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Crítica

Das belezas e desilusões geracionais

30.8.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Junior Aragão

A peça Cuarteto del alba (2013), ou Quarteto do alvorecer, numa tradução livre, emenda falas, sentimentos, sensações, pensamentos, tempos e lugares como num plano sequencia que poderia se passar na cabeça de uma pessoa. O ato rememorativo que o barcelonês Carlos Gil Zamora deseja tornar presente no teatro vem modulado por quatro vozes multifacetadas. Elas são o dínamo de uma narrativa de extrações lírica e pungente.

Em contraste com a literatura brasileira na poesia de Casemiro de Abreu ou na dramaturgia de Naum Alves de Souza – para traçar um paralelo ibero-americano -, a aurora aqui não repousa na infância, mas na inquietude do porvir na vida adulta, quando a maturidade é destilada. Há uma passagem do texto que interpõe o dia seguinte e o dia anterior ao amanhã. “Adiante: o abismo. Detrás: o dever cumprido”. Neste ínterim perpétuo repousa a natureza da obra transcorrida na terceira e na primeira pessoas.

Esse alvorecer mostra em primeiro plano o retrovisor de gerações que viveram intensamente as rupturas históricas, políticas, sociais e comportamentais e deparam com as distopias mais próximas do que imaginavam.

Zamora constata, se emociona, é autocrítico, ironiza e não renuncia à reinvenção permanente desse inventário de belezas e desilusões. Da exposição dos desejos mais íntimos aos abusos da mão pesado do Estado, o painel toca em questões universais do sujeito, da comunidade ou da nação em seus labirintos.

A montagem que passou pelo Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília mostra dificuldades na transposição desse vasto material para a palco. Em sua concepção, o diretor Lander Iglesias atomiza o que o drama sugere como uma costura contínua de inclinações épicas, apesar das razões subjetivas norteadoras.

Os cinco movimentos ou “capítulos” do texto são indicadores das atmosferas interiores e exteriores no percurso dessas vozes em seus ires e vires – “nos disseram que éramos imortais e acreditamos nisso”. A encenação, no entanto, parece ler como momentos estanques que, por sua vez, apresentam outras subdivisões.

Soam apartadas passagens como o desvario lisérgico, a insólita frustração da transa juvenil na praia, o abuso sexual velado de menores, o desbunde da era pré-camisinha, a violência doméstica censurada por vítima e algoz diante do espanto dos filhos, o desespero existencial e a angústia do cidadão confrontado aos dissensos da sociedade.

Nota-se a complexidade das mutações enfrentada pela equipe de criação. No atacado, a direção de Iglesias não expressa as fluências temporal e espacial desses contornos surreais ou de um real maravilhoso. No varejo, porém, o diretor alcança sinergias não expandidas na conjuntura. Que o digam os solilóquios.

A atriz Maiken Beitia em ‘Cuarteto del alba’

Como na viagem do rapaz (por Gotzon Sanchez) que toma ácido e monologa sobre a cor azul do orgasmo e o teto que sente aprisioná-lo tal qual Alice imersa nas distorções literárias de Lewis Carroll. Ou a moça (por Maiken Beitia) que recorda o descobrimento do amor e do seu corpo num crescendo, sentada num balanço que oscila docemente sem demovê-la das evocações viscerais em palavras que traduzem a carnalidade de um beijo.

Já na transição das cenas que compreendem o quarteto de atores em si (complementado por Ricardo Moya e Valery Tellechea) quebra-se o continuum, a correlação de forças. Momentos predominantes que transparecem a preocupação do diretor e dos atuadores – bem preparados tecnicamente – quanto às marcações sobre objetos, adereços e evoluções coreográficas.

O espetáculo resulta, então, refém dessas movimentações em detrimento do ímpeto libertário que o texto propõe. A eternidade pode ser contida no teatro, essa arte efêmera, clama Zamora em seu libelo à luz no fim do túnel, dramaturgo e também diretor que já dedicou metade da vida à recepção crítica e à edição de uma revista especializada em artes cênicas, a Artez.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. Texto escrito no âmbito da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, iniciativa que envolve os espaços digitais Horizonte da Cena, Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica e Teatrojornal.

.:. O site do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que acontece de 19 a 31 de agosto, aqui.

Gotzon Sanchez na viagem alucinógena

Ficha técnica:
Texto: Carlos Gil Zamora
Direção: Lander Iglesias
Com: Gotzon Sanchez, Maiken Beitia, Ricardo Moya e Valery Tellechea
Assistente de direção e figurinos: Mariluz Díaz
Música: Iñigo Ibaibarriaga
Luz: Iñaki García
Técnico: Koldo Belloso
Projeções: Bruno Ventola
Produção: Laurentzi Producciones Sociedad Limitada

Valmir Santos

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