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Crítica

Bagaceira faz close-up de poros em ‘Mão na Face’

18.12.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Diego Souza

Há intimidades e intimidades. Em que medida desnudar-se é estar por inteiro diante do outro? A mão na face projeta poros da percepção da verdade que lentes de webcan não dão conta. O Grupo Bagaceira de Teatro compõe um realismo radical em todos os aspectos desse espetáculo, pode-se dizer, afluente da dramaturgia de Plínio Marcos (1935-1999) pelo talhe da carne e da alma. Veludos e Neusas Suelis são entreouvidos.

A travesti Gina e a cantora Mara dividem um retângulo que traz em cada uma das extremidades um camarim básico, espelho e bancada, ficando as laterais cercadas por uma única ripa. Numa vista aérea, esse espaço cênico lembraria a configuração de uma cama. Sem colchão. É nessa estreiteza que ambas as vidas são radiografadas e friccionadas sob a respiração e o olhar do espectador que também lhes são rentes.

Démick Lopes e Marta Aurélia expõem suas atuações em close-up, escrutinados em 360º pelo campo de visão de todos os presentes. Nesse desenho espacial não há margem, mas centro, apesar da condição de marginalizados que os reveste.

Há algo de iconoclasta nessa opção do diretor Yuri Yamamoto, responsável ainda por cenografia, figurinos e luz. Os atores, porém, não surgem como animais na jaula submetidos à minúcia implacável.

Démick Lopes abraça Gina com sensibilidade

A aproximação epitelial captura o texto cirúrgico de Rafael Martins. Seus personagens têm por ofício ofertar a fantasia aos clientes/fregueses. Vistos in loco na salinha de fundo ou de subterrâneo, distante dos palcos, eles não precisam usar máscaras para aliviar. O espetáculo também não.

Nada seria sustentável sem atuações à altura. Do contrário, empreitada assim ruiria fácil nos primeiros minutos. Lopes e Aurélia, no entanto, dão a ver a dignidade da beleza e da miséria em Gina e Mara. Existe tutano debaixo de suas perucas. Brilho interior que não reluz no esmalte, nas lantejoulas, no batom.

São almas nuas, postas do avesso, machucadas. Dispensadas de análises sociológicas porque conscientes, a seco, das formas de exploração, das dores e delícias da noite. Demandam a ordem universal dos mortais que querem simplesmente carinho e reconhecimento.

Marta Aurélia solta vozeirão e domina a cena

Numa segunda sessão do espetáculo, com intervalo de poucos minutos, a dupla de atores não recua da transcendência poética que lhes cabe em dobro nesse drama. Aurélia sublima a canção a capela e a segurança no olhar com a naturalidade de quem não tem mais porque se espantar neste mundo. Lopes mimetiza a natureza feminina do homem descartando o clichê com que a travesti costuma ser tratada. A lupa revela a leveza do artista de corpo inteiro.

E repare bem: o espectador que ri muito em A mão na face provavelmente não está conseguindo encarar a realidade de perto como Gina e Mara o fazem de letra, inclusive mirando espelhos distorcidos.

>> O jornalista viajou a convite da organização do 9º Festival de Teatro de Fortaleza.

Valmir Santos

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