Duas mulheres estão à frente daqueles que são considerados os maiores festivais de artes cênicas do mundo. No hemisfério norte, Faith Liddell dirige o de Edimburgo, uma reunião de 12 mostras que transforma a cidade escocesa na capital das artes durante o verão europeu. Apenas no mês de julho, a oferta de espetáculos pode chegar a mais de 3.500 títulos.

À altura da linha do Equador, só se encontra impacto semelhante no Festival IberoAmericano de Teatro de Bogotá. Comandado por Ana Marta de Pizarro, o evento ocupa teatros e ruas da capital colombiana até o dia 20 deste mês e espera receber um público de até 3 milhões de pessoas. São 190 obras, vindas dos cinco continentes, que farão cerca de 1.100 apresentações.

Além do gigantismo das organizações que dirigem, outros aspectos unem as missões dessas gestoras. Durante o Congresso da International Society for Performing Arts, importante evento transnacional que também acontece agora em Bogotá, elas estiveram juntas para discutir o tamanho e as similaridades de seus desafios.

Diferentemente dos festivais de artes cênicas que ocorrem no Brasil, as mostras de Bogotá e Edimburgo são empreendimentos grandes e lucrativos. “Já somos maior que a indústria do golfe”, diz Faith, referindo ao esporte que mais movimenta recursos na Escócia.

Faith Liddell, diretora do Festival de EdimburgoSem créditos

Faith Liddell, diretora do Festival de Edimburgo

Calcula-se que o impacto da festa cultural na economia local chegue a 260 milhões de libras. Também faz a taxa de ocupação dos hotéis chegar a 93% no mês de agosto e é o maior fator de atração de turistas no país.

Nenhum outro lugar na América Latina concentra tantas festas quanto a Colômbia. E o Festival de Bogotá é a maior dessas celebrações, ocupando, simultaneamente, 600 locais na cidade. “É o nosso carnaval”, diz Ana Marta, que indica um retorno econômico direto de US$ 103 milhões. No país, os setores criativos crescem vigorosamente. Já são responsáveis por 4 % do PIB e apenas a área cultural emprega 350 mil pessoas.

O retorno econômico imediato não exime Ana Marta e Faith de um árduo trabalho para conseguir recursos e assegurar a visibilidade internacional de suas programações.

Aliás, uma diferença relevante desses eventos em relação às iniciativas brasileiras é a fonte de financiamento, que não passa majoritariamente por aportes estatais. Considerado o maior do Brasil, o Festival de Curitiba consegue 80% do orçamento via leis de incentivo. No caso de Bogotá, a ajuda do governo não chega a 18%. “Corremos atrás de dinheiro até o último minuto. Cerca de 25% dos recursos vêm de patrocínio direto, outros 14% de ajudas internacionais e ao menos 50% são gerados com a venda de ingressos”, expõe a curadora colombiana.

Mesmo responsáveis pela gerência de rentáveis negócios, as duas diretoras não podem perder de vista a importância estratégica desses festivais. “O impacto econômico é grande, mas o valor social é maior”, pontua Faith.

Novo pacto social. Difícil imaginar duas cidades tão díspares quanto Edimburgo e Bogotá. A primeira tem menos de 500 mil habitantes, setor de serviços altamente desenvolvido e uma das menores taxas de desemprego do Reino Unido. Já na vizinha sul-americana, a população chega a 8 milhões de pessoas, os abismos sociais são imensos e os problemas a resolver muito semelhantes àqueles que encontramos em São Paulo.

Ana Marta de Pizarro, à frente do Festival de Bogotá

Nesses dois cenários dissonantes, os festivais cumpriram missões semelhantes: recuperaram seus países de contextos de guerra e serviram como “cimento” para construção de um novo pacto social. Criado em 1947, o festival de Edimburgo nasceu com a missão de levantar o ânimo do continente europeu, devastado e deprimido pela Segunda Guerra Mundial.

Em Bogotá, a situação encontrada em 1988, data de lançamento do festival, era igualmente complicada. O país viveu a mais longa guerra civil do continente. Se as década de 1960 e 70 foram passadas sob a sombra das Farc, os anos 1980 viram o florescimento dos cartéis do narcotráfico.

Já em sua primeira edição, o festival sofreu os efeitos de uma bomba, explodida dentro do Teatro Nacional. “Mas isso, no lugar de nos abater, gerou uma reação por parte dos artistas e da sociedade, que passaram a ver o festival como algo do qual deviam se apropriar”, considera Ana Marta, que conduz a mostra desde 2008. “Foi uma maneira de curar a ferida deixada pela guerra. E ainda é um meio de falar sobre o que é mais fundamental para sociedade.”

.:. Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo, Caderno 2, p. C4, em 11/4/2014.

.:. A jornalista viajou a convite da Fundação Abertis.