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Reportagem

Memória da ditadura e estalos formais no CCSP

8.4.2014  |  por Teatrojornal

Foto de capa: Sossô Parma

A segunda e última semana do projeto O imaginário dos 50 anos do golpe segue demarcando criticidade e inventividade artística para pensar os estilhaços da ditadura civil e militar brasileira (1964-1985) no âmbito da programação especial do Centro Cultural São Paulo. Esta instituição municipal – das mais horizontais em termos de acesso ao público de todos os quadrantes – teve sua construção esboçada justamente sob o regime de exceção e inaugurada em 1982, às vésperas da “reabertura”. Emblemática, portanto, a disposição de presentificar seu acervo à luz dos subterrâneos do regime e instigar criadores da música, cinema, artes visuais, dança, teatro e outras linguagens a revolver os meandros dessa história que não acabou. Memória e estalos formais.

Nesta terça-feira, a Cia. Les Commediens Tropicales estreia a intervenção Uni-v oco s. Na percepção do coletivo, as gerações mortas oprimem como um pesadelo o pensamento dos vivos e somos nós, os vivos, que “re(con)destruímos” tradições atuais e futuras, “como cachorro que morde o rabo ou como o rabo que provoca o cachorro”. O desejo é colocar no espaço atual as tradições vivas das gerações. “Porque precisamos arrancar a relva para que o verde permaneça verde que te quiero verde.”

As sessões acontecem hoje, amanhã e quinta-feira, às 14h, em itinerância por espaços internos e externos do CCSP. Com nos trabalhos recentes, os atuadores Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez, Michele Navarro, Paula Mirhan, Rodrigo Bianchini e Tetembua Dandara contracenam com os músicos do quarteto À Deriva (Beto Sporleder, Daniel Muller, Guilherme Marques e Rui Barossi).

Intervenção ‘Uni-v oco s’, com Les Commediens

Logo mais, às 18h30, a sala Adoniran Barbosa faz jus ao formato de arena para debater o mote da programação, O imaginário dos 50 anos do golpe, sob os pontos de vista do dramaturgo Aimar Labaki, do cantor e compositor Jorge Mautner e dos coreógrafos Marika Gidali e Décio Otero, do Ballet Stagium. A mediação é do historiador Francisco Alambert (USP). Em foco, as consequências do golpe de 1964 no imaginário da população e das gerações que nasceram antes, durante ou depois da ditadura. A discussão propõe uma abordagem interdisciplinar como forma de criar parâmetros para a análise da produção artística brasileira na atualidade.

Nas noites de 11 a 13/4, próximo fim de semana, a Cia. Ocamorana e o grupo Club Noir apresentam suas criações inéditas concebidas a convite da curadoria de teatro do CCSP.

A Cia. Ocamorana mostra Três movimentos, criação inédita com texto e direção de Márcio Boaro. A história recente do país é retratada a partir de três recortes distantes 20 anos entre eles: década de 1970 – os defensores das utopias políticas em confronto com a ditadura; década de 1990 – os que lutaram contra a ditadura na maturidade política e o neoliberalismo como cultura hegemônica no mundo; e década presente – o debate político em que o Brasil e o mundo discutem um novo momento e a história não acabou. Em cena, Alexandre Krug, Erika Coracini, Maria Dresden, Monica Raphael, Manuel Bolcinhas e Samanta Precioso, além da participação do músico Bruno Boaro.

Em Revolução, o Club Noir faz uma análise poética das forças que geraram o Golpe de 1964: seus múltiplos vetores contraditórios, o campo de alta complexidade política que desencadeou os acontecimentos terríveis dos anos de repressão. Em rara incursão por tônica sociopolítica o autor e diretor Roberto Alvim ambiciona uma retrospectiva ressignificada, que tenta desvelar as raízes obscuras de um regime de força, assim como o traçar de analogias entre aquele período e nossa conturbada contemporaneidade. No elenco, o trio formado por Juliana Galdino, Renato Forner e Paula Spinelli.

Desde o início do mês, o segmento teatral da programação mostrou o documentário cênico-poético Liberdade é pouco, com grupo Redimunho de Investigação Teatral e convidados, sob texto de Dorberto Carvalho; Corinthians, meu amor – segundo Brava Companhia – Uma homenagem ao Teatro Popular União e Olho Vivo, título e subtítulo que já dizem tudo sobre a intersecção atemporal do núcleo da zona sul paulistana com o conjunto histórico do Bom Retiro, na região central, encabeçado por César Vieira; Sociedade mortuária e Morrer de pé, respectivamente primeiro e último ato do espetáculo Ópera dos vivos (2010), pela Cia. do Latão, sob direção e dramaturgia de Sérgio de Carvalho e atuações de Helena Albergaria, Ney Piacentini, Renan Rovida, Rogerio Bandeira, Carlos Echer, Adriana Mendonça, Martin Eikmeier, Alvaro Franco, Fernanda Gonzalez, Erika Rocha e Ricardo Monastero; coube ao Latão, ainda, a homenagem encenada ao teatrólogo Augusto Boal (1931-2009) no lançamento da nova edição da autobiografia Hamlet e o filho do padeiro (editora Cosac Naify), com direito a participação da viúva Cecília Boal.

'Liberdade é pouco', de  Redimunho e Dorberto CarvalhoSem créditos

‘Liberdade é pouco’, de Redimunho e Carvalho

Na música, o sábado que vem reserva show de Tom Zé, que retorna ao CCSP 30 anos após as apresentações de Indiretas after, inspirado na campanha das Diretas Já. Agora, o mote é o cinquentenário do golpe com músicas ligadas a tal contexto, a maior parte delas pinçadas do polêmico disco Todos os olhos, de 1973. E no domingo, o show Do silêncio ao grito! atualiza as canções de protestos, a peleja música popular brasileira versus ditadura militar sob direção artística de Romulo Fróes, direção musical de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos e participação especial de Odair José, Ogi e Juçara Marçal, acompanhados pelos músicos Curumin (bateria), Thiago França (saxofone) e Fábio Sá (contrabaixo), além da performance de TANQ_ rosa CHOQ.

E durante todas as manhãs, tardes e noites do projeto O imaginário dos 50 anos do golpe, a Discoteca Oneyda ‘descomemora’ a efeméride disponibilizando a seleção Pode ouvir! 50 canções contraGolpe, destacando obras produzidas nesse contexto. Já no piso Flávio de Carvalho, a exposição Fora do sistema conjuga obras e documentos representativos da produção artística em São Paulo a partir do período de distensão, em meados da década de 1970, até o processo de redemocratização, nos anos 1980, quando a cena cultural se abre para uma diversidade de tendências e procedimentos criativos.

No texto institucional do projeto, lemos:

“Que época foi essa que fez ‘desaparecer’ corpos e calar os vivos com suas histórias? Que impediu as pessoas de serem o que eram? Entre a apatia e o medo da maior parte da sociedade e a revolta das mentes mais abertas, o ato da criação não parou, apesar de permanentemente cerceado durante esses vinte anos que vão de 1964 a 1984. Dentre os fatores que contribuíram para precipitar o fim desse período, o movimento das Diretas Já! mostrou que a vontade de viver venceu a inércia, indo se manifestar nas ruas. (…) Esperamos que essa programação lembre não somente os 50 anos do golpe encetado na madrugada de 1º de abril de 1964, mas também a esperança que veio após os 20 sombrios anos de ditadura, com a clara eclosão do movimento das Diretas Já há exatos 30 anos.

.:. Para ler a íntegra do texto institucional do projeto, aqui.

.:. A programação completa e gratuita pode ser acessada aqui.

Serviço:
O imaginário dos 50 anos do golpe
Onde: Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, tel. 11 3397-4002).
Quando: 1º/4 a 13/4.
Quanto: grátis.

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