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Crítica

Máquina atualiza ser autômato de Büchner

1.12.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Davi Lázaro

Ao arremedo de fábula que Georg Büchner (1813-1837) aplica em Leonce e Lena para desconstruir convenções românticas, políticas e sociais o Teatro Máquina deita seus próprios dispositivos espaciais, visuais e sonoros sem eclipsar o antienredo palaciano do autor alemão. Como ele, o grupo investe na comicidade crítica e, livre associação, contrapõe-se à voga do riso oco e autômato, uma pandemia do momento brasileiro.

Mais de século e meio depois do surgimento da peça, a montagem de Fran Teixeira lança luzes piscantes na semiarena e adiciona um DJ com pickup e microfone na cabeça do espaço cênico. Chamado para próximo dos atuadores, o espectador não demora a perceber que nada é o que parece. Os figurinos estilizam a publicidade esportiva. Rei, príncipe, rainha, governanta, mordomo, conselheiros e súditos são todos contemporâneos em suas vestes e vicissitudes.

Na roupagem estética da obra do jovem Büchner – ele viveu apenas 23 anos -, o Máquina revolve memórias e procedimentos de sua primeira década de atividade. A começar pela volta à metade do caminho, a remontagem do texto que visitou em 2005. Ou seja, a mixagem não se dá apenas à luz do presente, carrega a experiência de oito anos atrás impregnada em parte dos criadores que aí estão.

A comédia engenhosa de Büchner, única do gênero que legou, constitui um libelo à defesa do pensamento. A consciência do sujeito quanto a direitos e deveres. Sua liberdade em cobrar reciprocidade dos mandantes e não ser subjugado. A fala confusa e ao mesmo tempo reveladora dos desmandos de Rei Pedro (Levy Mota) e os lampejos etílicos de seu braço direito Valério (Edivaldo Batista), ávido pelo cargo de ministro de estado, são chaves na exposição das vísceras do poder.

Ana Luiza Rios e Márcio Medeiros, os amantes

É notável a orquestração de Teixeira para não macular as ideias. Um equilíbrio difícil de manter entre a não representação e os signos figurativos da encenação, ainda mais sob o pendor do épico. O que inclui jogar com as dissimulações inerentes à dramaturgia de origem.

Há generosidade em situar a plateia na seara da linguagem que condiz com a verve dos diálogos e digressões. Não significa “facilitar” o trabalho de leitura a que o espectador de Büchner é instado, seja no século 19 ou no atual.

A certa altura, um intermezzo musical trata do mote antípoda de Romeu e Julieta. Moça e rapaz vivem cada um em seu reino, ela no de Pipi e ele no de Popo. Sem que se conheçam, são forçados ao casamento com uma pessoa incógnita escolhida pelos respectivos soberanos. Até que o acaso os une e apaixonam-se durante a fuga. Levados ao pai do príncipe que decretou casá-lo a todo custo, Leonce (Márcio Medeiros) e Lena (Ana Luiza Rios) usam máscaras de papelão e só após o rito sacramental sui generis suas identidades são finalmente reveladas.

Na concepção do Máquina, os jovens amantes são conduzidos ao altar na forma de bonecos manipulados por atores que até então davam vida aos personagens. Repousa aqui o coração da montagem: as imagens e movimentações dos bonecos traduzem as palavras das entrelinhas do texto quanto às manobras a que o indivíduo pode ser submetido e perder sua autonomia.

Coro dos conselheiros na montagem de Fran Teixeira

E se a palavra vale ouro nessa jornada, o elenco mostra-se desigual na entonação. Tamanha proximidade de cena favorece a escuta e a clareza, mas nem sempre essa equação funciona. Não é o caso de apontar um ou outro ator porque quando a projeção vai bem, a articulação do que se diz às vezes não a acompanha. Se a encenação reverbera outros prismas para essa história, o verbo também requer suas cores.

A voz tornou-se uma espécie de calcanhar de Aquiles do Teatro Máquina. Em Ivanov a desidratação vocal parecia corresponder a potencializar o tédio tchekhoviano. Um teatro dos sussurros com o risco de naufragar em espaços que o engula. Como testemunhamos no ginásio de esportes em que foi apresentado na edição deste ano do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. Em Leonce e Lena, o tédio também espreita o príncipe em ações e divagações. A introspecção, porém, é da ordem do burlesco. A vibração física dos atores na ocupação global do espaço, circundando até as arquibancadas da audiência, pede uma dinâmica vocal à altura.

Em contrapartida, Felipe de Paula, Loreta Dialla e os demais atuadores citados, além daqueles que assinam música (De Paula) e figurinos (Diogo Costa) são cúmplices e fundamentais nos alicerces desse projeto artístico. Dez anos de pesquisa continuada em que variantes como as formas animadas, o treinamento de ator, a compreensão textual e o pensamento crítico dão liga ao coletivo que não tem dúvidas quanto a sua identidade e o lugar de onde fala.

>> O jornalista viajou a convite da organização do 9º Festival de Teatro de Fortaleza.

Teaser do espetáculo:

Valmir Santos

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