Menu

Assine nossa newsletter

Crítica

Elis mimetizada em tempo e voz

29.4.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Felipe Panfili/AgNews

Em janeiro de 1982, a duas semanas de sua morte com parcos 36 anos, Elis Regina é sabatinada no programa Jogo da verdade, da TV Cultura. O apresentador Salomão Ésper abre, de chofre: “Elis Regina, até que ponto pode ser profundo e honesto um ‘Jogo da Verdade’ sobre a sua carreira e a Música Popular Brasileira?”. Ela ergue os braços para trás, envolve a nuca com as duas mãos, movimenta o corpo com suavidade na cadeira giratória, para lá e para cá, e discorre sobre desnudar-se completamente perante o outro. “Eu acho que a gente faz parte de um grande teatro. Cada um tem o seu papelzinho e cada um tem o seu coringa gravado, guardado dentro da manguinha, aqui, para fazer sua canastra na hora precisa. Então, na medida em que isso possa ser feito, a gente preserva alguns dados para o futuro, que ninguém é bobo, não é, meu bem?”.

A mulher de atos, intenções e gestos indissolúveis, vide a íntegra da entrevista na internet, transparece em Elis, a musical de forma comovente. Um trecho exato dessa fala pontua o roteiro exemplificando o esforço pela mimese que define o espetáculo sem, no entanto, aprisioná-lo. A recriação orgânica ancora a voz e os trejeitos da personagem-título. Alinhava canções que exprimem por si mesmas uma dramaturgia documental sobre a artista e a sua época. Os mais de 30 números, sem contar o pout-pourri em cada um dos dois atos, entrelaçam naturalmente a carreira profissional, a vida e o curso histórico e político do país.

Na sua primeira incursão pelo gênero, o diretor Dennis Carvalho surpreende ao não se deixar seduzir pela hagiografia. As figuras da esposa, da mãe e da cidadã, sempre em voltagens coronárias, impregnam a cantora. Não há máscaras quanto às coerências e contradições essencialmente humanas.

Cabe à baiana Laila Garin ressignificar a cada noite tanta impetuosidade, diatribe, candura, carência, paixão, inquietude e simpatia futebol clube. A composição fisionômica meticulosa condiz com o meneio de cabeça, o sorriso largo e o registro vocal decalcado da memória da gaúcha de 1,53 metro que ria de ser baixinha e vesga. A despeito da monumentalidade do papel, Garin deixa o espectador entrever a porção autoral dessa empreitada. Há margem consistente de criação sobre a técnica. Nuances de uma presença poética entre o alvorecer e o crepúsculo daquela que depois virou mito (o desvelo do rosto da atriz na hora dos cumprimentos confirma a percepção).

A atriz Laila Garin no papel-título

Dentre os momentos a destacar nas parcerias criativas e pessoais, estão os duetos com Jair Rodrigues (Ícaro Silva), no programa O fino da bossa, e com Tom Jobim (Leo Diniz), na gravação de Águas de março em Nova York, acompanhada ao piano pelo marido Ronaldo Bôscoli (Tuca Andrada). Nos dois casos, temos o talento da cantora em estado intuitivo e depois lapidado.

Outro ponto alto é o encontro de Elis com Henfil (Peter Boos) num bar, quando aparam as arestas de qual lado estão no país sob ditadura. Ele usou o cartum para enterrá-la num cemitério por cantar num evento do Exército. Ela retruca com O bêbado e o equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco. Entoa a letra que fala da volta do irmão dele do exílio, Betinho. E ambos finalmente reatam com abraço fraterno. A direção não hesita em deixar Garin de costas para o público na quase totalidade da cena em que a ética e a amizade são colocadas à prova, baixando o tônus espetacular sem afetar a sintonia dramática, ao contrário. É um musical que dosa silêncios.

A montagem acerta ainda ao destinar algumas músicas à voz masculina, sendo a mais bem-sucedida delas a de Claudio Lins, intérprete de César Camargo Mariano, subvertendo clássicos como As aparências enganam (Tunai e Sérgio Natureza) e O trem azul (Ronaldo Bôscoli e Lô Borges). Todavia, perde o prumo na caricatura gratuita dos jornalistas Paulo Francis e Marília Gabriela.

De modo geral, a direção musical de Delia Fischer é correta e pouco transcende aos arranjos originais, como na primeira parte de Vou deitar e rolar (Baden Powell e Paulo César Pinheiro), em que a cadência dramática contrasta o conhecido ritmo esfuziante. Calcanhar de Aquiles em superproduções recentes, a direção de arte de Marcos Flaksman mostra-se ágil nas soluções. Não estorva a paisagem ao deslizar módulos cenográficos para as laterais. E lança mão de painéis suspensos para projetar mudanças espaciais nessa obra de tempos transversais.

.:. Íntegra de texto editado e publicado originalmente no jornal Valor Econômico, caderno Eu & Fim de Semana, p. 29, em 25/4/2014.

Elis, a musical
Onde: Teatro Alfa (Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Jardim Dom Bosco, tel. 11 5693-4000).
Quando: Quinta, às 21h; sexta, às 21h30; sábado, às 16h e 20h; e domingo, às 17h.
Quanto: R$ 40 a R$ 180.

Cena da entrevista à TV citada no roteiro

Ficha técnica:
Texto: Nelson Motta e Patricia Andrade
Direção: Dennis Carvalho
Com: Laila Garin, Tuca Andrada, Claudio Lins, Leo Diniz, Lílian Menezes, Germano Melo, Ícaro Silva, Danilo Timm, Rafael de Castro, Ricardo Vieira, Peter Boos, Keila Bueno, Guilherme Logullo, Thiago Marinho, Alessandro Brandão, Lincoln Tornado, Lílian Menezes, Maíra Charken, Nay Fernandes, Fernando Rocha e outros
Direção musical e arranjos: Delia Fischer
Coreografia e direção de movimento: Alonso Barros
Direção de arte e cenografia: Marcos Flaksman
Figurinos: Marília Carneiro
Visagismo: Beto Carramanhos
Desenho de som: Carlos Esteves
Desenho de luz: Maneco Quinderé
Videografismo e criação de imagens: Rico Vilarouca, Renato Vilarouca e Marcos Flaksman
Preparação vocal: Felipe Habib
Diretor assistente: Henriqiue Sauer
Casting: Marcela Altberg
Direção executiva: Luiz Calainho
Direção de produção: Aniela Jordan
Marketing e negócios: Fernando Campos
Realização: Aventura Entretenimento, Buenos Días e MRG

Valmir Santos

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados