cenógrafo e figurinista André Cortez, o músico Morris Picciotto, que assina a trilha original, e a tradutora Silvia Gomez, que verteu Bartlett para a oralidade do português. Todos – e mais o desenho de luz da convidada Alessandra Domingues – a bordo dessas Contrações, singrando mares de insensatez e plausibilidades que dizem muito sobre nossa época.

>> Publicado originalmente no site Ideias Online CCBB SP – Informações, Arte e Cultura Digital, projeto da jornalista Beatriz Gonçalves.

Contrações – De 19/10 a 9/12. Sáb., às 17h30 e às 20h; dom., às 18h; seg., às 20h. R$ 10. CCBB SP (r. Álvares Penteado, 112, tel. 11 3113-3651). R$ 10.


Valmir Santos

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