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Crítica

Bagaceira entrelaça tradição e intimidade

26.2.2014  |  por Mayara de Araújo

Foto de capa: Estúdio Pã - Henrique Cardozo

No Brasil, ser espectador é padecer – recordo-me desta frase de Bárbara Heliodora – e concordo com ela quando penso em várias pessoas que, apesar de possuírem algum carinho pelas artes cênicas (em geral por terem mantido contato com o teatro, na adolescência), confessam-se perdidas diante da programação dos palcos, tateando entre as ofertas.

Isso se dá, geralmente, por um temor instaurado (muitas vezes pré-concebido) de não alcançar a proposta do espetáculo, de ver-se diante de uma apresentação hermética, “experimental demais”. Inicio minha análise a Interior, do cearense Grupo Bagaceira de Teatro, discorrendo sobre isso porque considero-o um daqueles espetáculos ideais para servir de porta de entrada ao vasto mundo do teatro; que eu mesma sugeriria ao espectador mais leigo e, ao mesmo tempo, ao mais exigente.

O motivo? Interior leva ao palco, com simplicidade, aquilo que nos é comum, familiar. Afinal, como diria uma das personagens, “se você não teve vó, como é que tá vivo? Como é que tá aqui, vendo essa peça?”. A montagem, com texto de Rafael Martins, trata de duas senhorinhas – avó e neta – que insistem em não morrer.

Ambas já passaram por diversas gerações e, mesmo assim, permanecem ativas e falastronas, contando suas histórias e cantando suas cantigas a quem lhes visita; caminhando em passinhos curtos, mas ainda faceiras, futricando memórias, implicando com as netas e – como toda avó – oferecendo o que comer. Interior fundamenta-se, portanto, nesse arquétipo da avó, personificação de afeto ilimitado e de elo de ligação entre a capital e os costumes interioranos.

Espetáculo revisita tradições populares do CearáDiego Souza

Espetáculo revisita tradições populares do Ceará

Entre tantos lugares para se buscar aprimoramento (em outros estados e países, inclusive), o grupo se decidiu pelo interior do Ceará, rico em manifestações culturais das tradições populares e em cerimônias religiosas dotadas de grande potência cênica ancestral.

Conhecer os reisados, as dramistas, os caretas e as festas de padroeiros e padroeiras, sem dúvida, alarga as possibilidades teatrais de qualquer companhia. Mas a outra felicidade do Bagaceira foi dedicar-se ao tema ‘in loco’ e sem pressa. O espetáculo é fruto de uma pesquisa de dois anos, durante os quais o grupo circulou por quatro cidades do interior cearense: Tauá, Icó, Beberibe e Itarema.

Estando nesses lugares, tomaram mais uma decisão: em vez de focar nas manifestações populares cearenses, o grupo imerge em busca do sujeito que as realiza. Quem é a senhorinha por trás do papel de dramista? Como é a casa dela? Sobre o que ela conversa? Como ela era quando mais nova? Foi essa imersão que lhes levou à figura de suas próprias avós, tão cheias de semelhanças com os sujeitos que lhes cativaram durante as viagens.

Ao decidir pelo viés dos sujeitos, no entanto, o grupo acaba deixando de lado a riqueza própria das manifestações. As músicas, as danças, o trato com a religiosidade e com o místico: tudo isso passa ao largo, é pouco explorado. Não se pode dizer, contudo, que isso empobreça a montagem, mas quem sabe a pesquisa de dois anos rendesse ainda uma outra produção, desta vez com foco nas ações coletivas: os dramas, os reisados, as festas.

Manter o foco nos sujeitos implica ainda em assumir uma grande responsabilidade: a de construir personagens com minúcia. No caso de Interior, as velhinhas que se encontram no espaço cênico são tão verossimilhantes que o espectador se pega, instintivamente, ajudando-as a subir os degraus das escadas.

Mas não se trata de refletir no palco um único modelo de moradora do interior do Estado. As personagens consistem em um apanhado rico de trejeitos, expressões e manias de dezenas de sujeitos. São de impressionar as transfigurações cuidadosas de Samya de Lavor e de Tatiana Amorim, que passam longe dos estereótipos de idosas em espetáculos teatrais e encenam, cada uma, a sua velha. A sua avó.

Seguindo um caminho recentemente experimentado em A mão na face, última montagem do grupo, o Bagaceira volta a proporcionar o que nosso companheiro de Teatrojornal, Valmir Santos, definiu como “um close-up de poros”. Em Interior, volta-se a apostar numa estrutura cênica reduzida, ultra-aproximada, em que ator e espectador ficam lado a lado. Proposta óbvia levando-se em consideração a essência do espetáculo. Afinal, como seria possível tirar uma brincadeira, mostrar fotografias e oferecer um pedaço de bolo se a visita está sentada numa cadeira ali tão longe? Interação é a palavra-chave da montagem, que, mais uma vez, desafia as atrizes.

Ao longo de uma hora de duração, Samya e Tatiana estabelecem um diálogo íntimo com a plateia, arriscando propositadamente o texto-base e arrastando-a carinhosamente para o “interior” da manta dramática. Lançam-se muitas questões ao público: o modo como se imaginam no futuro, a relação dos espectadores com suas respectivas avós (e aqui já não me estendo para não entregar mais nada).

Vale ainda ressaltar a forma irreverente como as personagens brincam com presente e passado, incorporando elementos “modernos” em suas rotinas: a vela de cera é trocada pela eletrônica, de bateria; o rádio de pilha dá lugar às caixinhas de som com entrada para cartão SD.

Por fim, esta que vos escreve pode apenas agradecer ao espetáculo, que ajuda a aplacar as saudades de quem – como eu – já não tem mais suas avós por perto. Nas duas protagonistas, entrevi as minhas próprias avós e voltei para casa com o coração dolorido, mas consolado. Sensação de tê-las revisitado por uma hora inteira.

Parcialmente publicado no Diário do Nordeste , em 17 de janeiro de 2014.

Interior

Ficha Técnica:
Atrizes: Samya de Lavor e Tatiana Amorim
Texto: Rafael Martins
Iluminação e figurino: Yuri Yamamoto
Produção: Rogério Mesquita

Sábados e domingos até novembro, às 19 horas
Casa da Esquina (rua João Lobo Filho, 62 – Fátima)
R$ 20

Mayara de Araújo

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