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Crítica

Musical sobre Cazuza agrada a todos os gostos

7.5.2014  |  por Miguel Anunciação

Foto de capa: Leo Aversa

Autor de indesviável biografia da cantora Carmem Miranda, de tantas minúcias quanto preciosa no resgate deste mito da canção popular, Ruy Castro acusou não haver musicais made in Brasil. Por alinharem somente canções já compostas (o que não é inteira verdade: vide os musicais de Chico Buarque de Hollanda, por exemplo) deveriam ser chamados de revistas, afirma. Seja lá musical ou revista, Cazuza – Pro dia nascer feliz, produção carioca que realizou cinco sessões bastante concorridas no Grande Teatro do Palácio das Artes, de 1ª a 4/5, é um programa e tanto. De agradar a quem basta apenas o entretenimento e a quem exige do teatro mais que um punhado de situações hilárias e/ou de nomes globais.

A todos, o espetáculo dirigido por João Fonseca (de criações memoráveis como O casamento, a quatro mãos com Antônio Abujamra, quanto esquecíveis, tipo Tudo no timming, ambas na Cia. Fodidos e Privilegiados) oferece a magnetizante experiência de uma história bem contada, três dezenas de canções que nem o tempo pôde esgotar o prazo de validade e um ator em estado de graça. Oferta tão poderosa que aliena o risco aberto aos espetáculos de temperamento popular quando eles duram mais de 1h30. Fixação que o próprio teatro se submeteu ao longo dos últimos anos, sob a alegação de que, mais longos que isso, o público rejeita. Não aparece ou vai embora.

Cazuza – Pro dia nascer feliz dura em torno de três horas, sem registrar deserções nos 15 minutos do (único) intervalo. Ainda que as últimas cenas do primeiro ato não pareçam as mais felizes da encenação. Nem assim o público desacredita do que acontece no palco: a movimentada vida de um ídolo do Rock Brasil dos anos 80, letrista inspirado, coautor (sobretudo com Frejat) de rocks turbulentos e blues dilacerantes. Afiados como os episódios que o texto de Aloísio de Abreu expõe sem pudores, aparentemente sem interdições de censuras.

Além do patrimônio musical que compôs, a salvo na memória nacional, Cazuza viveu sofregamente, perigosamente. Foi uma das primeiras vítimas do vírus da aids a admitir contaminação publicamente. Por isso, foi/é valioso colaborador da distensão à homossexualidade, que a sociedade brasileira experimenta no momento. E o que permite ao espetáculo contar sem restrições a vida amorosa e sexual (gay) do cantor/compositor. Emoldurar a rica jornada de um artista inspirado, figura sem rédeas, sem papas na língua, um ídolo morto precocemente, no auge. Um personagem com o dom de motivar as atenções de muita gente: nos livros escritos por Lucinha Araújo, sua mãe, e no filme dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho.

Quem viu e se surpreendeu com o desempenho do mineiro Daniel de Oliveira em Cazuza, o tempo não para, se surpreenderá mais com a performance de Emílio Dantas [foto no alto]: a rara disponibilidade de ator, a inacreditável semelhança da voz e do tipo físico do biografado. Uma interpretação que surpreende inclusive por não haver gerado prêmios – onde estavam os jurados? A rigor, não é um espetáculo de grandes interpretações, além de Emílio, Susana Ribeiro (Lucinha), Marcelo Várzea (João Araújo) e André Dias (o jornalista mineiro Ezequiel Neves). Nem um leque de outras vozes admiráveis, afora Thiago Machado (Frejat) e Yasmin Gowlevsky (Bebel). Nenhum dos 15 nomes do elenco parece ser profissional da dança. Portanto, não se trata de um musical como os americanos definem.

O que há de extraordinário em Cazuza se deve a Cazuza, à sua vida intensa, à sua obra. À interpretação inesquecível de Emílio. À direção azeitada de João Fonseca, que se projeta como diretor de êxito em montagens sobre o ambiente da música nacional (Gota d’água, Tim Maia, Cazuza, O grande circo místico, que Rodrigo Monteiro comenta em http://teatrorj.blogspot.com.br), que em Cazuza – pro dia nascer feliz não encontra na iluminação (Daniela Sanches/Luiz Paulo Nenem), nos figurinos (Carol Lobato) e na cenografia (Nello Marrese) contribuições decisivas. Como a da banda fogosa, competente, que executa ao vivo o repertório deste espetáculo imperdível.

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Teaser da temporada no Rio:

Ficha técnica:
Texto: Aloísio de Abreu
Direção geral: João Fonseca
Direção musical: Daniel Rocha
Com: Emílio Dantas, Osmar Silveira, Bruno Narchi, Susana Ribeiro, Marcelo Várzea, André Dias, Fabiano Medeiros, Yasmin Gomlevsky, Thiago Machado, Bruno Fraga, Bruno Sigrist, Saulo Segreto, Dezo Mota, Juliane Bodini, Oscar Fabião e Sheila Matos
Supervisão musical: Carlos Bauzys
Preparador vocal: Felipe Habib
Coreografias: Alex Neoral
Cenário: Nello Marrese
Figurino: Carol Lobato
Visagismo: Juliana Mendes
Design de luz: Daniela Sanches e Paulo Nenem
Design de som Gabriel D´Angelo
Produção geral: Sandro Chaim
Realização: Miniatura 9, Chaim XYZ Produções

Miguel Anunciação

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