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Crítica

Palhaça Nada vai à feira medir o custo-riso

1.12.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: David Cadeira

Numa feira apinhada do Bom Jardim, na periferia de Fortaleza, a palhaça Nada puxa seu carrinho de bugigangas e disputa espaço com feirantes, fregueses, sacolas, bicicletas, motocicletas e outros carrinhos de mão improvisados como carreto. Nariz do tamanho de uma maça, peruca de fios encaracolados e macacão azul e amarelo não deixam dúvidas de que ela está na contramão do ambiente aparentemente informal, ao ar livre. Lugar de comprar, trocar e vender desde tempos medievais.

Escudada por Nada, a atriz Sâmia Bittencourt provoca o riso, mas não o dá de barato. Como os feirantes que tentam atrair os passantes, ela intervém com brincadeiras e improvisos até fisgar a atenção de um ou de outro que se permitam contracenar, brincar e improvisar em troca de dinheiro, como ela diz, por meio da voz distorcida ou do gesto em que o dedo polegar esfrega a ponta do vizinho indicador.

A abordagem é lírica ou festiva, contextualizada pela batida do triângulo ou pelo sopro da escaleta do músico Carlos Hardy, que acompanha as estripulias com desenvoltura. O desfecho de cada diálogo bem-sucedido vem sempre na forma da incisão. Para além da moeda do riso, há o vil metal. Eis a contingência do custo-riso.

A dramaturgia aberta não problematiza tal sistema de troca simbólica numa situação prato cheio. A artista que responde ainda por concepção e direção desperdiça a oportunidade de tensionar o humor, de semear a crítica sobre o estado de coisas.

Somente ao final da intervenção, longe dos olhos da maioria, ela repassa as moedas de bom grado ao grupo de crianças e adolescentes que a acolhe incondicionalmente durante todo o trajeto, inclusive sugerindo-lhe ações diante de um ou outro conhecido do pedaço.

Sâmia Bittencourt, a palhaça Nada

Se a palhaça não aprofunda a contradição, deixando o riso guiar-se pretensamente solto, o mesmo não acontece com interlocutores que reagiram com rispidez diante da presença da alegria. Um feirante armou aspereza, desconfiado de que a molecada liderada pela brincante fizesse um arrastão em sua banca. Um religioso que se pretende fervoroso esconjurou “esse demônio”, de chofre, sem ao menos lhe dar ouvidos.

Nada, essa figura adorável, de fato diz a que veio. Como se propõe. Cativa, tem atenção perimetral, até dobra um ou outro ranzinza. Mas quando um artista ocupa o espaço público, a rua de uma feira, não dá para se conformar apenas com a simpatia alheia. É pouco.

Houve quem a tratasse por “palhaçinho” ou por “pinguim”. Essa ambigüidade valiosa tem tudo para ser aprofundada. Pululam significações e ressignificações para quem está disposto a ir de encontro às multidões no Brasil atual. O palhaço, principalmente quando na pele de uma mulher, tem poder de instaurar também a discórdia e cutucar a paz presumida. Ou seja, conviria um pouco mais de intrepidez a esse espetáculo itinerante chamado Um tiquinho de Nada, da Companhia Circo Lúdico Experimental.  Um piscar de olhos, dizem, às vezes move montanhas.

>> O jornalista viajou a convite da organização do 9º Festival de Teatro de Fortaleza.

Valmir Santos

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