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Reportagem

Uma visão particular da obra de Sarah Kane

22.1.2015  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Rafael da Silva

Inspirado na obra da dramaturga inglesa Sarah Kane, a companhia Teatrofídico estreia Cadarço de sapato ou ninguém está acima da redenção na segunda-feira, 21/1, no Teatro Sesc Centro, dentro da programação do Porto Verão Alegre.

Logo no início da peça, o ator Gustavo Razzera atesta: “É a nossa visão muito particular do universo de Sarah Kane”. O grupo constrói, coletivamente, uma dramaturgia que se utiliza dos cinco únicos textos produzidos por Sarah – herdeira da tradição de autores como Samuel Beckett – e os mescla a textos autobiográfico dos atores.

Apesar de suas peças terem um cunho autobiográfico, não se trata de uma biografia da autora – o caráter documental da montagem está justamente nas memórias dos atores. “Eu queria que eles fizessem uma escrita pessoal, que eles trouxessem para a peça a vida deles de alguma forma”, relata o diretor, Eduardo Kraemer.

Durante o processo, por exemplo, o ator Jairo Klein se recordou da família e de ter vivido de perto com um ente querido situações de depressão, comuns à trajetória de vida da autora inglesa. “A companhia tem esse perfil de buscar o humano nos textos, por isso trazemos para cena autores fortes”, relembra Klein, que esteve em montagens que investigaram os universos de Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Luis Buñuel e Nelson Rodrigues, entre outros. São abordados, ao longo da encenação, além de depressão, temas como suicídio, amores não correspondidos, influência familiar e movimentos artísticos.

Sarah Kane se enforcou com cadarços aos 28 anos (por isso a referência no título), em um hospital de Londres, no ano de 1999. Para o ator Renato Del Campão, apesar de ela ter vivido no século XX, os textos de Sarah são extremamente contemporâneos. “Chama atenção a crueldade que os personagens têm. Ela aborda nos textos canibalismo, necrofilia, pedofilia, prostituição etc. Fico pensando o que ela estaria produzindo hoje se estivesse viva”, avisa o ator, completando: “Nós queríamos entender o que se passou com ela para criar este universo. Estas cinco peças (Blasted, Phaedra’s love, Cleansed, Crave e 4.48 psychosis) foram escritas antecipando o suicídio dela, são pistas para o que aconteceria: o sexto texto de Sarah, a morte”.

Criação coletiva é inspirada na obra da autora inglesaRafael da Silva

Criação coletiva é inspirada na obra da autora inglesa

A encenação aposta na fragmentação de cenas, troca de personagens e flerta com a performance. Assim como em outros trabalhos do grupo, a opção por uma encenação com diversos elementos e sem um único foco segue com este espetáculo. “Não sou um diretor de limpeza – gosto que as cenas estejam acontecendo juntas. É um espetáculo de multiplicidade, assim como é a vida”, explica Kraemer.

A censura é 16 de anos. Segundo Campão, a montagem não é pesada. “Não gosto desse adjetivo, soa pejorativo”, relata, mas faz um alerta: “Podem (os temas) até causar um certo estranhamento às pessoas que procuram por um teatro mais digestivo, mas eu considero que o estilo dela não é apenas dramático, há cenas, por exemplo, que envolvem tragicomédias”, conta.

O palco é dividido em dois ambientes: ao fundo está uma “espécie” de banheiro público, separado por uma parede transparente, como uma vitrine, na qual aparecem dois grandes painéis. De um lado, há uma figura do rosto de Sarah Kane, e de outro, uma cortina com imagens icônicas do universo da dramaturga e dos dias atuais. No alto da cena, estão pendurados pares de sapatos e tênis. O uso de malas também é constante na montagem, representando partidas e chegadas. A cenografia é assinada por Alexandre Navarro. Já os figurinos foram realizados pelos alunos do curso de Moda da Feevale coordenados pela professora Ana Hoffmann.

Este novo trabalho, com produção totalmente independente, faz parte da comemoração da resistência e solidez da Cia Teatrofídico sediada na Usina do Gasômetro há 10 anos, dentro do Projeto Usina das Artes – atividade que promove residência artística de 10 grupos de artes cênicas e que, em 2009, se tornou lei municipal. “Pelo fato de ser um edital público, é muito angustiante. Nós precisamos de um espaço como esse pra continuar sendo o Teatrofídico. Estamos tanto tempo aqui que seria como uma ação de despejo se precisássemos ir embora, iríamos ficar no meio da rua com nossos cenários todos ali, sem ter a menor chance de conseguir uma guarida”, desabafa Kraemer.

Já para o ator Renato Del Campão, a companhia permaneceu na Usina em tempos bons e ruins. “Quando chegamos aqui, era um lugar maldito, trouxemos a peça Bonecas à beira de um ataque de risos e não teve quase público, as pessoas tinham medo de ser assaltadas, foi uma luta, até que as coisas começaram a acontecer. Nunca paramos”, relembra.

Os dois, ao lado de Jairo Klein, estão desde o início da criação do grupo e de forma continuada. A trajetória da companhia começou com Jogos na hora da sesta, de Roma Mahieu.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, página 1, em 20/1/2015.

Serviço:
Onde: Teatro do Sesc (Avenida Alberto Bins, 665, Centro, Porto Alegre)
Quando: Terça a quinta, às 21h. Até 29/1
Quanto: R$ 30

Ficha técnica:
Texto: Criação coletiva
Direção, trilha sonora e iluminação: Eduardo Kraemer
Atuação: Renato Del Campão, Rejane Meneguetti, Jairo Klein,Adriana Lampert, Gustavo Razzera e Lucimaura Rodrigues
Cenografia: Alexandre Navarro
Figurinos: Alunos do curso de design de moda da Feevale
Produção: Cia. Teatrofídico/Projeto Usina das Artes
Foto colorida: Eduardo Kraemer
Foto em preto e branco: Gustavo Razzera

Michele Rolim

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