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Reportagem

Descentralização latina em São Paulo

31.7.2014  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Luis Sandoval e Camille Mazoyer

Com mais de dez anos de história, a Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo abre nesta sexta-feira, 1º, sua edição de 2014 com algumas novidades: está maior e também menos centralizada. Ao contrário dos anos anteriores, quando esteve concentrada em apenas um único espaço, a mostra deste ano irá contemplar sete locais distintos: além do CCSP, que tradicionalmente abriga o projeto, foram incluídos cinco CEUs e o Centro Cultural de Cidade Tiradentes. “Essa expansão é nossa maneira de apostar na descentralização da cultura”, aponta Sandra Vargas, uma das curadoras do evento, ao lado de Marcelo Bones. “E também de mostrar a realidade da América Latina para um público que nem sempre tem acesso a essas manifestações.”

O crescimento da programação se reflete principalmente no número de sessões. A quantidade de grupos participantes, 12 companhias, pouco oscilou. Mas o número de sessões previstas passou de cerca de 15, em outras edições, para atuais 43 récitas. “Estamos pensando, inclusive, em expandir para outros estados. Não faz sentido trazer tantos grupos de fora para circular apenas por São Paulo”, pontua Sandra.

Com seis companhias nacionais e outras seis internacionais, a mostra foi organizada em torno de um eixo temático: a identidade. Nas peças, essa noção se desdobra em questões sexuais, políticas ou raciais. Exemplo que ilustra bem a opção da curadoria é Galvarino, espetáculo do grupo chileno Kimen. No título, que já pôde ser visto no Brasil durante a última edição do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, observamos a trajetória de um descendente da etnia indígena mapuche, do Chile. Em busca de emprego, o personagem-título deixa seu país e vai para a Rússia. Lá, consegue se estabelecer profissionalmente e cria outros laços afetivos: casa-se e tem filhos. Passados 30 anos, porém, Galvarino desaparece e a família não consegue obter nenhuma notícia de seu paradeiro. A história em questão é real. O episódio acontece com o irmão da dramaturga, Marisol Ancamil, e tio da diretora, Paula González.

Cena de ‘Galvarino’, do chileno Teatro Kimen

Esse forte vínculo com a realidade observado em Galvarino se dissemina por outras criações. No espetáculo argentino Carnes tolendas a dramaturgia de verve testemunhal também se manifesta por meio da história de Camila Sosa Villada, uma atriz transgênero, que tematiza sua própria condição de travesti, misturando esse relato com a poesia de García Lorca.

Entre as companhias brasileiras, o apego ao teatro documental também se manifesta. Em Metrópole, criação da Inquieta Cia., de Fortaleza, dois atores tentam dar conta dos destinos cruzados de uma cidade. Já em Recusa, da paulistana Cia. Balagan, foi uma notícia de jornal a fagulha que motivou a dramaturgia assinada por Luís Alberto de Abreu. Na peça, conta-se a história de dois índios Piripkura – etnia dada como desaparecida há mais de 20 anos.

Além da grade de espetáculos, o Festival também prevê uma série de atividades formativas e paralelas. Entre elas, o lançamento do site Observatório de Festivais – uma plataforma visual que reúne informações sobre os principais festivais de artes cênicas do País – uma mesa-redonda sobre identidade cultural, além de intercâmbios artísticos entre as companhias. A programação completa pode ser vista no site da Mostra.

.:. Texto publicado originalmente na versão digital de O Estado de S.Paulo, em 30/7/2014.

.:. O site da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, aqui.

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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