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Reportagem

Morre Milaré. Ele deixa curadoria sobre Kantor

10.7.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Rafael Saes

O jornalista, crítico e estudioso teatral Sebastião Milaré, 68 anos, morreu por volta das 9h30 desta quinta-feira. Há cerca de um mês diagnosticado com câncer de intestino, ele estava internado no hospital Cruz Azul, em São Paulo. “A doença evoluiu rapidamente”, afirma uma de suas sobrinhas, Célia Regina Vieira da Cruz. O velório acontece a partir das 18h de hoje no cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo (Rua Jardim da Colina, 265, Jardim Petroni). O sepultamento está marcado para amanhã, às 11h, no mesmo local.

Nascido em Guapiaçu, no norte paulista, a 23 de novembro de 1945, Milaré tem seu nome inscrito no pensamento crítico e na historiografia da produção teatral do estado desde a década de 1970.

Entre os trabalhos mais importantes que encabeçou destacam-se, na literatura, os ensaios biográficos em torno da obra de Antunes Filho nos volumes Antunes Filho e a dimensão utópicaa (editora Perspectiva, 1994) e Hierofania – O teatro segundo Antunes Filho (Edições Sesc SP, 2010), balizados pelos divisores de água da carreira desse artista, a montagem de Macunaíma (1978) e o surgimento e coordenação do Centro de Pesquisa Teatral, o CPT (1982). Nos últimos anos, Antunes não elegia o espetáculo da vez sem consultá-lo nas conceituações e no ensaio.

Ainda na seara dos livros, vale citar, conforme verbete da Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro, a publicação da pesquisa sobre os primórdios modernistas do que se entende atualmente por encenação com foco na obra do diretor e autor carioca Renato Viana (1894-1953): A batalha da quimera – Renato Viana e o modernismo cênico brasileiro (Edições Funarte, 2009).

Milaré era um interlocutor privilegiado dos artistas, quer sob o ponto de vista da plateia quer sob o dos bastidores. As dezenas de programas da série Teatro e Circunstância, que roteirizou e coordenou ao lado do diretor Amílcar de Castro para o canal SescTV, desde a década passada, constituem relevante mapeamento da produção brasileira para além do sudeste economicamente hegemônico. Ou mesmo ao captar a descentralização da arte teatral na cidade de São Paulo após a conquista do Programa Municipal de Fomento (2002), pelos grupos.

Foi curador de teatro do Centro Cultural São Paulo de 1994 a 2010, introduzindo nomes emergentes como os paranaenses Mário Bortolotto e Armazém Companhia de Teatro, ambos até então na Londrina natal, e propondo seminários em torno da crítica e aproximações com os países do Mercosul. Foi criador e editor da revista eletrônica Antaprofana, das pioneiras em refletir sobre as artes cênicas na web brasileira.

Kantor dirigindo ‘A classe morta’ em 1988

Em meados de junho, encontramos Milaré na sessão do novo espetáculo do Coletivo Negro, {ENTRE}, em temporada no Galpão Folias. Voltamos a perguntar sobre um dos projetos ao qual se dedicava com entusiasmo nos últimos meses, culminando viagens à Polônia.

Prestou assessoria ao Instituto Adam Mickiewicz (poeta ícone daquele país no século 19), órgão do governo para intercâmbios culturais, estabelecendo contato com instituições brasileiras que podem firmar parcerias (Sesc, CCBB, Instituto Tomie Ohtake, Itaú Cultural, MAM-RJ, Funarte, etc.), incentivando-as aos primeiros passos.

Por isso fora convidado, em seguida, a ser curador de uma exposição relativa à vida e obra de Tadeusz Kantor, programada para 2015 na unidade Sesc Consolação e ancorada justamente pelo Sesc SP no ano do centenário de nascimento do encenador de A classe morta e Wielopole, Wielopole e cofundador do lendário grupo Teatro Cricot 2 em Cracóvia – Kantor morreu em 1990.

Em troca de email, Milaré anotou: “Visitei especialmente museus em cujos acervos têm obras de Kantor, em várias cidades, e fiquei maravilhado com o conjunto do cara. Sensacional. Já elaborei o projeto de uma grande exposição e agora estou aguardando que o instituto me dê o ok (quanto à disponibilidade das obras que selecionei) para prosseguir negociações por aqui.”

Das ideias extensivas ao que se espera um grande evento, cogitava implantar residências artísticas: diretores e atores poloneses viriam ao Brasil trabalhar com grupos locais, depois brasileiros iriam à Polônia trabalhar com grupos de lá.

Nas andanças pelo país do leste europeu, visitou ainda a Fundação Grotowski, em Wroclaw, e o presidente da referida instituição também teria se mostrado interessado em fazer intercâmbio com o Brasil, assim como a diretora da Cricoteka, em Cracóvia, que mantém grupos de estudos sobre as técnicas cênicas de Kantor. “Senti também no contato com outras pessoas de teatro de lá (diretores e críticos) um interesse muito grande pelo teatro brasileiro. Acho que vai dar samba.”

Além dos problemas de saúde, como o descolamento da retina que quase o impossibilitou de enxergar – um baque borgeano para quem vivia da escrita -, o fumante inveterado e sempre bem humorado enfrentava contratempos da vida prática. Foi obrigado a sair de seu apartamento, no centro paulistano, em decorrência de incêndio num prédio ao lado do seu, no início deste ano.

“Embora o meu apartamento tenha permanecido ileso (com minha biblioteca e meus arquivos, indispensáveis ao meu trabalho), o mesmo está interditado pela Defesa Civil, porque muitos outros apartamentos foram completamente destruídos. Só poderei voltar para casa daqui um ano, mais ou menos”, previa ao comunicar o “acampamento” provisório em outro endereço, autodeclarando-se um “flagelado pós-moderno”. Pano rápido.

Valmir Santos

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