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Reportagem

Sob o manto de Jean Genet

15.1.2015  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Ronaldo Gutierrez

Filho bastardo e adotado na infância, o francês Jean Genet (1910-1986) passou a juventude em reformatórios e prisões. Tais espaços de exclusão e respectivos ocupantes involuntários são matéria-prima de seus romances, peças e roteiros de cinema. Uma existência crua e poeticamente orientada pela perspectiva das margens social, sexual, política e econômica.

Genet tinha como interlocutores os filósofos Sartre, Derrida e Foucault; os compositores Stravinsky e Boulez; o escultor Giacometti; e os líderes políticos Pompidou e Mitterrand, para ter ideia do arco de amizades. “Apenas um punhado de escritores do século XX, como Kafka e Proust, tem uma voz e um estilo tão importantes, tão autorizados, tão irrevogáveis”, observou a ensaísta norte-americana Susan Sontag (1933-2004), sobre o homem que acolheu ladrões, prisioneiros, prostitutos e mendigos que o espelhavam em alguma medida.

É sob a pena desse “maldito” que o Grupo Tapa vai transitar pela primeira vez em seus 35 anos. E em dobro, com As criadas (Les bonnes, 1946/1947), texto do autor dos mais conhecidos no Brasil, e um inédito nestas paragens, Esplêndidos (Splendid’s, 1948), encenado no mundo a partir de 1993, após ressurgimento do manuscrito tido como destruído pelo autor.

As temporadas vão acontecer num endereço fundamental para a história do Tapa: o Teatro Aliança Francesa da rua General Jardim, no centro paulistano. Foi lá que o grupo “residiu” por 15 anos, de 1986 a 2001. Os próprios integrantes consideram aquela uma fase memorável por cristalizar maturação e excelência artística em dramaturgia, direção e interpretação.

Não se trata de reocupação do espaço localizado no térreo do edifício-sede da instituição de ensino de língua e de difusão cultural que completa meio século de atuação na cidade e mantém outras seis unidades. As condições financeiras sempre oscilaram. Houve momentos em que o grupo manteve mais de 50 pessoas vinculadas às peças em cartaz e, inclusive, pagava caução à Aliança Francesa.

Mesmo perseverando a prática e o pensamento de uma companhia estável, nos moldes europeus de longa temporada, média de quatro sessões semanais para cada obra e manutenção incondicional de repertório (não é raro suas produções alcançarem seis, oito anos em cartaz), o Tapa jamais desfrutou de período tão longevo numa casa para desenvolver trabalho continuado.

Desde os primeiros passos profissionais, há 35 anos, o Grupo Tapa faz dos palcos em que aporta um lugar para além da passagem, resultando em experiências marcantes. Com na cidade natal do Rio de Janeiro, em meados da década de 1980, ao cohoabitar o Teatro dos Quatro, em que o ator Sergio Britto era um dos sócios ao lado de Paulo Mamede e Mimina Roveda, ou o Teatro Ipanema, idealizado pela dupla Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque.

Em São Paulo, as residências no teatro distrital Arthur Azevedo, na Mooca (2003-2004), pelo Programa de Fomento ao Teatro, que trouxe em seu ventre o projeto “Homens ao Mar”, da emergente Cia. Triptal, e recentemente no lendário Teatro de Arena Eugênio Kusnet (2013-2014), além da sublinhada jornada no Teatro Aliança Francesa constituem três exemplos bem acabados da arte de repertoriar.

Quando o grupo migrou para São Paulo, em 1986, com O tempo e os Conways, drama do inglês John Boyton Priestley ((1894-1984), montado no Rio no ano anterior, o elenco de uma dúzia de atores trazia Denise Weinberg e Emilia Rey, cofundadoras em 1979, e Clara Carvalho, recém-chegada. Trio que agora se reencontra sob o manto de Genet.

Clara Carvalho e Denise Weinberg são as irmãs Clara e SolangeRonaldo Gutierrez

Clara Carvalho e Denise Weinberg são Clara e Solange

“O Genet não é propriamente realista. A interpretação é realista, mas os desenhos não são. Estamos fazendo uma coisa expressionista na encenação. E a interpretação realista, que é a nossa praia, minha, da Clara e da Emilia. E mesmo assim estamos ralando feio. É instigante. É bom pegar uma coisa que você não sabe fazer. Essa relação entre opressão e prazer, o prazer do oprimido. O oprimido tem o prazer de estar oprimido. O opressor só existe se tem o oprimido, e vice-versa. Todo mundo é muito desconfiado um do outro, tem essa maldade no ar”, afirma Denise Weinberg, afastada do Tapa havia 14 anos, envolvida em outras produções e, sobretudo, trabalhando em cinema e televisão, áreas das quais se manteve à margem em mais de duas décadas de dedicação exclusiva à companhia em que angariou prêmios e respondeu pela administração financeira.

Em As criadas, que pré-estreia quinta-feira, 15/1, duas irmãs, Clara (interpretada por Clara Carvalho) e Solange (por Denise Weinberg) arquitetam a morte da patroa, Madame (por Emilia Rey), de quem gostam de imitar gestos e atitudes de improviso, inclusive fazendo uso dos vestidos imponentes sobre os seus uniformes preto, “vestes de corvo”. Ódio, sordidez, paixão e repulsa são alguns dos estados latentes em meio ao subtexto policial – elas também tentam incriminar o amante de Madame em cartas de falsa denúncia –, culminando o trágico desfecho.

Segundo seu biógrafo, o norte-americano Edmund White, Genet alivia o aspecto criminoso da narrativa em favor de possibilidades heroicas, ritualísticas e retóricas. Seus parâmetros para os jogos de representação, dizia, eram a missa católica e as brincadeiras infantis. O diretor Eduardo Tolentino de Araújo elege a segunda via. As irmãs experimentam os vestidos assim como meninas quando a mãe sai de casa.

“Eu nunca havia lido a obra de Genet sobre um viés familiar/freudiano como sempre fiz com Plínio Marcos e suas famílias primitivas”, afirma Tolentino, citando o santista também digno do epíteto “maldito”, morto em 1999 e visitado pela companhia em Querô, uma reportagem maldita (1992) e Navalha na Carne (1997).

Cofundadora do Tapa, onde atuou por dez anos, Emilia Rey vive MadameRonaldo Gutierrez

Cofundadora do Tapa, Emilia Rey vive Madame

Para Esplêndidos, com previsão de estreia ainda neste semestre, o elenco masculino de oito atores (entre eles Brian Penido Ross e Flavio Tolezani) vive gângsteres que tomam um hotel de assalto e mantêm uma refém no sétimo andar. Para Tolentino, eles “parecem saídos de um filme noir e são quase clichês em seu travestimento”. A concepção ganhará contornos definitivos durante os ensaios, como ocorreu com as atrizes do primeiro espetáculo. “Brincar de bandido e mocinho faz parte do imaginário masculino assim como a casa de boneca pertence ao universo feminino”, diz o diretor.

E para dar liga ao projeto crismado “Genet em dois tempos”, o Tapa foi contemplado em editais públicos: o do ProAC estadual de produção de espetáculo inédito (R$ 80 mil para “As Criadas”) e o recém-instituído prêmio municipal Zé Renato de apoio à produção (R$ 200 mil para “Esplêndidos”).

Ambas agendadas para o palco do Aliança Francesa. “Não imaginávamos comemorar os 50 anos sem a presença do Grupo Tapa. Por razões óbvias que marcaram sua relação com a história do nosso teatro e pela sua permanente importância na cena brasileira. Como o Eduardo [Tolentino] deixou claro, não é a volta da ocupação, mas pretendemos ser parceiros, sempre que possível, tendo a felicidade de receber o Tapa em temporadas”, diz o superintendente de ensino e de cultura da Aliança Francesa, Marc Boisson.

Teatro inaugurado em 31/3/1964, data do golpe militar

.:. Parte do texto acima foi editado para publicação no Valor Econômico, caderno Eu & Estilo, p. D4, em 12/1/2015.

Serviço:
Onde: Teatro Aliança Francesa (rua General Jardim, 182, Vila Buarque, São Paulo, tel. 11 3017 5699, ramal 5602). Quando: Quinta a sábado, às 20h30; domingo, às 19h. De 16/1 a 15/3.
Quanto: R$ 20.

Ficha técnica:
Autor: Jean Genet
Tradução: Pina Coco
Diretor: Eduardo Tolentino de Araújo
Com: Clara Carvalho, Denise Weinberg e Emilia Rey
Cenografia e figurinos: Marcela Donato
Iluminação: Nelson Ferreira
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Assessoria de imprensa: Fabio Camara
Administração: Cesar Baccan
Realização: Grupo Tapa

Valmir Santos

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