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Reportagem

Edla van Steen compila críticas de Magaldi

18.5.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Marcos Magaldi

Até o fim deste maio a escritora Edla van Steen deve consolidar a seleção de cerca de cem textos que Sábato Magaldi escreveu para o Jornal da Tarde entre 1966 e 1988. Trata-se, essencialmente, de compêndio sob a rubrica crítica de espetáculos, ofício que nunca ganhou edição específica na trajetória do estudioso do teatro que completou 87 anos no último dia 9.

Há mais de ano que Edla analisa cerca de 3 mil textos publicados originalmente nas páginas do matutino paulistano cuja circulação foi interrompida em outubro de 2012. A triagem chegou a mil críticas e, agora, o desafio é compilar cem delas, sempre sob assessoria do professor, pesquisador e dramaturgo José Eduardo Vendramini (USP).

“Estamos lendo para desbastar um pouco mais”, afirma ela, atualmente em negociação com uma editora que tem demonstrado zelo pelos lançamentos em artes cênicas e prefere ainda não revelar o nome da mesma. “O leitor vai encontrar muitas informações sobre as peças. O Sábato geralmente dava o resumo, analisava os personagens, contextualizava o autor e sua época, enfim, coisas que não tem mais quem as faça nas redações dos jornais. Isso desapareceu.”

Na bem-humorada percepção da organizadora, ao entrar em contato com o destrinchar das múltiplas versões ou adaptações de Ascensão e queda da cidade de Mahagonny, de Brecht, ou do musical Hair, de James Rado e Gerome Ragni, ambos os textos levados ao palco com recorrência naqueles tempos, um jovem diretor localizaria nas respectivas análises subsídios suficientes para entender como não deve montá-las.

Edla e Magaldi estão casados há 36 anos. Nesse período, quer vivendo na França quer revezando as moradas em São Paulo e no Rio (o crítico ocupa a cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras desde 1995), ela é sua fiel companheira nas sessões teatrais. “Era uma loucura como esse homem ia ao teatro”, diz. A condicional no passado é porque as saídas do apartamento em Higienópolis, base paulistana do casal, tornaram-se cada vez mais raras.

Dias atrás, eles cogitavam conferir a comédia Meu Deus!, da israelense Anat Gov, com Irene Ravache e Dan Stulbach, em cartaz num teatro do mesmo bairro, o Faap. Os reflexos da senilidade tornaram o deslocamento mais difícil. Ele segue gostando de ler e anotar (apesar da falta de visão num dos olhos), de assistir a filmes em DVD ou sob demanda. Ambos adoram receber visita dos netos (são cinco, de 8 a 27 anos) e dos amigos, entre eles o próprio Vendramini e o crítico e pesquisador Jefferson Del Rios (O Estado de S.Paulo).

Edla e Magaldi em lançamento de livro em 2009

A pedido do Teatrojornal, Edla escolhe e compartilha da hemeroteca um exemplo de leitura crítica de Magaldi, no caso, relativo ao monólogo O gordoidão no país da inflação, coautoria de Armando Costa e Jô Soares, durante a temporada carioca de 1984.

A expectativa é de que o novo projeto editorial vingue brevemente. Bem como, um dia, as Crônicas da vida teatral, como Magaldi batizou a série de 47 ou 48 cadernos de anotações mantidos desde a década de 1960, nos quais costuma registrar as primeiras impressões assim que retorna à residência, a cada apresentação, ou mesmo tece observações sobre bastidores do meio teatral e suas idiossincrasias.

“Ele diz que esses cadernos só poderão ser publicados após uns 30 anos de sua morte. Bom, pelo menos já consegui que deixasse publicar as críticas. Nunca li nenhum desses cadernos. São diários íntimos, nunca passei desse limite. Respeito bastante esses documentos pela sua dimensão pessoal”, afirma a mulher que também é afeita à palavra – uma “grafomaníaca”, como certa vez a definiu o colega Otto Lara Resende (1922-1992).

Jô Soares: em cartaz no Rio, o espetáculo de um comediante perfeito [Jornal da Tarde, 1984]

Sábato Magaldi

Em cena há alguns meses no Teatro da Lagoa, no Rio, Um gordoidão no país da inflação, a nova criação de Jô Soares, deve ser oferecida à plateia carioca ao menos até o fim do ano, para vir a São Paulo na temporada de 1985. É muito tempo de espera, para quem tem oportunidade de dar um pulo ao Rio. Porque, se Um gordoidão não representa propriamente um progresso, em face de Viva o gordo e abaixo o regime (Jô já atingia nessa montagem nível a que poucos comediantes podem aspirar), alcança aquele grau de obra perfeita no gênero.

Quais os valores que tornam Jô Soares tão comunicativo para o espectador? Ele começa pelo preço do ingresso. Em sua objetiva matemática, prova que está cobrando menos, proporcionalmente, que há cinco anos, em relação ao custo do dólar. E desse problema, a reflexão se transfere para o título do espetáculo, discutindo as múltiplas possibilidades. A técnica no metateatro alicia o público, faz dele cúmplice da diversão de que participará. É impossível não simpatizar com o humor proposto por Jô Soares.

Irreverente, satírico, brincalhão, sardônico, usando sem pudor o “double-sens” [duplo sentido], o humorista nunca incide em vulgaridade e mau gosto. Mesmo os palavrões naturais na sequência que ele vai construindo adquirem certa inocência. Os ouvidos pudicos não se chocarão com as liberdades tomadas pelas anedotas. Tudo funciona no contexto cômico imaginado.

Jô passa em revista toda a realidade. A política não poderia estar ausente do espetáculo, embora ele observe: “Eu não faço piada política, eu faço comentários. Porque piada, os políticos fazem muito melhor do que a gente”. E Jô tem espírito e capacidade de improvisação para incorporar as notícias do dia. Qualquer novidade suscita um aproveitamento pitoresco. Lembro-me de que, na ocasião em que furtaram a copa de tricampeões do mundo, ele advertiu que o microfone dourado que usava era simples réplica: o de ouro verdadeiro estava muito bem guardado.

As posições de Jô Soares são sempre as melhores, inteligentes, progressistas. O feminismo que abraça não usa palavras altissonantes nem ataca diretamente o “machólogo”. O líder do movimento pela “liberação machista” cai no ridículo pelos títulos dos livros de sua autoria: As conveniência da ejaculação precoce, Como evitar o orgasmo feminino, O carinho e outras aberrações sexuais, etc., etc. As cartas imaginárias que ele comenta são novas fontes de diversão.

As sátiras estendem-se às novelas de televisão, aos norte-americanos, à suposta tecnoburocracia econômica, à ciência futebolística, aos militares e, na conhecida tradição brasileira, aos portugueses. Ou meu repertório não está atualizado ou Jô e seu parceiro Armando Costa conseguiram inventar um humor muito eficaz, que mantém a plateia quase numa só gargalhada.

Mas é Portugal que dá ao intérprete a ocasião de mostrar-se, mais uma vez, excelente ator. A primeira parte, quebrando a sucessão de risos, termina com o desempenho patético do poema Em linha reta, de Fernando Pessoa. O declamador se despe da retórica para assumir o eu “tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”, que lhe transmite indisfarçável grandeza humana.

Jô Soares, com habilidade espantosa, preserva o ritmo trepidante do espetáculo. Quando sua presença única em cena correria o risco de se tornar monótona, ele dialoga com o público, improvisa jogos, desloca-se para a plateia. Poucos têm, como ele, o segredo de não deixar cair o interesse, conservando o domínio contínuo da audiência.

São 25 anos de uma arte requintada, sem similar no palco brasileiro. Autor e comediante, Jô Soares situa-se entre os nossos primeiros criadores.

Alguns livros de autoria de Magaldi:

> Panorama do teatro brasileiro (1962 e 1997, ed. Perspectiva)
> Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenações (1987, ed. Perspectiva)
> O texto no teatro (1989, ed. Perspectiva)
> Cem anos de teatro em São Paulo (2000, com Maria Thereza Vargas, ed. Senac)
> Depois do espetáculo (2003, ed. Perspectiva)
> Teatro da ruptura: Oswald de Andrade (2004, Global Editora)
> Teatro sempre (2006, ed. Perspectiva)

Valmir Santos

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