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Reportagem

Embarques da cena curitibana

7.1.2015  |  por Helena Carnieri

Foto de capa: Marco Novack

O teatro curitibano faz as malas para excursionar ao longo do ano e mostrar a cara em várias praças. Nosso grupo mais respeitado hoje na cena nacional, a Companhia Brasileira parte para a França, onde apresenta entre janeiro e fevereiro Nus, ferozes e antropófagos em quatro cidades, incluindo Paris, ao lado dos grupos Jakart Mugiscué e Centro Dramático Nacional de Limousin.

Em março, a Brasileira estreia seu novo espetáculo, Krum, no teatro Oi Futuro do Rio de Janeiro. No elenco, a já parceira Renata Sorrah e ampla equipe. A montagem parte de um texto do israelense Hanokh Levin que põe em xeque as bases do próprio teatro.

O Paraná terá um representante no festival itinerante Palco Giratório, do Sesc: Vigor Mortis jukebox, espetáculo “tecnointerativo” de Paulo Biscaia Filho, circula entre abril e novembro do Rio Grande do Sul ao Piauí.

O cenário é uma caixa de madeira que aprisiona o único ator [Kenni Rogers, na imagem no alto] enquanto ele contracena com vídeos e é assistido num telão por várias pessoas ou por uma janelinha, por um espectador de cada vez.

Os diretores do Teatro Lala Schneider, João Luiz Fiani e Marino Jr., retornam ao Rio com Nem Freud explica, dueto que escracha os estereótipos da psicoterapia com 15 anos de carreira. Ficam no Teatro Vanucci de 9 de janeiro a 6 de fevereiro.

Após o Festival de Curitiba, o grupo Ave Lola faz seis sessões de Tchekhov em Manaus e outras seis de O malefício da mariposa em comunidades ribeirinhas do Rio Negro, como prêmio do edital Myriam Muniz, da Funarte.

2014

O ano passado terminou com um saldo de montagens de alta carga emocional nos palcos curitibanos. Artistas abriram o coração em 2014 para extrair criações calcadas na própria identidade, cujos processos contribuíram para formar “musculatura” profissional, na definição da diretora Ana Rosa Tezza. Repetindo o feito de 2012 (com O malefício da mariposa), ela foi a pessoa chamada o maior número de vezes ao palco do troféu Gralha Azul no dia 16 de dezembro.

Desta vez foi com Tchekhov. Baseado nos escritos e na vida do médico e escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), montagem levou o pássaro de lata como melhor espetáculo e direção, texto adaptado, figurino e iluminação (dividida com Marlon Brando, whiskey, zumbis e outros apocalipses).

Obra dirigida por Ana Rosa TezzaJosé Tezza

Obra dirigida por Ana Rosa Tezza, da Ave Lola

O resultado reflete os meses de trabalho concentrado, mas esconde as motivações pessoais que conduziram o grupo Ave Lola à empreitada. “Foi uma sugestão da minha mãe depois de ler A dama do cachorrinho. Ela disse: ‘É tão profundo e humano. Veja aí se dá para fazer teatro’”, diz Ana Rosa à Gazeta do Povo. Três anos após a morte de sua maior inspiradora, a artista sugeriu abordar o universo do russo e instigou seus oito atores a pesquisar o tema.

Espetáculos indicados mas não premiados também falam sobre opções ligadas à identidade de quem assina o trabalho. As mocinhas da cidade, que concorria como melhor espetáculo, direção, texto original, ator (Alisson Diniz) e atriz coadjuvante (Ingrid Bozza) ao contar a trajetória dos “falsos caipiras” Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, levou o durão João Luiz Fiani às lágrimas durante o processo de pesquisa para escrever o texto e dirigir a montagem. “Sem querer acabei me vendo neles. Foram empreendedores da cultura e nossos primeiros artistas que estouraram nacionalmente”, diz.

Outro diretor que veio com um material muito pessoal foi César Almeida, um “iconoclasta por natureza”, segundo definição própria. Apesar de ser uma crítica ao Gralha Azul, À saída do teatro depois da apresentação de uma nova comédia foi indicado como melhor texto original e atriz (Ludmila Nascarella). A ideia estava na “lista de coisas a montar” de Almeida havia uma década como sátira ao que ele vê de parcial no prêmio. “Pude dizer isso artisticamente”, diz.

Cena de 'À saída do teatro...', de César AlmeidaSônia Morena

Cena de ‘À saída do teatro…’, de César Almeida

O ano de 2014 foi prolífico ainda em rememorações, como a homenagem a Manoel Carlos Karam (Duas criaturas gritando no palco, indicada a melhor espetáculo) e a despedida a Marcelo Marchioro, criador de grandes espetáculos de teatro e ópera na cidade que sofria de esclerose múltipla desde 1999. Piscina, também indicada a melhor espetáculo, reuniu veteranos de peso em torno da produtora e atriz Anna Zétola, que comemora a escapada das atividades institucionais para “se colocar no lugar dos artistas”.

Perspectiva de crise

Comercialmente, o ano de 2014 viu vários teatros particulares fechando as portas em Curitiba e um prenúncio de crise que levou à mobilização da classe artística para reivindicar mais dinheiro municipal.

Presidente do Sindicato dos Produtores e Empresários em Espetáculos de Diversão do Estado do Paraná, João Luiz Fiani afirma ter sido “o pior ano de sua vida”, com sessões tendo apenas 20 pessoas na plateia – raridade nas salas do Lala Schneider. Fecharam as portas os teatros Cultura, Marina Machado, Cia. dos Palhaços e Espaço Cênico, além de algumas mudanças de mãos e de endereço.

A esperança para 2015 é que a cultura não seja deixada de lado. Entre março e abril, o Festival de Curitiba deverá abrigar aguerridas estreias locais – uma peça infantil do grupo Obragem, um Auto da compadecida com Fiani no elenco e direção de Marino Jr., além do retorno das peças premiadas em 2014.

Em junho, abre a temporada do experimental Novelas Curitibanas, e, no segundo semestre o Ave Lola pretende trazer uma nova obra baseada na ativista cambojana Phaly Nuon.

Dramaturgia em ascensão

Se há um campo das artes cênicas em ascensão em Curitiba – no mínimo em volume de produção – é a dramaturgia. Instigados pelo Núcleo de Dramaturgia do Sesi desde 2009, mas não só nesse âmbito, artistas têm pesquisado novos formatos e temáticas para renovar a narrativa em cena.

Indicado a melhor texto original do ano, Marcelo Bourscheid protagonizou a criação coletiva de Do cão fez-se o dia, reunindo e reescrevendo o resultado de uma pesquisa com os integrantes da Inominável Companhia. A partir da obra do português Valter Hugo Mãe, a equipe incluiu questões pessoais e ficções que embaralham a mente do espectador. Um deles foi o próprio Valter, que assistiu ao espetáculo durante o Festival Litercultura. De acordo com a diretora Lilyan de Souza, ele teria gostado muito.

Peça da Inominável Companhia de TeatroAna Carolina Lisboa

Peça da Inominável Companhia de Teatro

Marcelo buscava libertar-se da recorrente figura do pai em sua dramaturgia – o que ele afirma ter conseguido. O problema, conta, é a angústia de procurar uma nova obsessão como combustível para a escrita.

Outros exemplos revelam o crescimento de quem escreve para teatro em Curitiba. Em sua pesquisa para As mocinhas, Fiani conta ter deixado a filosofia de lado para aceitar o lado popular da dupla de músicos.

Musical

O segundo espetáculo mais premiado do ano, Música do portão pra dentro – MPB para crianças, da Cia. Regina Vogue, reflete uma opção artística que vem dando certo para o grupo dirigido por Maurício Vogue: o musical. Em 2013, sua Farsa da mulher do zebedeu foi a maior vencedora do Gralha Azul.

Palhaços

A sexta montagem indicada como melhor do ano, Entretantos contratempos, deixa no ar uma emoção diferente: depois de ganhar envergadura, a Cia. dos Palhaços encerra 2014 sem seu espaço na Rua Amintas de Barros (no lugar, Curitiba ganhará mais um prédio).

.:. Textos publicados originalmente no jornal Gazeta do Povo, Caderno G, nos dias 4/1/2015 (página 6) e 7/1/2015 (página 1).

Helena Carnieri

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