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Crítica

Circum-navegar a palavra

14.9.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Adauto Perin

O grupo chileno Teatro en el Blanco crava em La reunión o poder da retórica que enfeixa ator e voz no domínio técnico assim como, no plano das ideias, atrita história e ficção ao jogar com avatares dos processos de colonização. As figuras da rainha Isabel e do navegador Cristovão Colombo são catapultadas de cinco séculos atrás para uma arena expositiva das seduções do e pelo poder aplicáveis aos sistemas políticos de todas as épocas.

Trinidad González e Jorge Becker atuam ao redor de uma mesa igualmente circular. É para lá que arrastam a atenção máxima do espectador, o mapa-múndi de suas ambições desmedidas e expiações. Em audiência a portas fechadas no hipotético palácio, o navegador italiano tenta convencer a rainha espanhola das benesses por trás do método de dizimação dos povos originários em sua sanha de conquistar as Índias Orientais (como o continente americano era genericamente nomeado no século 15, antes das “descobertas”), justamente a mando do Império Espanhol.

Mancomunada com a igreja – daí a alcunha de “a católica” conferida pelo papa de então –, Isabel expia culpas a que Colombo não tem a menor paciência, mas sabe que só a dona da coroa poderá livrá-lo do cárcere impingido pelos monarcas diante do fracasso em administrar as terras que governou à base de escravidão e genocídio.

O texto da também diretora e atriz González é ambicioso em seus painéis histórico, social e econômico. As frases curtas e sentenciosas armam e desarmam as máscaras das autoridades cujas decisões manobraram o destino de milhões de pessoas durante a expansão marítima protagonizada por Espanha e Portugal.

O conteúdo teoricamente maçante não se apresenta assim porque a dramaturgia transita planos institucionais e íntimos, colocando os poderosos a nu, humanizando-os – não confundir com conivência, longe disso. O vinho dilata furores verbais e carnais fermentados por atuações viscerais sob medida, sem margem para o destrambelho gestual ou fonético.

As atuações de González e Becker, não é demais reforçar, são vitais para sustentar a complementaridade dos discursos. Um projeto primoroso de ator.

Os chilenos Jorge Becker e Trinidad González

Igualmente seduzido pelo trabalho minimalista que alicerça veemências e nuances, o espectador é contemplado em sua inteligência pelos mecanismos de distanciamento. Não há facilitações emocionais. A esfera política é cortante em tom realista. O artifício teatral que enxuga os recursos de luz e cenografia envolve o ato numa poética seca, como nas texturas e ossaturas dos versos de João Cabral de Melo Neto.

Circulando por festivais e mostras brasileiras desde 2008, com peças como Neva e Diciembre, ambas escritas e dirigidas por Guillermo Calderón, ex-integrante do coletivo, o Teatro en el Blanco mantém graus de sofisticação em sua estrutura de câmara em que as falas engendram musicalidade, aceleramentos e refluxos. O desfecho de La reunión é atordoante pelo acercamento das entranhas da historiografia extraoficial, segundo a ótica dos “vencedores”, e pelo princípio substancial da palavra contra qualquer forma de obscurantismo.

.:. O jornalista viajou a convite do Sesc SP, organizador do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos.

.:. O site do Mirada, aqui.

Ficha técnica:
Dramaturgia e direção: Trinidad González
Com: Jorge Becker, Tomás González e Trinidad González
Música original: Tomás González
Técnicos: Camilo Castaldi e Tomás González

Valmir Santos

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