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Reportagem

Enrique Diaz destila crueldade com humor

16.5.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Nathalie Melot

O interesse de contar uma história sobre um filho que esquarteja o pai é o mesmo de escutá-la? O sadismo tão presente em filmes – como dos diretores Quentin Tarantino e dos irmãos Coen – é o mesmo que provoca o espectador na peça Cine-monstro. A montagem, traduzida por Bárbara Duvivier e pelo diretor Enrique Diaz do original Monster (1998), do canadense Daniel MacIvor, ocorre neste sábado, às 21h, e domingo, às 18h, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre.

É o primeiro solo do ator e diretor Enrique Diaz, que deixou a Cia. dos Atores, em 2012. Além de atuar, ele também dirige, com colaboração de Marcio Abreu. Com esta peça, Diaz termina a trilogia do canadense MacIvor – desde 2009, ele é o responsável por divulgar o trabalho do autor no Brasil. Os outros dois espetáculos, o premiado In on it (com Emílio de Mello e Fernando Eiras) e A primeira vista (com Drica Moraes e Mariana Lima), já estiveram em Porto Alegre.

O fascínio pela dramaturgia de MacIvor por parte do diretor se deve, segundo ele, em parte pela forma e conteúdo articulados no mesmo texto. “A estrutura dos textos é muito interessante, há um jogo na dramaturgia. Também gosto do olhar de MacIvor em relação aos afetos e ao humano, utilizando humor e psicanálise”, afirma Diaz, por telefone, enquanto espera suas duas filhas na escola, fruto do casamento com Mariana Lima.
O humor a que ele se refere, aqui, faz o público rir da violência. Se nas outras duas peças os afetos amorosos estão evidentes, nesta o mal chega com força. Crueldade e violência caminham ao lado da mais fina ironia.

Diaz, em cena, interpreta 13 tipos, delimitados de formas sutis pelas alterações de voz do ator. Entre os personagens, está uma espécie de mestre de cerimônias que orienta o espectador sobre o que será visto em cena e, além disso, questiona o público sobre o porquê as pessoas estão no teatro. “Há um certo cinismo e maldade nisso”, revela Diaz.

Como em toda dramaturgia de MacIvor, o público traça relações entre os diferentes personagens e histórias, até chegar à última cena, que dá respostas ao jogo construído pelo autor. “Ele permite que o espectador construa junto da peça, como se fosse uma arquitetura, na qual os pontos são ligados”, conta Diaz. Por conta disso, ele prefere não revelar as histórias que serão vistas no palco.

A ambientação minimalista em cena é proposta pelo autor canadense, que também é ator (inclusive, ele mesmo fez a versão dessa peça para o palco). “Ele fazia sem nada, em pé, no meio do palco. MacIvor prefere esse minimalismo, para que a coisa aconteça entre o que está sendo emanado no palco e a mente da plateia”, comenta o diretor.

Diaz sobe ao palco fazendo uso apenas de uma cadeira, um triciclo infantil e, acrescenta, nesta montagem o uso de projeções. “É uma maneira de avançar. Mantenho esse tom minimalista em In on it, em À primeira vista tenho um fundo como cenário e, agora, como tratamos de cinema, utilizo projeções, como se o espectador estive em uma sala de cinema”, conta.

Este trabalho evidencia uma nova fase de Diaz, que segue atuando na série 3 Teresas, do GNT, e cogita a hipótese de dirigir outra novela, já que aprovou a experiência recente em Joia rara. Ele também embarca para Paris onde realiza uma leitura encenada da peça In on it com a Comédie Française. “Depois de 20 anos da Cia. do Atores, não é à toa que faço um trabalho solo. Escolhi experimentar”, comemora.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 1, em 15/5/2014.

Serviço:
Onde: Theatro São Pedro (Praça da Matriz, s/n, tel. 51 3227-5100)
Quando: Sábado (17/5), às 21h, e domingo (18/5), às 18h.
Quanto: R$ 5 a R$ 20.

.:. A programação completa do 9º Festival Palco Giratório Sesc/Poa, aqui.

Michele Rolim

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