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Reportagem

Dramaturgia de picadeiro

2.10.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Fernanda Chemale

Na sede do Circo Girassol, no bairro Bom Jesus, em Porto Alegre, Dilmar Messias, aos 66 anos, mantém sobre a mesa o livro A loucura de Isabela e outras comédias da Commedia Dell’arte, de Flaminio Scala. Na obra, estão publicados textos da Commedia dell’Arte – gênero conhecido pela liberdade em cena, no qual muitos atores improvisam em torno de um roteiro. Por conta dessa característica, há poucos registros textuais, pois muitos desses roteiros eram transmitidos oralmente.

Não é por acaso que o livro faz parte da estante do diretor do Circo Girassol. Assim como a Commedia Dell’arte, o circo também carece de registros. Na tentativa de suprir essa lacuna, Messias lança amanhã (2), às 19h, no Café Sesc (Alberto Bins, 665, Porto Alegre), Pão & circo – textos, roteiros e argumentos para o picadeiro (Libretos, 120 págs., R$ 25,00).

A ideia surgiu de uma provocação da atriz e amiga Daniela Carmona: “Palhaço escreve?” A partir disso, Messias resolveu registrar os textos do Circo Girassol. Esta experiência é muito nova, pois textos voltados a essa área são raros no País. “Quando criei o Circo Girassol, não tinha nada publicado, eu tive que traçar o meu próprio caminho. Como tinha experiência com teatro e dramaturgia, mesclei essas linguagens”, diz ele, que já teve outras publicações. A obra concebida para o picadeiro foi dividida em textos, roteiros e argumentos por suas semelhantes características. Constam no livro Cyrano nas nuvens, O mundo da lua, Cabaré, Misto quente, Gran circo irmãos Siqueira – circo mágico, Pão & circo e Circo eletrônico.

Para Dilmar, o circo passou a ocupar um lugar de importância dentro dos movimentos artísticos e segue exercendo fascínio nas demais gerações pelas suas características de liberdade, itinerância e espaço para o diferente. “O circo se transformou, ele saiu da estrutura tradicional familiar e acabou indo para a rua como todos os movimentos, eu acho que tem a ver com o espírito de Woodstock”, conta ele, se referindo ao festival de música que exemplificou o movimento da contracultura no mundo.

Filho de um comerciante e de uma dona de casa, Messias nasceu em uma família de 10 filhos – todos com nomes que começam com a letra D. Apaixonado por literatura, fez um teste para o Departamento de Arte Dramática na UFRGS com a intenção de escrever textos para o teatro. Mas, durante a avaliação, descobriu também outra vocação. “Quando comecei a fazer uma cena improvisada, todos riram. Não era essa a minha intenção, eu não entendia, mas foi um sucesso”, recorda ele. A inclinação para a comicidade resultou na encarnação do palhaço Franz, cuja mais recente aparição foi no espetáculo O casamento do grande mágico Maycon Stallone, do Circo Girassol.

Capa da obra com peças do Circo Girassol

Com 46 anos de carreira, ele está há 15 anos à frente do grupo, conhecido por produzir espetáculos que misturam teatro e recursos circenses. “De alguma forma, meu teatro sempre foi influenciado pela estética circense”, comenta o diretor, lembrando que a sua peça Hoje é dia de rock (1976), foi um marco na renovação da dramaturgia do circo-teatro.

Desde 2008, o Circo Girassol tem uma sede própria e atende a cerca de 60 jovens, além de formar diversos artistas. “Estamos vivendo um momento de extrema dificuldade, pois os professores dão aula de forma voluntária, não temos nenhum apoio para fazer esse trabalho”, desabafa, no que completa: “Eu gostaria mesmo que se consolidasse o projeto de uma escola de circo, para que não estejamos sempre com falta de recursos”, projeta o diretor.

.:. Texto escrito originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 1, em 30/9/2014.

Michele Rolim

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