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Crítica

Riscos e braços fraternos

20.12.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Pablo Pinheiro

Uma vez expressa com verdade, nascida da necessidade de dizer, não há como deter a voz humana. Quando censurada a boca, ela fala pelas mãos, pelos olhos, pelos poros ou por onde quer que seja. Essa percepção compõe uma das narrativas breves que o escritor Eduardo Galeano imprime em El libro de los abrazos (1989), cujas páginas e lampejos inspiram a dramaturgia do novo espetáculo do grupo Clowns de Shakespeare.

Quem dá as cartas em Abrazo, a obra teatral, são as partituras físicas, sonoras e visuais. As palavras, também elas músculos, são suprimidas em sintonia com os temas do exílio, da opressão e da liberdade na desafiadora abordagem para crianças e seus pais e responsáveis.

O argumento e o roteiro de César Ferrario elegem o imaginário como o lugar do exílio na infância. Contorna a geografia realista das ditaduras dando margem às dores do impedimento de ir e vir. Afinal, não se trata de uma visita em vão ao pensamento e à arte do autor uruguaio de As veias abertas da América Latina.

A dramaturgia coletiva e a direção de Marco França conseguem elaborar em fábula conflitos de natureza social, política e íntima sem ofuscar a poética de uma teatralidade ostensiva nas ações físicas, na musicalidade, na relação com as formas animadas e na espacialidade que tem a ver com a metáfora dos muros, paredes e saídas.

Um losango riscado no chão da cena corresponde ao território de coerção. Quem ali pisa é controlado por forças contrárias, dedos em riste, alarmes que proíbem o mero abraço. Esse obstáculo constitui a deixa para o jogo de invenção do trio de atuadores ao contornar os impedimentos que eles mesmos representam, bem como suas figuras carismáticas impedidas de celebrar o ato fraterno e, portanto, universal.

É quando o espectador se dá conta do quão o prólogo vem a calhar. O papaguear de “nãos” que a criançada ouve dos adultos nos primeiros momentos de vida (e ‘não’ é talvez a única palavra ao longo da peça) permite analogia com os diferentes graus de repressão.

‘Abrazo’ elabora imaginário como lugar do exílioPablo Pinheiro

‘Abrazo’ elabora imaginário como lugar do exílio

Na pré-estreia que abriu o festival O Mundo Inteiro É um Palco – Ano 2, organizado pelos Clowns em sua cidade, Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz demonstraram afinidades nos tempos e silêncios. Restava ainda dosar a extroversão nata com a sutileza das atmosferas eminentemente afetivas, como quando se é apartado dos seus. A interpretação de Simone Mazzer para Gracias a la vida, concebida exclusivamente para a trilha de Abrazo, comove os mais velhos pela dolência historicamente impingida ao continente.

Com figurino-base nas cores brancas e pontuado por vermelho (uma criação de João Marcelino), os atores transitam bem por figuras ternas, como a avó caracterizada por um xale, ou sisudas, como um militar sugerido pelo quepe, todos denotados pelos respectivos desenhos gestuais que acertadamente não ambicionam a excelência da pantomima, antes uma presença borrada. O revezamento de papeis, lugares e gêneros também empregam dinâmicas próprias.

Debutante na direção, França organiza a sequência de quadros com a agilidade de quem conhece de perto o trabalho de ator e zela pela potência musical, seara que domina há anos e da qual assina ainda direção, composição original e arranjos. Aliás, a música permanece um traço de singularidade do grupo potiguar, conarradora em canto, instrumento e cadência.

Recursos como a sombra, a máscara e as ilustrações projetadas nas portas cenográficas reafirmam ludicidade. A terna relação do trio com objetos e adereços cativa tanto quanto no momento em que tudo é disposto na boca de cena, transmitindo o sentimento de abandono ou separação similar àquele de recolher os brinquedos para a caixa no fim do dia.

Após hiato de oito anos desde a primeira e até então única montagem para crianças – Fábulas (2006) –, o Clowns de Shakespeare delineia em Abrazo um prolongamento de suas pesquisas e, portanto, de sujeições ao risco. Readentra o campo do teatro infantil com uma produção significativa, sobretudo no panorama local. E demonstra coerência com o recente repertório latino-americano iniciado este ano com Nuestra Senhora de las nuvens, passando pela recriação do prosa de Galeano – a temporada no Barracão Clowns vai até o próximo domingo (21/12) – e devendo ser concluída em 2015 com Dois amores e um bicho, do venezuelano Gustavo Ott. Dialogar – ou triangular – com o imaginário latino é uma voragem à altura dos 21 anos de travessia do grupo.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do festival O Mundo Inteiro É um Palco – Ano II.

Serviço:
Onde: Barracão Clowns (Avenida Amintas Barros, 4.661, Nova Descoberta, Natal, tel. 84 3221-1816)
Quando: sábado e domingo, às 11h. Ate 21/12.
Quanto: R$ 10 a R$ 30

Alusões autoritárias permeiam o textoPablo Pinheiro

Alusões autoritárias permeiam o texto

Ficha técnica:
Dramaturgia: Clowns de Shakespeare
Argumento e roteiro dramatúrgico: César Ferrario
Direção: Marco França
Atuação: Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz
Música original, arranjos e direção musical: Marco França
Músicos convidados: Simone Mazzer, Roberto Taufic, Júnior Primata, Samir Tarik, Zé Hilton, Vitor Queiroz
Gravação e mixagem de som: Eduardo Pinheiro e Johnatan Fernandes
Desenho de som (cena Guerra dos Insetos): Fernando Suassuna
Preparação corporal: Anádria Rassyne
Figurino: João Marcelino
Adereços de figurinos e cenário: João Marcelino, Anderson Galdino e Janielson Silva
Máscaras: Janielson Silva e João Ricardo Aguiar
Cenotecnia: Anderson Galdino, Janielson Silva
Ilustrações: José Veríssimo
Animações: Paula Vanina
Filmagem (cena Sombra do Soldado): Carito Cavalcante
Projeção mapeada: Wilberto Amaral
Produção executiva: Rafael Telles
Coordenação técnica de vídeo: Rafael Telles
Supervisão técnica: Ronaldo Costa

Valmir Santos

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