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Crítica

A política do ‘Desbunde’

12.1.2015  |  por Francis Wilker

Foto de capa: Sartoryi

Um dos destaques da produção teatral brasiliense em 2014 foi o show cênico musical Desbunde, com direção de Juliana Drummond e Abaetê Queiroz, que realizou sua estreia no Teatro Dulcina e fará nova temporada neste mês de janeiro. O trabalho é inspirado na história de grupos como Dzi Croquettes (RJ) e Vivencial Diversiones (PE) – este uma referência afetiva para o cineasta Hilton Lacerda na criação de Tatuagem, de 2013, assim como aquele foi retratado no documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, de 2009. Ambos imprimiram na década de 1970 a marca da irreverência, da crítica e da ousadia em seus números artísticos, incomodando a moral e os bons costumes, além (e também por isso) da polícia. Os atores de Desbunde destilam, por cerca de duas horas, entre purpurinas, canções, danças e palavrões, o seu libelo contra a opressão do corpo e da mente diante de uma plateia acalorada que responde e se envolve a cada provocação.

Talvez eu pudesse apontar um ou outro aspecto da montagem que carece de ajustes, como a relação entre ritmo e dramaturgia que, em certos momentos, parece deixar “afrouxar” o fio tenso e teso que os atores mantêm quase todo o tempo. Ou, ainda, considerações sobre a atuação nos momentos mais dramáticos que se configuram. Entretanto, o nível de entrega dos intérpretes, evidenciado no conjunto de atuações viscerais com abertura para improvisos e o risco presente no jogo vivo entre atores e espectadores me faz ter o desejo de discutir outros aspectos dessa montagem. E creio que nenhuma das possíveis fragilidades que possam ser apontadas diminuiria a potência desse trabalho contagiante. Efetivamente algo nos acontece!

Na dramaturgia proposta, com roteiro de Sérgio Maggio, temos um ambiente decadente, a fictícia boate Desbunde. É nesse local que conhecemos as histórias desses artistas, o grande líder do lugar, Claudia Valeria, um artista mais velho com ares de “fim de carreira” e, ao seu lado, Saquarema Satanás, Petit Du Buá, Savana Sargentelli e Marquesa, um grupo de belos e jovens homens que cantam, dançam e encantam. Percebe-se que as condições financeiras dessa trupe não são as melhores. Há uma precariedade presente na cenografia, nos figurinos e no próprio espaço cênico escolhido, o Teatro Dulcina. Diferentemente dos grandes musicais que ocupam salas em São Paulo ou no Rio de Janeiro com altos investimentos e tecnologia, neste caso, encontramos uma montagem despretensiosa e erguida com poucos recursos, o que resulta também num interessante contraste diante da altivez e glamour desses personagens. A narrativa revela aos poucos a alternância entre o plano da memória e da realidade e convida o espectador a ir estabelecendo possíveis nexos. É nesse contexto que o elenco coeso e vibrante dá vida a personagens que celebram a liberdade de expressão, a busca de sentido para a vida e que compartilham suas dores e amores.

É interessante notar como, em 2014, o corpo ainda é visto muitas vezes como tabu, gerando provocação e constrangimento. Bundas expostas, outras vezes paus à mostra, beijos lânguidos, e assim se desenha um vetor do trabalho que é a própria “des-proibição” do corpo, do desejo, da sensualidade, da sexualidade. Para alguns, talvez, Desbundefique apenas nessa primeira camada da pele. E isso não é pouco, já cumpriu um papel importante ao reafirmar que o corpo não é prisão, não é pecado, não precisa ser domesticado. O corpo é um discurso poético e plural no mundo!

Cena do "show cênico musical" de BrasíliaSartoryi

Cena do “show cênico musical” de Brasília

Outras camadas da pele dessa montagem me afetaram bem mais que qualquer bunda gostosa. E foi assim, camada após camada, que Desbunde ganhou para mim tantos contornos, bastou lembrar de alguns fatos: dei-me conta de que estávamos no Teatro Dulcina, que luta pela sobrevivência como o mais terminal dos enfermos num leito de UTI, exemplo dessa batalha é o fato de alugar sua pauta aos domingos para cultos religiosos; lembrei que aquele espaço é fruto de um esforço incondicional da atriz Dulcina de Moraes (1908-1996), que travou inúmeras batalhas para construir ali, no Planalto Central, uma faculdade de artes e um teatro, e que esse sonho definha abandonado pelo poder público, assim como o tempo que transforma em ruína seus antigos figurinos, fotos e cartas guardados num abafado camarim ou as cadeiras e o palco do próprio teatro; em seguida, constatei que esse teatro está localizado no Setor de Diversões Sul, criado originalmente para ser a parte da cidade destinada à vida cultural, aos cinemas, teatros, cafés e livrarias, dos quais apenas o Teatro Dulcina ainda não se transformou completamente em templo religioso.

Um setor que um dia abrigou as boates alternativas, a cena LGBT, o desbunde, mas que também foi abandonado e nem mais o título de marginal parece ser capaz de carregar, hoje é mais um condomínio de lojas, escritórios e igrejas evangélicas. Não fosse a presença da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, da Associação Cultural Ossos do Ofício, dos encontros dos praticantes de skate e algumas outras iniciativas, esse espaço pouco teria de vida cultural, artística, de encontro, de festa. Por fim, ainda pude recordar que estávamos na capital do Brasil, erguida sob a égide do modernismo, a promessa de um país melhor, o lugar onde seriam tomadas as decisões mais importantes da nação, uma cidade que sonhou, na sua concepção, em unir, mas viu nascer a separação quando anulou a história de Goiás anterior ao concreto ou quando viu seus construtores habitarem loteamentos distantes do Plano Piloto, pois não havia lugar para os mais pobres. E foi aí que o Desbunde,idealizado de modo apaixonado por Juliana Drummond, doeu em mim. E não teve cu, pau ou beijo capaz de me desviar da ideia de que essa peça falava também de quando os nossos sonhos e utopias vão pouco a pouco se tornando ruína, decadência e abandono em meio a toda a purpurina que um dia os impulsionou. Considerando todos esses aspectos, arriscaria dizer que a escolha do espaço para a realização desta obra se revelou como um elemento singular na sua produção de sentido e na sua potência política.

O Brasil já não é mais aquele da implacável ditadura que bateu, prendeu e matou; ela já não é o inimigo que sufoca artistas e intelectuais, como aqueles que inspiraram a própria criação brasiliense. Porém, e como diria o nosso saudoso Plínio Marcos, “sempre tem um porém”, são múltiplas as camadas de sentido que essa peça, precisamente nesse local e nessa cidade é capaz de produzir.

Nos momentos finais do espetáculo somos ainda confrontados com o discurso do candidato à Presidência da República nas eleições de 2014, Levy Fidelix, no seu depoimento de ódio aos homossexuais. Naquele momento nos damos conta de que a incompreensão e a violência da ditadura ainda habitam sim nossas ruas, casas e televisões. Para aqueles que viram em Desbunde um teatro datado, com pouco endereçamento ao nosso tempo, eu discordo veementemente. Num país que mata tantos homossexuais, negros e mulheres, onde os teatros são transformados em igrejas e fazer arte se torna cada vez mais uma árdua batalha para não deixar um sonho definhar – me desculpem, mas não pode haver data ou tempo certo para todo grito de liberdade e celebração ao prazer, à festa, ao amor, ao corpo e ao encontro!

E para quem só conseguiu ver em Desbunde um déjà vu das décadas de 1960 e 1970 ou ainda um desfile superficial de corpos, músicas e “bichices”, fica aqui o convite para tocar e passar a língua em outras partes desse corpo-espetáculo. E, para o grupo, a torcida para que essas diferentes camadas de sentido apontadas acima não se percam e, quem sabe, até ganhem mais contorno no seguir das temporadas e mesmo nos outros espaços que Desbunde venha a armar sua poesia.

Salve a festa, o tesão e a purpurina que nos ajudam a seguir lutando por nossos sonhos, mesmo quando tudo em volta se mostra árido, careta e pré-fabricado!

Salve a potência política do desbunde!

Precariedade de recursos contrasta altivez e glamour Sartoryi

Precariedade de recursos contrasta altivez e glamour

Serviço:
Onde: Teatro Plínio Marcos – Complexo Funarte (Eixo Monumental, Setor Divulgação Cultural, atrás da Torre de TV, tel. 61 3322-2076).
Quando: quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h. Nova e curta temporada de 22 a 25/1/2015.
Quanto: R$ 20.

Ficha técnica:
Idealização e argumento: Juliana Drummond
Direção: Juliana Drummond e Abaetê Queiroz
Desenho de luz: Abaetê Queiroz
Roteiro: Sérgio Maggio
Pesquisa musical: Sérgio Maggio e Juliana Drummond
Atores-criadores: Tullio Guimarães, Roustang Carrilho, Kael Studart, Tulio Starling e Guilherme Monteiro
Ator hostess: Leonardo Shamah
Coreografias: Juliana Drummond e Lívia Bennet
Preparação corporal: Lívia Bennet
Direção de arte, cenário e figurino: Maíra Carvalho
Assistente de arte: Marcus Takatsuka
Contrarregra: Rodolfo Godoi
Cenotécnico: Rodrigo Lelis
Edição e mixagem das trilhas sonoras: Marcelo Dal Col e Sasha Kratzer
Design de som: Marcelo Dal Col
Design e identidade visual: Jana Ferreira
Fotografia de divulgação: Diego Bresani
Fotografia de cena: Sartoryi e Milena Vasconcelos
Direção de produção: Guinada Produções
Produção executiva e assessoria de imprensa: Nathalie Amaral
Assistente de produção: Leonardo Shamah

Francis Wilker

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