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Crítica

Reflexo das curadorias independentes no Fringe

9.4.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Márcio Lima

Há 16 anos, era difícil imaginar que o Fringe – a programação paralela do Festival de Teatro de Curitiba – iria crescer tanto. Neste ano, foram cerca de 400 espetáculos, diferente do início tímido, lá em 1998. Se antes era uma tarefa árdua escolher o que assistir, hoje, com as mostras especiais, é possível visualizar as opções de linguagens adotadas pelos grupos.

Curitiba teve 11 programações neste ano, e as curadorias independentes cresceram também fora do Paraná. O teatro mineiro, em anos anteriores, mostrou sua força no festival, na edição passada foi a vez da Bahia, que este ano repetiu a dose com seis espetáculos selecionados pelo ator Lázaro Ramos.

Estreando no evento, o Espírito Santo apareceu no Fringe com cinco espetáculos – contudo, todos no mesmo horário da mostra oficial, o que prejudicou sua audiência. O interior e litoral de São Paulo estiveram representados na seleção Ademar Guerra. Além dessas mostras, houve Coletivos de Pequenos Conteúdos, Mostra Internacional de Solos (MIS), Mostra Ateliê de Histórias, Mostra Ave Lola, Mostra Novos Repertórios, Mostra Sesi Dramaturgia, Mostra Seu Nariz e Mostra Sonora Cena.

Um dos destaques foi Três por quatro, espetáculo do grupo carioca Barka com direção de Rúbia Rodrigues e dramaturgia de Dominique Arantes (colaboradora do Teatro Inominável). O mote da peça parte de um confinamento, uma espécie de reality show. Cinco pessoas são isoladas pelo governo com o pretexto de “manterem-se” vivas, já que a cidade está passando por uma epidemia.

O texto propõe uma metáfora bem construída sobre a vida contemporânea nas grandes cidades e as situações extremas a que cada um pode chegar. As opções estéticas adotadas pela direção buscam desenhar imagens muito bem demarcadas pela exacerbação dos gestos e movimentos. A cenografia assinada por Bia Kayselvai ao encontro da proposta teatral, se utiliza de poucos recursos, deixando os atores mais livres na movimentação. O trabalho dos atores (apesar de ser um grupo jovem) é potente, ainda que falte uma maior definição da personalidade de cada personagem. Para o primeiro espetáculo de um grupo, pareceu muito promissor.

Atores do grupo Barka em ‘Três por quatro’

Deve-se lembrar ainda de Para ler aos trinta, primeira peça da companhia teatral Projeto Z, da diretora curitibana Nina Rosa Sá. O texto é da dramaturga Lígia Souza Oliveira e o elenco tem a atriz Kelly Eshima e a atriz e vocalista da Banda Mais Bonita da Cidade, Uyara Torrente. Ordenada em forma de diversos P.S. (post scriptum, geralmente colocados no final de cartas), a montagem apresenta a trajetória de uma bailarina que escreve cartas para si mesma em uma tentativa de rever sua vida a partir da ideia de que o presente está no passado.

Quem lê a sinopse pode pensar que a peça é sobre o universo feminino, no entanto, o que está proposto em cena transcende essa ideia. A forma de contar a história a torna interessante, bem como a utilização da metalinguagem. A direção aposta no trabalho do ator e em vídeos que dialogam com a cena. Destaque para atuação da atriz Uyara.

É preciso também mencionar um projeto interessante que ocorreu dentro da Mostra Baiana. Trata-se de Um piano, o bolero e a galinha. São três solos, inéditos, dos atores Jacyan Castilho, Igor Epifãnio e Paula Lice, que propõem uma experiência cênica e gastronômica. Destaque para a montagem L. recebe, com Jacyan [foto no alto], que mistura situações vividas por ela e fatos reais da vida de Laurita Mourão, socialite carioca que, na década de 1970, publicou várias autobiografias, entre elas, À mesa do jantar [mais informações no blog desse projeto cênico, aqui].

O público é convidado a integrar a mesa e compartilhar de um menu servido à francesa, ao mesmo tempo em que ouve as histórias. A montagem proporciona uma convivência direta com o espectador, que se sente parte da cena. A aposta neste tipo de formato, que se utiliza muito bem do espaço para propiciar uma vivência à plateia, é o grande mérito do espetáculo. Desta forma, a história ganha outro sentido e eleva a potência da dramaturgia. Laurita, hoje com 88 anos, trabalhou no Itamaraty e dava grandes festas para a alta sociedade.

Atores da Súbita Cia. em ‘Extraordinário cotidiano’

E, por fim, a peça Extraordinário cotidiano, da Súbita Companhia de Teatro, sob a direção de Maíra Lour. O espetáculo propõe recorte da obra da escritora gaúcha radicado em São Paulo Verônica Stigger, conhecida por escrever textos no qual ocorrem situações de estranhamento tratadas com naturalidade pelo narrador e pelos personagens. Um bom exemplo disso é a história de um casal de namorados que sai de carro pela cidade em alta velocidade enquanto seus membros são mutilados no trajeto. Os textos vão ao encontro do que o grupo propõe: uma encenação que privilegia a forma. Eles estão preocupados não só em contar uma história e sim como contá-la [o blog da Súbita, aqui].

Um dos momentos mais interessantes do espetáculo é a narração de uma imaginária batida de carro como uma partida de jogo de futebol. Vale destacar que o elenco é coeso e sustenta a proposta. São eles: Alexandre Zampier, Cleydson Nascimento, Janaina Matter e PablitoKucarz.

.:. A jornalista viajou a convite da organização do festival.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 4, em 8/4/2014.

Michele Rolim

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