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Resenha

Hamlet, em torno do inevitável

14.4.2014  |  por Fernando Marques

Foto de capa: Ligia Jardim/MITsp

O lançamento de Hamlet: poema ilimitado (editora Objetiva, 2004), ensaio do crítico norte-americano Harold Bloom sobre a tragédia Hamlet, de Shakespeare, sugere que se fale dos temas temporais e intemporais em literatura e teatro. Convido o leitor a um breve passeio em torno do assunto; há questões nada fúteis a explorar. Vamos lá?

Em novembro de 2004, publiquei no suplemento Pensar, do Correio Brasiliense, o artigo Politizando Nelson, em que procurava ressaltar aspectos sociais na obra teatral de Nelson Rodrigues, dramaturgo muito mais lembrado pelos motes pretensamente eternos do amor e da morte do que pela capacidade de flagrar a situação histórica em que se movem os seus personagens. Amor e morte seriam assuntos superiores à história, e têm sido frequentemente contrapostos ao momento social. Esse momento, imaginam alguns, fornece apenas a moldura sob a qual homens e mulheres sofrem conflitos que remontam a Adão e Eva.

Nelson trabalha, é claro, os impasses do desejo, prensado entre a nostalgia de absoluto e a carne precária, mas também retrata a ordem social que poderia amenizar (pela solidariedade, por exemplo), porém só dificulta e acentua a experiência daqueles conflitos, tornando-os agônicos. Em Nelson, afirmei, a imperfeita repartição das chances de felicidade, de caráter histórico e não eterno, também martiriza os personagens, para além dos problemas ancestrais que continuamos a viver, sem solução à vista.

A crítica literária de matriz marxista tem nos ensinado a perceber esses aspectos, mesmo em Nelson Rodrigues. Essa escola sustenta que a permanência estética das obras depende da sua eficácia em captar problemas históricos, que se mantêm atuais décadas ou séculos depois de sua gênese. É o que diz o filósofo húngaro Georg Lukács.

Outro teórico importante, o alemão Bertolt Brecht, berra: o teatro somente nos tem mostrado situações irrecorríveis, conflitos incontornáveis. Ora, vamos estudar o homem histórico, objeto das circunstâncias, sim, mas também sujeito de seu destino; Édipo, Hamlet e demais heróis poderiam imprimir outros rumos às suas trajetórias. Vamos reescrever todo o teatro desde os gregos, exclama Brecht, embora com alguma ironia.

Montagem de Marcio Aurelio com Clowns, de Natal

Assim, creio não ter errado quando, na esteira dos mestres marxistas, reclamei que se note o quanto um dramaturgo como Nelson não se limita a mostrar o irreversível, mas também denuncia o caos social – histórico e, portanto, transitório, transformável. Teatro incita às modificações, e toda mudança duradoura deve ser política.

A leitura de Hamlet: poema ilimitado, de Harold Bloom, ensaio que aparece acompanhado da peça, nos traz de volta a essas questões. Sem desdizer demais o que disse, redigo: simplesmente não é verdade que não exista a chamada “natureza humana”, dotada de mínima coerência, conceito que os marxistas negaram em nome de um caráter humano mutável, cambiante segundo as diversas condições sociais, culturais, históricas. Pois é: os marxistas também erram.

É óbvio. Há um traço essencial a unir todos os seres humanos: a morte (mais do que o amor). A circunstância de que vamos morrer paira sobre nós, estranha justiça a nos nivelar, em qualquer lugar e tempo. Por ser geral, essa condição se adensa em natureza: eis de volta a natureza humana que, no artigo anterior (não sem alguma razão), rejeitamos. É o caso de reafirmá-la agora.

A peça de Shakespeare fala justamente sobre isso, e o ensaio de Bloom sublinha-o à exaustão. A tragédia estreou em 1600, escrita por um dramaturgo que chegava à maturidade, aos 36 anos. Boa parte de suas melhores peças (são 37 textos teatrais, ao todo) foi criada depois do Hamlet, divisor de águas na obra oceânica do poeta e ponto de inflexão para a cultura ocidental.

Mais que o herói da vingança, obcecado em buscar a hora propícia para punir o assassinato de seu pai, morto pelo irmão Cláudio (o tio de Hamlet havia tomado o poder, casando-se com a mãe do príncipe, a rainha Gertrudes), o personagem é, diz Bloom, modelo da consciência cindida, facetada e ampliada até a vertigem. Hamlet prefigura o homem moderno, cético e perplexo diante do céu vazio. Homem que leva o próprio destino nas mãos, sem saber o que fazer dele.

A acepção do Teatro de los Andes, da Bolívia

Podemos destacar dois aspectos no ensaio: primeiro, o caráter metalinguístico do enredo; Shakespeare nos lembra com insistência tratar-se de teatro, utilizando o recurso das peças dentro da peça, à maneira de um jogo de espelhos. Outro aspecto corresponde à questão fundamental da morte e de nossa atitude diante dela, tema básico da tragédia. Nossa condição finita garante não apenas o limite irremediável de toda existência – a consciência da morte também transforma, ou deveria transformar, a vida dos indivíduos.

“Somos todos adâmicos”, diz Bloom, “pó que retorna ao pó”. E acrescenta: “Lembrete tão comum, a noção seria intolerável, se fôssemos obrigados a mantê-la em mente, durante cada momento que nos resta. Encenada com a devida força, Hamlet seria teatro transfigurado em marcha fúnebre”. Mas, acima de toda morbidez, o mistério a que a peça alude nos constitui e alimenta. Como no rito da comunhão, a morte é fértil.

.:. Publicado originalmente no Correio Brazilienze, caderno Pensar, páginas 6 e 7, em 29/1/2005.

Hamlet: poema ilimitado – De Harold Bloom. Editora Objetiva, 2004 [edição esgotada]. Tradução de José Roberto O’Shea. Ensaio acompanhado de Hamlet, de William Shakespeare, na tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça.

Fernando Marques

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