Menu

Assine nossa newsletter

Reportagem

Teatro é ‘invisível’ para maioria dos brasileiros

10.4.2014  |  por Teatrojornal

Foto de capa: Jorge-Mariano - Clix/FTC

A mobilidade social da última década brasileira não se traduz em capital cultural. Eis uma interpretação aguda da pesquisa Públicos de cultura realizada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e pela Fundação Perseu Abramo. Os dados sistematizados vieram à luz na tarde de anteontem no Sesc Pinheiros, na capital paulista, em seminário que refletiu sobre hábitos, gostos e demandas do setor em nível nacional.

Trocando em miúdos, alguns recortes dessa radiografia de fôlego pinçada de 25 estados:

>> 89% das pessoas nunca foram a um concerto de ópera ou música clássica em sala de espetáculo e 83% em qualquer outro local;

>> 75% nunca foram a espetáculos de dança ou balé no teatro;

>> 71% nunca estiveram em exposições de pintura, escultura e outras artes em museus ou outros locais e 70% nunca foram a uma exposição de fotografia;

>> 61% nunca viu peça de teatro em qualquer local, sendo que 57% das pessoas nem mesmo pisaram alguma vez um edifício teatral;

>> As únicas atividades cuja maior parte das pessoas pesquisadas afirmou já ter realizado foram: assistir a um filme em casa ou outro lugar diferente do cinema (91%), dançar em bailes e baladas (80%), ir ao cinema (78%) e ao circo (72%), ler um livro por prazer (69%), assistir a um show de música em casa ou outro local diferente de casas de espetáculos (69%) e a dia a bibliotecas (58%);

>> Os principais meios pelos quais os entrevistados se informam sobre as atividades culturais a que costumam ir são as sugestões de amigos, parentes e colegas (41%), a divulgação na mídia (36%), sobretudo a TV aberta, e a internet (25%);

>> Com relação à primeira atividade cultural com a qual os entrevistados tiveram contato (ainda na infância ou mais tarde), o circo (29%), o cinema (16%) e o teatro(11%) foram, com grande distância, os mais citados;

>> É pequena a proporção de pessoas que dizem produzir alguma atividade cultural. Cerca de 15% cantam e 13% dançam, individualmente ou em grupo; 10% tocam algum instrumento, 7% fazem fotografias, 5% fazem algum tipo de pintura, escultura ou desenho e somente 4% fazem algum tipo de escrita criativa ou compõem músicas;

>> Quanto aos gostos culturais, a maioria afirma gostar de observar os principais elementos culturais e artísticos da cidade, tais como parques (89%), arquitetura em geral (73%), luzes artísticas e decorativas (70%), monumentos e estátuas (68%), propaganda e publicidade (54%) e grafites/murais (49%);

>> 26% dos entrevistados afirmam que não gostam de exposições artísticas e outros 26% que não sabem ou nunca foram a uma;

>> A maior parte das pessoas (58%) não leu nenhum livro nos últimos seis meses e os que leram possuem uma média de apenas 1,2 livros lidos neste período. O segundo tipo de livro lido mais citado, depois de romance, foi a Bíblia;

>> No que concerne à TV, 62% afirmam assistir apenas aos canais abertos e 28% tanto a TV aberta quanto a por assinatura. Os principais produtos culturais vistos na TV são as novelas (54%), filmes (52%) e os jornais de notícias (44%). Entre os filmes prediletos, estão os de aventura (39%), comédia (38%) e romance (29%), com preferência pelo cinema americano (45%) e menos pelo nacional (33%). Cerca de 65% das pessoas veem filmes nacionais de vez em quando, enquanto 22% sempre e 14% disseram nunca assisti-los.

Para o coordenador da pesquisa, Gustavo Venturi (USP), o acesso de parte da população a bens materiais, nos últimos anos, não corresponde a bens culturais. Logo, a sociedade está longe de desenvolver plenamente a cidadania. “Daí a importância dessa pesquisa focada na questão dos públicos de cultura para checar gargalhos em termos de acesso e quais as limitações”, afirma. Na concepção de Venturi, é um equívoco classificar automaticamente a ascensão de renda de uma camada intermediária da população como se emergisse uma nova classe média. “Sem capital cultural não temos essa mudança da composição de classe. Seria interessante ter o país com maior igualdade, com uma classe média hegemônica. Se isso já pode ser observado em alguns recortes de renda, ainda estamos distantes em termos de capital cultural.”

A gerente de cultura do Departamento Nacional do Sesc, Márcia Costa Rodrigues, argui que são múltiplos os ditos capitais culturais. “Não existe um único caminho. Passa pela construção e mudanças dos diversos capitais culturais, a partir de uma troca efetiva entre eles”.

O professor Sérgio Miceli, editor da Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, elogia a pesquisa pela captação da prática religiosa e do cotidiano doméstico dos entrevistados. “Cobre esses domínios concorrentes em torno da autoridade cultural. A religião disputa o tempo, o interesse e o repertório do consumidor”, afirma. Os resultados evidenciariam o declínio de práticas culturais nos “domínios tradicionais da cultura legitima”. Isso inclui todas as formas de artes e performances em favor de novos hábitos domésticos e de outras formas de lazer e entretenimento que não estão ligados a essa percepção.

‘Reverteris’, do 360 Graus (SP); a fé molda repertório

Miceli acha menos relevante interpretar as respostas pelo padrão de gosto e sim pelo que elas espelham em termos de falta de repertório para o consumo cultural. “Não é que não gosto e não tenho interesse pela ópera; é que não tenho nenhum repertório para atinar com o sentido do consumo de uma atividade como essa”, pondera, frequentador assíduo dos concertos da Osesp na Sala São Paulo.

O capital cultural, segundo Miceli, tem a ver justamente com repertório, linguagem, disposição, inclusive corporal, para o consumo de uma prática. “Tem que ter treinamento, acesso ao cabedal de informações. A pesquisa revela um certo abismo social entre um padrão, um certo tipo de atividade cultural da minoria da população que é educada e instruída, tem repertório, e a grande maioria da população que está orientada por outras morais, outras éticas, tudo que aparece como ‘não gosto’, ‘não tenho interesse’. Como traduzir essas manifestações espontâneas? A sutileza do resultado é que a pesquisa não faz correlação brutal e grosseira entre um equipamento ou um gênero e o consumo. Antes, faz interferir muitas mediações que de certa maneira localizam variáveis que, conjugadas, dão uma orientação de leitura.”

Para Miceli, em suma, o que a sondagem mais impacta para os criadores, os produtores e os programadores nos dias de hoje é uma injeção de “humildade”, de menos certezas para operar as transformações e deformações em curso. Uma época em que tudo esta em disputa: o público, o privado, o erudito, o popular, para citar alguns tópicos também deglutidos pela indústria cultural.

A pesquisa

Foram entrevistadas 2.400 pessoas acima de 16 anos, moradoras em áreas urbanas e residentes em 139 municípios de 25 estados. O levantamento aconteceu entre 31 de agosto e 8 de setembro de 2013. A metodologia adotada é a “Survey nacional”, em que a amostragem probabilística nos primeiros estágios (sorteio dos municípios, dos setores censitários, dos quarteirões e dos domicílios) resulta combinada ao controle de cotas de sexo e idade para a seleção dos indivíduos (estágio final).

.:. O site criado especialmente para expor os dados da pesquisa, aqui.

.:. As estatísticas organizadas em PDF e exibidas no seminário, aqui.

.:. Abaixo, o vídeo do seminário de lançamento da pesquisa. Avance na barra de rolagem até os 27 minutos para iniciar. O áudio melhora em segundos.

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados