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Crítica

O rigor da Dos à Deux em ‘Irmãos de sangue’

25.3.2014  |  por Miguel Anunciação

Foto de capa: Xavier Cantat

Levei uma amiga para ver um espetáculo do/no Teatro Oficina, São Paulo, pela primeira vez: tinha quase 80 anos, estava habituada a ir ao teatro em Belo Horizonte, mas basicamente a espetáculos com globais. Temi como reagiria a uma encenação de mais de quatro horas (a primeira montagem de As bacantes), em que José Celso Martinez Corrêa a elegeu na plateia para compartilhar um vinho e sentar-se nu em seu colo. Ao final, me surpreendeu ouvi-la afirmar: “Adorei, isto é que é teatro”.

Imagino que alguém pouco habituado a frequentar espetáculos também poderia reagir assim, tão positivamente, a Irmãos de sangue – em cartaz no CCBB Belo Horizonte até 6/4 -, tão evidentes são suas qualidades técnicas. O magnetismo de mais uma produção da Cia. Dos à Deux, grupo brasileiro radicado há muitos anos na Europa e reconhecido pelo mundo. É um tipo raro de trabalho, que se distingue de imediato. Pela precisão e pelo domínio do que se realiza no palco, pela profusão extraordinária de belas imagens, pela rigor e pela seriedade notórios, ainda que nunca seja sisudo – há comédia também, até muito eficiente, em Irmãos de sangue.

Assim, estão sempre admiráveis a iluminação, os figurinos, o teatro físico (que prescinde de falas sem prejuízo na exposição do enredo, sublinhando o quanto as palavras confundem nas relações “faladas”), os objetos de cena (interessante de ver, mas a pleno serviço da narrativa), as marionetes, a interpretação dos atores: André Curti, Arthur Ribeiro (dramaturgia, cenário, luz, coreografia, direção), fundadores do grupo, Cécile Givernet e Matías Chebel, convidados. Esta conjunção primorosa de talentos também se encontra nos outros três espetáculos que o grupo já trouxe a BH, como pode ser conferido em seu site, aqui, razão do cativo fã-clube que gerou na cidade.

Atores da Cia. Dos à Deux em ‘Irmãos de Sangue’

Apontado como “unanimidade” nas redes sociais desde a estreia, dia 13/4, Irmãos de sangue talvez seja, porém, o menos feliz, dramaturgicamente falando, entre os já exibidos aqui. Pode soar confuso o papel que o pai assume na trama. Quem morreu? (o pai? um dos irmãos? os dois?). O que faz exatamente a mãe quando some? Talvez sejam interrogações pertinentes, talvez levem parte do público a imaginar enquanto a trama segue em frente. Como um desvio de atenção. Além disso, o convívio feliz entre os meninos, o que vai justificar a dor da perda de um deles, talvez se alongue.

Talvez o grupo pague o preço de produzir com tanto esmero e manter o que é muito bom, mas poderia ser cortado e beneficiar a fluência. Talvez peque por certa dosagem de “mais do mesmo”, ainda que lindo, competente, primoroso. Discutíveis, é claro, os senões não diminuem o que é grandioso, extraordinário. Irmãos de sangue é para ser aplaudido de pé, mais de uma vez. Por quem é do teatro e por quem o conhece menos ou só um tipo de teatro, menos elaborado, menos comprometido. Por tudo, é minha vez de afirmar: isto é que é teatro! O teatro vigoroso, exuberante e exemplar da Cia. Dos à Deux.

Serviço:
Irmãos de sangue
Onde: CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, tel. 31 3431-9400).
Quando: Sexta, às 20h; sábado e domingo, às 19h. até 6/4.
Quanto: R$ 10.

Ficha técnica:
Dramaturgia, cenário, coreografia e direção: André Curti e Artur Ribeiro
Com: Cécile Givernet, Matías Chebel, André Curti e Artur Ribeiro
Música original: Fernando Mota
Violino: Fran Lasuen
Figurinos e marionetes: Natacha Belova
Acessórios, peruca e objetos: Maria Adélia et Marta Rossi, com assistência de Morgan Olivier e Camila Moraes
Construção do cenário e contrarregra: Demis Boussu
Iluminação: Bertrand Perez e Artur Ribeiro
Direção de produção – França : Nathalie Redant
Direção de produção – Brasil: Sérgio Saboya
Teaser/vídeo: Jean Luc Daniel

Miguel Anunciação

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