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Reportagem

A percepção alquímica no teatro de Fauzi Arap

5.12.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Derly Marques/Reprodução

Em 2007, reporto para a Folha de S.Paulo a estreia de Chorinho na cidade, texto que Fauzi Arap escreve no ano anterior e chega ao palco pelas mãos do diretor Marcos Loureiro. Claudia Mello e Caio Blat contracenam em diálogos evocativos de Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos, e Zoo story, do norte-americano Edward Albee.

O próprio Arap remontaria Chorinho em 2012 com Denise Fraga e a mesma Claudia Mello nas peles, respectivamente, do morador de rua e da aposentada que disputam um banco de praça e saem transformados desse encontro.

Uma semana antes daquela reportagem, Fauzi Arap liga ao repórter comunicando a morte do dramaturgo José Vicente (1945-2007), de Hoje é dia de rock, O assalto e Santidade. Nesta peça, dois irmãos contrastam o sagrado e o profano, sendo um ex-seminarista e o outro prestes a se tornar padre. A montagem que dirigiu em 1997 trazia Mario Bortolotto no elenco.

Arap atribui influência decisiva de José Vicente bem como de Plínio Marcos (1935-99). São autores que dirigiu ou atuou em suas peças nos anos 60.

A mesma edição do jornal de 29/9/2007 condensa assim a biografia do ator, autor e dramaturgo, entre outras funções exercidas ao longo de 55 anos teatrais: “Formado em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP, Fauzi Arap empreendeu uma viagem paralela à arte do teatro nos anos 60 e 70. Em busca de autoconhecimento, mergulhou em experiências com o ácido lisérgico, mais conhecido como LSD, droga sintética que ficou associada à juventude dos anos 60. Passou de noções marxistas às místicas e esotéricas em busca de acesso aos chamados estados alterados de consciência. E também deu notícias de comportamento daquela época. Seu relato está em Mare nostrum: sonhos, viagens e outros caminhos“.

Compartilhamos a seguir trechos desse relato autobiográfico publicado em 1998 pela Editora Senac, de São Paulo, e prefaciado por Aimar Labaki. Pertencem ao capítulo O teatro da alquimia e a alquimia do teatro, à página 225. Então na casa dos 60 anos, ele rememora bastidores da produção de sua segunda peça, Um ponto de luz (1977), logo após debutar com Pano de boca (1975):

Ileana Kwasinski e Francarlos Reis dirigidos por Arap

(…)

“Só a visão estreita do comum dos mortais costuma atribuir ao isolamento e à morte uma cor escura ou ausência de luz. Mas talvez seja essa mesma coisa tão escura, sem que saibamos, que nos conduza, e seja ela mesma nosso guia, em nossa procura incansável de uma possível luz absoluta. E o teatro foi um caminho. O teatro é um caminho. Por onde se deve e se pode passar, e nunca ficar. Quando se absolutiza a coisa estética do teatro, pode-se incorrer no erro de trancar-se num inferno particular. Para mim, desde o início, intuí nele uma forma de alquimia e transformação, que me estava des­tinada, e que eu reconheci.”

(…)

“Existem os que fazem, do teatro, profissão. E conseguem viver suas vidas sem risco, escondidos atrás de suas personas profissionais. No meu caso pessoal, isso nunca foi possível. Nunca consegui circunscrever a magia implícita do fazer teatral ao tablado ou palco. Nem como ator, nem como diretor ou autor. Maldição ou bendição, quem adivinha a alquimia inerente à arte da representação não pode nunca mais repousar à superfície. E vê-se obrigado a buscar um mergulho cada vez mais profundo para tentar decifrar os mecanismos de funcionamento dos cordéis que movem as pessoas, seus impulsos e emoções. A busca desse conhecimento acaba por tornar-se um compromisso, mesmo tomado à revelia. Foi o itinerário particular que acabei percorrendo que me fez descobrir o palco como uma espécie de ‘cadinho alquímico’

A atenção é um instrumento mágico. Mesmo que, naquele momento, eu tivesse tentado ensaiar a peça mantendo uma saudável distância de meu interesse por questões esotéricas, o próprio texto, em suas palavras e diálogos, trazia em si a presença daquelas questões. Talvez o grupo nem mesmo acreditasse nas verdades implícitas ao texto e o que tenha atraído as pessoas te­nha sido a tentação estética e o desejo de serem dirigidas por mim. Naquele momento, eu me valia da fama de ser ótimo diretor de atores para seduzir grupos e pessoas para as montagens daqueles primeiros textos. E, em meu desejo de ir fundo no tra­balho com atores e texto, era impossível não tocar em certas ques­tões. E, mesmo a repetição diária dos diálogos, como um mantra, acabava impregnando o ambiente da realidade mágica abordada pelo texto. Até então, eu ainda não me dera conta da necessidade de administrar a realidade paralela à própria peça, que só a ma­turidade veio me ensinar. Mas essa experiência, mais que nunca, me ensinou, de uma vez por todas, os perigos implícitos ao paralelismo entre encenação e vida, quando não existe um com­promisso real com a verdade abordada por texto e espetáculo. Ao dirigir minhas próprias peças, eu acabava por acrescer um peso adicional a meu trabalho, pela responsabilidade total que assu­mia diante de tudo.

Escrever foi minha convalescença, mas, ao encenar meus textos, acabei sendo obrigado a rever minha compreensão solitá­ria daquelas questões, diante da presença física de terceiros e de todos os conflitos que a tentativa de traduzi-las em espetáculo me colocou. Minha primeira peça, Pano de boca, acabou funcionando como um verdadeiro curativo sobre as feridas dos hippies rema­nescentes. Lembro que, no Rio, depois da estreia, alguém me cochichou ao ouvido: ‘Obrigado por tê-la escrito por nós’, e esse ‘nós’ muito me gratificou, por mostrar que a coragem do mergu­lho solitário que eu empreendera acabara por dar seus frutos, permitindo que eu reencontrasse meus companheiros em outro nível.

No palco e na vida, é impossível desempenhar um papel qualquer sem comprometer-se. Ninguém escapa ileso dos desafi­os da representação social. A máscara sempre cola à face, e só isso fez de mim um ‘autor’. Mas o exercício dessa função nasceu da necessidade de compreender e não de uma ambição artística ou profissional. Talvez só agora eu me sinta capaz de uma plena profissionalização, eventual. A temática de todas as minhas peças refere-se à questão da identidade e da loucura, e da busca de Deus, mesmo que, às vezes, eu tenha mascarado os significados em busca de uma comunicação mais leve com o público.”

(…)

“O papel alquímico da arte e a potencialidade que encerra de autotransformação me parecem estar associados à sua própria essência. Para os que adotam esse princípio, ele se torna o cinto de segurança e proteção contra qualquer tipo de vaidade e descaminho possível. Sempre me pareceu que sucesso e fracasso deveriam ser medidos pelo resultado interior. Quando alguém se transforma com um trabalho, isso é que deveria ser considerado um sucesso, e quando continua idêntico a si mesmo, ainda que o aplauso seja total, o resultado pode ser inútil.

Não sei se o teatro é sempre um ritual mágico. Talvez de­penda das circunstâncias, dos atores envolvidos e do texto, entre outras coisas. Artaud e Grotowski intuíram essa verdade, cada um à sua maneira. Com certeza esse é um terreno perigoso, e Artaud terminou sendo um mártir de suas ideias. O teatro é deso­bediência permitida. A atração que sempre exerce não é só pelo espetáculo, mas pelo reconhecimento que possibilita de que a vida não é o que parece. Ele possibilita uma libertação temporária do grilhão das máscaras, e é um respiradouro que nos ajuda a esca­par do tablado raso do cotidiano. Todo meu itinerário particular me comprometeu com a descoberta do teatro como religião. Tal ideia não me mobiliza enquanto tese acadêmica ou teoria estéti­ca, mas como a verdade mais íntima que se pode extrair e desco­brir nas entranhas dessa arte. Por sua natureza artesanal, ele afirma a individualidade e nega a clonagem possível em outros meios de comunicação.

Pessoalmente, as crises que vivi com a profissão acabaram me educando e possibilitando que eu descobrisse horizontes com que não sonhava.”

(…)

“Um poeta tem da vida uma leitura particular, que o ajuda a enxergar além. Pessoalmente, foi o teatro que me ensinou a enxergar, na vida, suas estruturas internas.”

>> Leia também: Teatro perde o mestre Fauzi Arap

 

Valmir Santos

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