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Reportagem

A dança de meio século do Odin com o teatro

25.6.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Valmir Santos

Pedras caiadas desenham os 50 anos do Odin Teatret. São 30 pontos brancos sobre a grama na entrada da sua sede. Troncos enlaçados por faixas amarelas, vermelhas e roxas conformam uma alameda rumo aos pavilhões e aos galpões da área arborizada onde até junho de 1966 funcionava uma fazenda. Os jovens daquela primeira formação do grupo já encontravam vacas pastando por ali, gênese do Nordisk Teaterlaboratorium. As mutações da arquitetura do local resultaram, ao longo dos anos, em salas de ensaio e de apresentação, além de setores de administração, arquivo, biblioteca, cozinha e quartos. Florescimento da filosofia do convívio laboratorial, treinamento e pesquisa na veia.

Tanto paisagem como pensamento alinham o projeto comunitário de vida, de arte e de cultura em pleno noroeste dinamarquês. Frestas provocadamente abertas para o mundo num país de economia e colchão social estáveis há décadas, de população predominantemente branca e resistente à migração, sobretudo de povos do leste europeu. Ao lado da França e da Inglaterra, a Dinamarca soma atualmente média de 30% dos votos em partidos de extrema direita num governo que combina sistemas parlamentar e monarquia.

O trânsito por terras estrangeiras revelou-se flagrante nos oito dias da 9ª edição do Festuge, de 14 a 22 de junho, marco do aniversário do grupo. A jornada diuturna de atividades organizada pelo Odin Teatret ocupa diferentes pontos da cidade de 57 mil habitantes com artistas cênicos vindos de Bali, Índia, Quênia, Brasil, Porto Rico, Chile, Nova Zelândia, Itália e Espanha, além de criadores locais e de atores do Odin, de maioria estrangeira. Roberta Carreri é italiana. Else Marie Laukvik, norueguesa. Julia Varley, inglesa. Donald Kitt, canadense. Sofia Monsalve e Elena Floris, respectivamente colombiana e italiana. Iben Nagel Rasmussen, Tage Larsen, Kai Bredholt, Jan Ferslev e Frans Winther são dinamarqueses.

Pedras pintadas de branco evocam efeméride

Em comum, os artistas convidados para o Festuge compactuam o viés antropológico das formas e conteúdos do grupo anfitrião dirigido por Eugenio Barba, nascido na Itália. Tendência a que a municipalidade está acostumada desde que o adota há 48 anos, quando conta apenas dois anos de fundação em Oslo, capital da vizinha Noruega, sempre na região da Escandinávia. O Odin contribui para inscrever a provinciana Holstebro no mapa-múndi da arte e da cultura. Ambas as histórias confundem-se, a do ensemble e a da cidade, como evidenciado no evento transcorrido sob o eixo Faces do futuro – Fantasmas e ficções.

Nas apresentações e atividades que o Teatrojornal acompanha, de quinta a domingo, a efeméride flui revestida o tempo todo pela clareza dos integrantes do Odin quanto ao cumprimento dos ciclos tanto pessoal como coletivo. A imagem ou metáfora da morte como ressignificação é dominante. Essa constatação tão premente no espetáculo mais recente, A vida crônica (The chronic life, 2012), transborda na inédita trilogia Medindo tempo (Measuring time: a trilogy), criada especialmente para a comemoração e intercalada em manhã, tarde e noite de único dia, compondo assim uma performance tripartida quanto ao futuro (em If the grain of wheat does not die), ao passado (Clear enigma) e o presente (Alexander’s secret).

Antes de repassar essa trilogia de significados tão particulares, convém pinçar duas apresentações simbólicas sucedidas nos dias anteriores. Em The Love carpet, o trio de artistas do conjunto Triolerne tece poesia, cantos e fragmentos musicais de suas distintas raízes. Na sessão de sexta-feira no meio da tarde, no jardim ensolarado de uma casa de cultura, a cantora indiana Parvathy Baul, de Bengala Ocidental, a atriz Iben Nagel Rasmussen, primeira dinamarquesa a compor a equipe do Odin, e a violinista italiana Elena Floris, nova integrante do grupo, proporcionam uma viagem devocional por sonoridades, timbres, ressonâncias e arranjos. O tapete e o despojamento d’alma alçam o projeto à categoria ancestral dos narradores de histórias.

Parvathy Baul, Iben Nagel Rasmussen e Elena Floris

Dois espetáculos têm lugar na agenda de sábado. A vida crônica, criação do Odin Teatret de 2011, apresentado num galpão, em outra região da cidade, e sobre o qual publicaremos uma crítica em breve. E Faces of the future, em que o grupo italiano Teatro Potlach, do diretor Pino di Buduo, ocupa áreas externas e internas do complexo cultural Town Hall envolvendo dezenas de atores, inclusive locais, sob os procedimentos de site specific performance. O público caminha desde a rua até os andares, corredores e bastidores dos edifícios que abrigam repartições da prefeitura.

É auspicioso como a administração de Holstebro age de modo progressista ao abrir espaços públicos aparentemente tabus, como sua admirável biblioteca, para ser virada de ponta-cabeça em nome da arte. Um itinerário por dança, música, projeções e instalações que cohabitam contemporaneidades e tradições, bem como múltiplas gerações em várias frentes, corpos de balé, orquestras, núcleos folclóricos de terceira idade e o grupo teatral em si, o Potlach, devotado à pesquisa desde 1976 e um dos interlocutores mais profícuos do Odin Teatret.

De volta ao domingo, 22, ele é brindado com sol de ponta a ponta neste verão de períodos noturnos encurtados para cerca de cinco horas. E olha que a escuridão raramente é plena, variante da aurora com o crepúsculo.

O primeiro movimento acontece às 11h15 no florido e verdejante parque municipal. O roteiro de E se o grão de trigo não morrer exibe quadros com música, dança e teatro, além de breves passagens rituais. Um declive é transformado em palco. O gramado do barranco fica coberto por uma lona amarela, ancora das intervenções endereçadas ao público de todas as idades. As famílias de fato acorrem ao domingo no parque lotando o local. Barba e os assistentes Pierangelo Pompa e Anna Wolf costuram números oriundos de regiões remotas do planeta e sublinham aspectos interculturais.

O grupo Koinonia, de Nairóbi, no Quênia

Além de exibir cenas curtas dos respectivos trabalhos, os artistas interagem em experiências como a dança popular dos meninos quenianos com as meninas do balé clássico dinamarquês, fusão dos corpos negros e brancos atravessados pelas musicalidades, gestos e movimentos uns do outro e outros do um. O auge se dá quando as bailarinas trocam suas saias de tule pelos saiotes de palha dos meninos, e vice-versa, culminando a roda festiva e transgressiva em gênero e tradições devidamente aplaudida em cena aberta.

O espírito lúdico tangencia também as incursões dos artistas do Odin, como na conhecida performance de Kai Bredholt metido em seu figurino de urso, uma figura carismática que toca instrumentos e tenta flertar com uma moça, representada por Roberta Carreri. Outra imagem recorrente do repertório do grupo é aquela do dorso dos atores-manipuladores alongado em formato de boneco com cabeça diminuta enquanto empunham algum instrumento.

Atores do Odin Teatret na abertura da trilogia

A instituição baiana Ilê Augusto Omulú (IAO), voltada à arte-educação e herdeira indireta do pensamento e da prática da dança dos orixás do candomblé codificada por Augusto Omolú (1962-2013) trouxe moças e rapazes que condensaram sua participação em coreografia e percussão alusivas à presença do criador brasileiro homônimo que passou boa parte dos seus últimos anos de vida em Holstebro, em diálogo fértil com Barba e os atores.

Em seguida, a plateia do parque é atraída para o lago localizado em suas costas. Moldados num arco sobre as águas, o enunciado “Odin 50” subitamente entra em chamas sob a observação impávida de uma intérprete balinesa postada ao lado, numa miniplataforma flutuante. Balões brancos subem aos céus carregando, cada um deles, um homenzinho guindado por uma corda. A parte inaugural da trilogia, portanto, sugere ascensão, valorizando o transcurso da vida em seus primeiros passos, o instinto da alegria e da beleza traduzido em cores e leveza prenunciadoras de tons mais dramáticos que estão por vir.

Em carta aos espectadores convidados, Barba define E se o grão de trigo não morrer como “um encontro teatral falsamente otimista entre sementes que talvez brotem entre os ventos da história”.

A partir das 16h ocorrem duas ações no terreno de fundo da sede do Odin Teatret. A cerimônia Ashtanaga Kalam, a cargo de uma família vinda do estado de Kerala, no sul da Índia, não é concebida dentro dos códigos específicos da representação, dada a natureza religiosa. Ou seja, seu fim não é o espectador. Trata-se, portanto, de deslocamento do campo da tradição para as circunstâncias celebradas na casa do Odin, incluindo canções do Pulluvan, membro daquela comunidade secular da mesma região. O ritual intenta propiciar as Nagas, as serpentes que representam a força oculta da terra.

Else Marie na segunda parte da trilogia

Como segunda e concomitante etapa a performance cênica Claro enigma ocupa o lado oposto do vasto quintal ajardinado. Um morro de terra amarronzada serve de território instável para as intervenções dos atores do Odin Teatret que exumam “a energia de seus velhos espetáculos e dela se nutrem mais uma vez”, no dizer de Barba. Na mesma carta ao público convidado, ele define Claro enigma como “o passado enterrado” dentro de cada um. O título alude “à ambiguidade da experiência teatral: de um lado, a evidência do efeito intelectual e emotivo do ator sobre cada um de nós; do outro, o mistério do processo que provoca esse efeito”.

Sucedem cenas curtas no cume e na base que exigem fisicamente equilibrar movimento e fala. Iben, Else Marie, Roberta, Julia e Larsen estão entre os nomes do núcleo artístico que perpassam flashes de obras anteriores. Ao observador brasileiro o título Claro enigma, homônimo da coletânea de poemas de Carlos Drummond de Andrade, de 1951, ecoa processos de dissolução iminente, relativo desencanto e angústia da incerteza.

Vide os versos de Cantiga de enganar: “O mundo não vale o mundo, /meu bem. /Eu plantei um pé-de-sono, /brotaram vinte roseiras. /Se me cortei nelas todas /e se todas se tingiram /de um vago sangue jorrado /ao capricho dos espinhos, /não foi culpa de ninguém”.

A recriação cenográfica de um barco encalhado na duna, até então o monte em que se cavou ou se cravou tantas pás, deságua em achado cirúrgico e corajoso. Até então a embarcação de laterais azul e branca jaz coberta por um plástico preto. Convés convertido em palco aberto a fragmentos ou lampejos de trabalhos anteriores. Na medida em que os atores contracenam lá em cima, em breves evoluções alegóricas, eles atiram “ao mar” figurinos, objetos e adereços.

Esse material esparramado no chão é recolhido posteriormente por um trator pequeno e despejado num buraco. O poço no meio do caminho reserva o mesmo destino às paredes de uma cabana de madeira em que um ser datilografava e termina destruída, mãos e máquina de escrever dependuradas em arame farpado. Tudo engolido pelo buraco distópico da memória.

A partir desse momento, os indianos retomam a cerimônia com mais ênfase na expressão corporal e no canto. O público volta-se a eles, olhares e escutas feitos de silêncios interiores. Concomitantemente, ouvimos o barulho da operação daquele trator, logo atrás, cobrindo o buraco de terra. Em pouco tempo são afixadas nessa superfície ora plana e afofada as traves de madeira que passam a suportar dois balanços. Os bancos oscilam vazios saudando o presente e o futuro com suas potências e impotências.

“Para um grupo de teatro cujos membros passaram boa parte de sua vida juntos, a celebração do seu cinquentenário é vigília de uma nova aventura. Mas é também a ocasião para mexer com a imaginação e a memória, e mergulhar no prazer do instante”, afirma Eugenio Barba.

Eugenio Barba junta-se ao público para ver cerimônia

O terceiro movimento do histórico 22 de junho de 2014 reúne os convivas em outra área externa da sede do grupo. São 21h e a noite espreita lentamente. Tanto os convidados que viajaram a Holstebro como aqueles que aqui residem sabem o seu lugar “à mesa”. O jantar, porém, ganha contornos inusitados. O ambiente revelado atrás do pano passa ao largo de um restaurante, cantina ou afins. O céu é o teto e a mesa propriamente dita, um bloco de feno. Um farnel para a jornada repousa no centro de cada uma. Em torno da mesa, outros fenos ou jornais empilhados fazem às vezes de “cadeiras”. Seis a cinco pessoas que provavelmente não se conhecem e tampouco falam a mesma língua sentam ali para degustar pães, patês, molhos, carne de leitão assada, champanhe, bolo e chá. Barba pede a palavra em dois momentos, fala em espanhol traduzido para o inglês por Julia Varley, a seu lado. Usa de metáforas como a busca pelo rinoceronte entre as nuvens, a cabana como proteção da ventania em referência ao ato de perseverar por meio século.

De volta à carta do diretor, vale a pena reproduzir a alentadora contextualização desse desfecho que desdobra outro ciclo, quem sabe:

“Amor é gelo ardente, é fogo gelado, dizia Francisco de Quevedo [1580-1656, escritor do século de ouro espanhol]. O presente é o abraço dos opostos, a realidade do Eros de várias faces. O segredo de Alexandre é o aqui e agora da experiência compartilhada, o inquebrantável movimento da paixão e da amizade, da gratidão e da ternura. Em sua odisséia a caminho da Índia, Alexandre Magno tinha um cozinheiro que se destacava no canto. Em ocasiões especiais, ele compartilhava com seus amigos e generais a sensualidade da comida e o prazer dessa voz que revisitava o passado e evocava o futuro. Na necessária disciplina da marcha, um banquete como esse parece um passado e evocava o futuro. Na necessária disciplina da marcha, um banquete como esse parece um desperdício. Mas será que o desperdício não foi sempre o pão necessário para conquistar a nossa diferença?”.

Galho de árvore suspendido por fios no ritual da Índia

Sorvemos a emoção incontida dos que ali saúdam a arte do teatro. E tocam os sinos amarrados nos varais do quintal sob a regência de Brigitte Cirla e Nadine Esteve, da companhia francesa Voix Polyphoniques, da Marselha. A cada representante de uma “mesa” é pedido fazer parte do coro de musicistas de primeira hora congregados ao acaso e, em poucos minutos, devidamente afinados com as partituras musicais e corporais ao lado dos sopros, cordas e percussão da Junior Banda di Spina, da Itália.

Criadores como a japonesa Natsu Nakajima (dança butô), o italiano Roberto Bacci (Pontedera), o peruano Miguel Rubio Zapata (Yuyachkani), o espanhol Ricardo Iniesta (Atalaya), o crítico e ensaísta franco-romeno George Banu, o historiador norte-americano Ian Watson, o jornalista e crítico espanhol Carlos Gil Zamora (revista Artez de las Artes Escénicas), entre outros, são cúmplices dessa noite fria e quase branca. “Querido povo secreto, em nome de todos os companheiros do Odin, agradeço a vocês por terem nos acompanhado em nossa dança de meio século. Abraço um por um e desejo, como desejo a mim mesmo e aos meus atores, que a morte nos acolha dançando com nossos sonhos intactos.”

Barba conclui assim sua carta de recepção. Mal cumpre a celebração, já constam da agenda a próxima edição do Odin Week Festival, em agosto. Seis dias de treinamento, demonstrações de trabalho, espetáculos e conferências no Grotowski Institute, em Wroclaw, na Polônia, em setembro. E o recebimento do Prêmio Thalia da Associação Internacional de Críticos Teatrais (Iact) em cerimônia durante o congresso de críticos, jornalistas e estudiosos de mais de 50 países em Pequim, em outubro. Distinção já conferida ao norte-americano Eric Bentley (2006), ao francês Jean-Pierre Sarrazac (2008), ao norte-americano Richard Schechner (2010) e ao indiano Kapila Vatsyayan (2012).

Arco evocativo do cinquentenário do grupo

.:. Site do Odin Teatret, aqui.

.:. Site com programação do Festuge em Holstebro, aqui.

.:. Site do grupo Teatro Potlach, aqui.

.:. Site da companhia Voix Polyphoniques, aqui.

Valmir Santos

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