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Crítica

Antunes abre códigos-fonte com Thornton Wilder

30.3.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Emidio Luisi

O encontro de Antunes Filho com Thornton Wilder diz mais sobre o ícone da encenação brasileira, o homem e o artista embarcados em seis décadas de trabalho, do que propriamente os vetores estéticos que o orientaram por pelo menos dois anos de pesquisa e ensaio. Nossa cidade mostra um criador nu e íntegro com a sua cena, mentor de espetáculos antológicos e ora sem o encalço da angústia da inovação a cada passo. Os códigos-fonte estão emocionalmente abertos no tablado do Teatro Sesc Anchieta, independente dos enigmas que a obra encerra. Não há um grande ator ou atriz a ancorar o projeto, como se condicionou aludir ao método sistematizado ao longo dos anos. A horizontalidade e o perfil multigeracional dos protagonistas do Grupo de Teatro Macunaíma/Centro de Pesquisa Teatral o deixa mais exposto à própria condição humana de mestre que também confronta crises e estas o provocam a destilar arte.

Estamos diante de uma criação apascentadora, que se deixa respirar e esvaziar para alimentar sentidos espirituais na troca com o público. É o tempo da sabedoria de José Alves Antunes Filho, como dela usufrui um Manoel de Oliveira no cinema. Tempo de resplandecência mística que o espectador que o acompanha desde o início da década de 1990 só conhecera na encenação da epopeia de Gilgamesh, em 1995. Essa capacidade jamais seria sustentada sem a experiência pessoal, autodidata, crítica e poética do sujeito cuja imagem de diretor confunde-se com a história do teatro brasileiro em seus percursos de afirmação modernista e no desaguar contemporâneo.

O personagem Diretor de Cena é notadamente aquele sobre o qual a montagem de Nossa cidade desdobra simbologias específicas sob a lavra de Antunes. Vemos no olhar e na postura do ator Leonardo Ventura características do artista de 84 anos que o conduziu ao epicentro de uma dimensão épica meticulosa. De sua cadeira de rodas, sequelas de uma guerra, o narrador e ex-combatente de boina sublinha na voz, nas mãos e no tirocínio a capacidade de reger os fragmentos de vida e morte em Grover’s Corners. Sua onipresença toca ainda ao espectador a que se dirige e triangula com os personagens defendidos por outros 15 atuadores.

O aparecimento do Diretor de Cena não se dá no palco, mas numa das entradas na metade da plateia. Para transpor o corredor e o vão até ocupar o espaço cênico, ele é carregado no ar por um coro masculino, sempre na cadeira de rodas. Esse momento de silêncio e dor, como nas procissões de fé, prenuncia o convite à circunspecção que as cenas seguintes vão demandar.

Leonardo Ventura é meticuloso como Diretor de Cena

Quando Antunes adota o substantivo “reconstrução” para apropriar-se da dramaturgia de Thornton Wilder (1897-1975) assume o mesmo desvio da “coordenação” que bancou para os experimentos naturalistas da série de peças curtas Prêt-à-porter (1998-2011), alegando mais autonomia aos atores, em vez da trivial “direção”, como o faz desde a década de 1950, influenciado pelos encenadores estrangeiros aportados no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC).

Reconstruir indica mensagem de processamento e síntese da biografia que o traz até aqui. Como se pudesse reter do passado aquilo que precisa ser lembrado ao futuro. Movimento este também verificável no texto do autor norte-americano por ele cotejado. Rubricas e narrativas modulam closes e planos abertos do cotidiano de homens, mulheres, velhos e crianças do microcosmo imaginário que é pontuado por tintas realista, expressionista ou simplesmente esmaecida.

A desolação pela cultura da guerra, sobretudo a perpetuada pelos EUA desde sua certidão de nascimento, como na dizimação de índios, equilibra-se com a resiliência da elegia. O tempo antuniano é mnemônico nos modos de ler a história e questionar o presente. Wilder, por outro lado, oferece condições ideais para desenhar o sublime nos detalhes, iluminar outros aspectos às vezes irreconciliáveis.

Os teores sociais e políticos ponderados desde o texto original são atualizados com clareza e indignação superiores ao do panfleto direto em se tratando de geopolítica. Antunes, o reconstrutor, escuta Wilder com acuidade. Reverbera as falas em que o desprezo pela cultura e pela arte soa estratégico aos governantes interessados na deformação daqueles que, em tese, representa. A ignorância é uma moeda, os processos históricos ensinam.

Gui Martelli e Naiene Sanchez, o casal Gibbis

Os limiares do viver e do morrer são refletidos em ciclos de dois núcleos familiares, os Gibbs e os Webb, além das relações de seu entorno. Ao subtrair a passagem do casamento entre os três atos que compreendem os primeiros anos do século 20, Antunes procede assim, talvez, porque o entrecho diminuiria a contundência do todo aos olhos dispersivos do século 21, especialmente no país em que tais cerimônias foram banalizadas pela televisão.

De um modo geral, Wilder perpassa os estudos, a juventude, a percepção de finitude e a consciência tardia do caráter, das atitudes e escolhas na existência de homens e mulheres da classe média americana conservadora e protestante, moradores de uma pequena cidade assentada no pico de uma colina e movida pela atividade agrícola, daí o sotaque inglês levemente acaipirado.

Nossa cidade proporciona instantes memoráveis. O poema Ode à democracia, de Walt Whitman, é lido à maneira de uma reza à humanidade. O instante em que a pequena Emily Webb (por Sheila Faermann) encanta-se pela descoberta da fantasia ganha uma solução viva e despojada por meio do desenho de luz. Não há truques. O público vê e crê naquele passo mágico da menina feito a Alice de Lewis Carroll atravessando o espelho. Um terceiro momento inspirado é o sobrevoo de helicóptero na parte final, em que a direção de arte de Hideki Matsuka e a trilha sonora de Raul Teixeira compõem um quadro digno da sensibilidade cinematográfica de Antunes, que faz todos os atores acompanharem o aparelho invisível apenas com a dança do olhar.

Com esse trabalho que finda temporada em São Paulo, Antunes Filho despressuriza as cobranças por ruptura em seus vocabulários. Autocrítica incluída. Sua genialidade não precisa ser provada. Projetos recentes do Macunaíma/CPT refletiam essa ânsia. Foi Carmen (2005) teria sido a incursão mais solta nesse aspecto, quando se deixou banhar plenamente pelo corpo e pelas ideias do butô. Quem construiu Macunaíma (1978), Paraíso zona norte (1989), Vereda da salvação (1993) ou Medeia (2001) exerce agora total liberdade para arquitetar um espetáculo em forma de oração às ressignificações da vida, da morte, da comunidade e da arte.

Criação sensível para painel sociopolítico contundente

Ficha técnica:
Texto: Thornton Wilder, sob reconstrução de Antunes Filho
Direção geral: Antunes Filho
Diretor de arte: Hideki Matsuka
Com: Amanda Mantovani, Antonio de Campos Carlos Sério, Diego Melo, Ediana Souza, Fagundes Emanuel, Felipe Hofstatter, Gui Martelli, Leonardo Ventura, Lucas Rodrigues, Luiz Gustavo Lopes, Luiza Lemmertz, Mateus Carrieri, Naiene Sanchez, Nelson Alexander e Sheila Faermann
Diretor de palco: Felipe Hofstatter
Assistentes de direção: Felipe Hofstatter e Carolina Erschfeld
Figurinos e adereços: Camila Nuñez
Assistentes: Tainara Dutra e Carolina Franco
Costureira: Noeme Costa
Cenografia e adereços: Sandra Pestana
Assistente: Mariana Mattar
Painéis cenográficos: Luiz Gustavo Lopes
Painéis de cena de publicidade: Érico Peretta
Cenotécnico: Cesar Rezende
Pesquisa de textos e imagens do programa: Thiago Brito
Trilha sonora: Raul Teixeira (CPT)
Assistente e operação de som: Lenon de Almeida
Iluminação: Edson FM e Elton Ramos
Assistentes: Fábio Albino e Marcio Martins
Preparação de corpo e voz: Antunes Filho
Professora de canto: Solange Assumpção
Produção executiva: Emerson Danesi
Fotos: Emidio Luisi
Assessoria de Imprensa: Ofício das Letras – Adriana Monteiro
Secretaria do CPT: Ligia Alves de Lima
Agradecimentos: Sebastião Milaré, Klaus Kuhn, Nara Chaib Mendes, Lee Taylor, Thiago Brito, Telumi Hellen e ao CEM – Centro Experimental de Música do Sesc Consolação

Valmir Santos

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