Menu

Assine nossa newsletter

Reportagem

Clássicos em milenar palco de pedra espanhol

21.7.2014  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Jero Morales

Verão na Espanha não é tempo só de praia, mas também de festivais. Em todo o país, julho e agosto são meses em que diversas regiões recebem uma intensa programação cultural. E, curiosamente, muitos desses eventos acabam sendo também a oportunidade de levar o público a revisitar históricos espaços de espetáculo.

Em Barcelona, ocorre o Grec, festival que ocupa um imenso teatro de arena, construído ao ar livre, em 1929. Em Granada, obras de dança e música são apresentadas dentro do Palácio Carlos V, prédio renascentista de 1527. O exemplo mais emblemático dessa corrente, porém, está em Mérida, uma pequenina cidade, próxima da fronteira com Portugal, que guarda um teatro único no mundo: uma construção romana, praticamente intocada, que data do ano 16 a.C.

Sede do mais longevo evento do gênero no país, Mérida realiza em 2014 a 60.ª edição do seu Festival de Teatro Clássico. Lá, para fazer jus à tradição do espaço, são encenados apenas textos antigos – criações dos dramaturgos da Grécia Antiga até William Shakespeare. Até o dia 28 de agosto, o monumental palco de pedra recebe montagens como A ilíada, de Homero, As rãs, de Aristófanes, O eunuco, de Terêncio, além de uma heterodoxa versão de Medusa.

Com base nessa figura mitológica, a bailarina Sara Baras criou uma montagem que se vale da mais típica das danças castelhanas para narrar a história da mulher injustiçada pelos deuses. “É a primeira vez que faço uma obra clássica”, diz ela, nome máximo do flamenco e alçada à categoria de celebridade entre os espanhóis. “No flamenco, é muito comum que se busque respeitar a estrutura e os ritmos do gênero. Não é que eu não faça isso aqui, mas o mais importante era contar essa história. Todas as mudanças foram feitas para respeitar a interpretação.”

É a primeira vez que a dançarina explora tão fortemente sua faceta de atriz. “Não imaginava que poderia me apaixonar tanto assim por Medusa”, considera Sara. De acordo com a mitologia greco-romana, Medusa é condenada pelos deuses depois de deitar-se com Poseidon. Privada da virgindade, transforma-se em um monstro e seu cabelo ganha a forma de terríveis serpentes.

Não só o flamenco foi subvertido nessa versão. A aparência da tragédia também. Em diversas passagens, a obra parece se aproximar mais do drama do que do gênero clássico. O público também responde de maneira peculiar, aplaudindo e vibrando com o virtuosismo dos números de dança.

Teatro Romano de Mérida construído no século 16 a.C.

Hoje, o teatro de Mérida tem capacidade para 3.500 pessoas. Perdeu parte de sua capacidade – que chegou a ser de 6.000 lugares –, mas é considerado por muitos como o exemplar mais bem conservado do mundo. Sua principal diferença em relação aos congêneres gregos são suas imensas colunas e pilastras de mármore sobrepostas e a série de esculturas que ladeia o palco. O conjunto é classificado pela Unesco como Patrimônio Mundial.

Criado por Marco Agripa, genro do imperador Octavio Augusto, o espaço esteve em funcionamento até o século 5º, quando foi abandonado. Depois do domínio romano, a região caiu nas mãos dos visigodos e dos árabes. E o teatro só se conservou por um dado curioso: passou a ser utilizado como depósito de lixo e manteve-se intocado até 1910, quando começaram as escavações.

Em 2.000 anos, espaço só recebeu uma atriz em 1933

Nos teatros da antiguidade, mesmo que os personagens fossem femininos, apenas os homens podiam participar dos espetáculos. Criado no século 15 a.C., o teatro de Mérida só recebeu uma mulher em seus palcos no século 20. No local, hoje, uma estátua homenageia Margarita Xirgu, a espanhola que interpretou o papel de Medeia, em 1933, naquela que foi a primeira edição do Festival de Teatro Clássico da cidade. A carreira de Margarita se confunde com a trajetória das artes cênicas na Espanha. Uma das intérpretes favoritas de Federico García Lorca, atuou na estreia de algumas de suas obras importantes, como Mariana Pineda, em 1927, e La zapatera prodigiosa, em 1930. Apesar do sucesso, a atriz foi obrigada a deixar o país em 1937. Pouco antes que estourasse a Guerra Civil espanhola, partiu para a América do Sul em uma turnê com as obras de Lorca. Morreu no Uruguai, em 1969.

.:. Texto originalmente publicado em O Estado de S.Paulo, Caderno 2, p. C7, em 20/7/2014. A repórter viajou a convite da Embaixada da Espanha.

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados