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Reportagem

Artistas reivindicam salas em Porto Alegre

15.7.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Alex Ramirez

Não é de hoje que artistas da cena teatral gaúcha reclamam da deficiência de espaços, das curtas temporadas, bem como da precariedade de estrutura de algumas salas. Não há como negar que a produção aumentou, mas os espaços não.

“Nos anos 1980, lembro que ganhávamos temporadas de dois meses. Aumentou o número de artistas, escolas, festivais, mas os teatros continuaram iguais”, pontua Vanja Ca Michel, produtora e também diretora do espetáculo Adolescer. Ela aumenta o rol de reclamações: “Quando eu tinha 20 anos, os teatros cheiravam a esgoto no camarim. Agora, com 54 anos, vejo o elenco reclamar do mesmo problema”, desabafa.

Até surgiram novos espaços teatrais, como o Teatro do Bourbon Country e o Teatro Feevale, no entanto, o valor das locações é inacessível para os grupos locais. As companhias daqui então disputam acirradamente espaços nos teatros municipais e estaduais. Exemplificando, saiu recentemente o anúncio dos espetáculos selecionados para ocuparem as salas da Secretaria Municipal de Cultura, Álvaro Moreyra e Renascença – haveria ainda um terceiro espaço, mas o Teatro de Câmara está fechado para reformas estruturais. Cerca de 60 espetáculos teatrais foram inscritos para apresentações no segundo semestre, mas apenas 17 terminaram selecionados. Há de se ressaltar que os teatros também devem contemplar dança e música, bem como outras atividades eventuais.

O aluguel diário das salas citadas acima é de R$ 75,00 ou cinco vezes o valor do maior ingresso. Para a diretora da Cia Rústica, Patrícia Fagundes, grande parte das montagens acaba se apresentando em locais alternativos: “alguns têm essa intenção, outros porque não têm espaço”. Segundo ela, esses locais são um arranjo provisório em termos de estrutura de espaços cênicos. Além disso, Patrícia aponta que as temporadas oferecidas para grupos que estão estreando não são suficientes para que o público que já assistiu indique os espetáculos a outros indivíduos, porque em geral, são demasiadamente curtas (em torno de seis apresentações).

Fachada de complexo municipal que abriga duas salas

“Vivemos uma crise de público, não só de teatro, mas de espetáculos ao vivo. Duas semanas podem parecer curtas, mas têm sido suficientes para o público. Não adianta estender uma temporada e ficar com 20 pessoas na plateia. A média de ocupação dos teatros municipais em peças é de 40% de público. Vivemos um problema que não é de oferta, é de demanda”, justifica o coordenador de Artes Cênicas, Breno Ketzer.

Ele reforça que a coordenação opta por investir em espetáculos que propõem pesquisas de linguagens e reflexões, e não em peças mais populares o que, consequentemente, atrai mais público. “Os melhores espetáculos de Porto Alegre têm ocupado as nossas salas, mas mesmo esses não representam um sucesso de público”, acrescenta.

Visando buscar uma solução, Ketzer enfatiza que a área trabalha para suprir esse déficit de público investindo em projetos de formação de plateia, como a escola de espectadores, teatro aberto e diversas outras atividades com entrada franca. “Porém, isso são medidas que vão dar frutos a longo prazo”, lembra.

Uma alternativa para a falta de espaços teatrais seria abrir os já existentes e que estão fechados, como o Teatro Elis Regina, idealizado ainda em 1994. A transformação da Sala Elis Regina em teatro deve começar neste ano, segundo o coordenador. Localizada no segundo andar da Usina, ela pode representar um avanço para suprir o déficit estrutural de locais para a apresentação de espetáculos. “Para a construção de novos teatros não existe uma perspectiva, mas estamos trabalhando para abrir o Teatro Elis Regina para montagens teatrais”, enfatiza o secretário-adjunto municipal da Cultura, Vinícius Cáurio, sem citar prazos.

Programas de fomento ao teatro podem ser alternativa

Do lado estadual, a opção de suprir a demanda de espaços para as apresentação teatrais está na aposta do novo Centro Cenotécnico do Estado. Apesar de não ter sido demolido, em função das obras para a Copa do Mundo, ele segue com o mesmo projeto: de ter dois espaços. Será reconstruído na rua Voluntários da Pátria e também deve ocupar um novo prédio na avenida Júlio de Castilhos. “Na Voluntários, o projeto arquitetônico está pronto, falta regularizar a área. E na Júlio, o projeto de reforma também está feito, faltam detalhes burocráticos entre Banrisul e Secretaria da Administração e dos Recursos Humanos”, conta Marcelo Restori, diretor do Instituto Estadual de Artes Cênicas (Ieacen).

Ele também enfatiza que, em breve, será realizado um convênio com os grupos teatrais que ocupam o Hospital Psiquiátrico São Pedro, e os teatros da Casa de Cultura Mario Quintana estarão reformados até o final do ano. O mesmo vale para o Teatro de Arena. “A atual gestão está recuperando os espaços que herdou sucateados”, lembra Restori.

Além da abertura e construção de novos espaços, outra solução possível seria apostar em leis de fomento, como ocorreu em São Paulo e transformou a cena teatral paulista na última década. Atualmente, essa legislação existe na capital, mas beneficia apenas um grupo com o valor de R$ 100 mil. Na entrega da premiação do Açorianos de Teatro, em dezembro de 2013, foi anunciado o contemplado pela lei. Na ocasião, a presidente do Sindicato dos Artistas (Sated), Rosa Maria de Campos Velho, fez uma declaração pedindo às autoridades que aumentassem a verba distribuída de R$ 100 mil para R$ 1 milhão. “Este baixo valor não representa uma lei de fomento. Precisamos defender os trabalhadores para que tenham condições de exercer sua profissão”, afirma.

A Secretaria Municipal de Cultura alega que não existe dinheiro para isso. No entanto, há iniciativas que caminham neste sentido. É o caso do Usina da Artes, projeto que ocorre dentro da Usina do Gasômetro. A atividade, que promove residência artística de 10 grupos de artes cênicas, em 2009 se tornou lei municipal. Desde 2005, a iniciativa garante uma verba que chega, atualmente, a R$ 216 mil (R$ 1,8 mil para cada grupo mensalmente).

Porém, os grupos que integram o projeto vivem uma constante luta para mantê-lo na ativa. “É uma relação bem complicada, sempre foi. É um projeto muito inteligente, acabamos ocupando a usina de uma maneira artística e criativa, mas acho que a prefeitura não entendeu ainda a importância desse espaço. Para mantê-lo, é preciso destinar mais verba e fornecer condições estruturais. Estamos sempre na corda bamba”, conta o diretor do Teatro Sarcáustico, Daniel Colin. Seu grupo ocupa a sala 309 e enfrenta problemas no espaço: está entrando água na sala. Provavelmente, terá que cancelar as temporadas. “Não queremos perder esse espaço, ele é fundamental para o trabalho do grupo, mas é preciso investir mais”, desabafa Colin, que representa um dos grupos locais mais premiados.

O secretário-adjunto municipal da Cultura, Vinícius Cáurio, informa que as salas da Usina devem passar por reformas para se adequarem à nova legislação de prevenção e combate a incêndios no Rio Grande do Sul. “O projeto Usina das Artes não necessariamente deve ser executado na Usina do Gasômetro. Para as salas que não puderem ser adequadas, por uma questão de segurança, teremos que sentar com os grupos e conversar”, relata.

O secretário municipal da Cultura, Roque Jacoby, havia destacado na entrega do prêmio Braskem do ano passado um aumento de quase 100% nos recursos para a pasta em 2014. De fato, isso aconteceu, mas em partes. De R$ 45 milhões, passou para R$ 75 milhões. Atualmente, o montante destinado à cultura representa 1,26% do orçamento da prefeitura, mas nada de novo destinado ao teatro. O aumento de quase R$ 30 milhões foi direcionado a outros projetos, como a manutenção e cuidado dos monumentos de Porto Alegre e o sambódromo.

“Nós vivemos uma disputa muito grande por recursos com outras áreas. Quando fecha um posto de saúde, o povo se revolta e, infelizmente, isso não acontece com os teatros. Não tem esse impacto, e a mobilização também é fundamental”, lamenta Breno Ketzer, da Coordenação de Artes Cênicas da Capital.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 1, em 8/7/2014.

Michele Rolim

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