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Reportagem

Curitiba enxuga programação

9.2.2015  |  por Helena Carnieri

Foto de capa: Fernando Stankuns

Foi com esforço que o Festival de Teatro de Curitiba não voltou neste ano ao tamanho da primeira edição, em 1992, quando foram apresentadas 14 peças. Mas, apesar da queda de orçamento, de R$ 8 milhões previstos para R$ 6 milhões efetivos, o 24ª capítulo do evento trará 29 espetáculos na mostra oficial, ante os 38 do ano passado. O evento vai de 24 de março a 5 de abril.

Se desta vez não virão trabalhos de diretores como José Celso Martinez Corrêa, Antunes Filho, Gerald Thomas e Gabriel Villela, como naquele longínquo começo, e nem há coproduções do próprio festival, como nos últimos anos foi feito, há destaques de público e crítica, como a carioca Nômades, com Andréa Beltrão, Malu Galli e Mariana Lima, sob direção de Marcio Abreu.

Apesar de o festival não apostar mais todas as fichas em estreias nacionais, serão seis em 2015, incluindo duas que retratam o conflito no Oriente Médio, cada uma de um lado da fronteira: Meu Saba, inspirada no livro em que a neta de Ytzhak Rabin fala do avô, e Post scriptum, da companhia Arnesto nos Convidou, que apresenta uma família brasileira mista entre muçulmanos e cristãos.

“Seguimos querendo ser uma vitrine nacional, apresentar conflitos contemporâneos, o trabalho de grupos estáveis e inovações de linguagem”, contou à reportagem o diretor Leandro Knopfholz (leia mais na entrevista abaixo).

Além de escolher temas retratados por ângulos diferentes, outra vertente dos últimos anos tem sido expor tecnologia, aposta que recai sobre a paulistana Spon spoff spend, que trabalha com dois planos narrativos, sendo um deles formado por gente de rua e outro por um mundo só de mendigos. Outras estreias são Fishman, que comemora os 15 anos dos cearenses da Bagaceira, Abnegação II – O começo do fim e OE, que promete ser um tocante solo de teatro-dança inspirado na obra do japonês Kenzaburo Oe, com encenação de Marcio Aurélio.

Como todo ano, são convidados alguns espetáculos com atores bem conhecidos da televisão. É o caso de Beije minha lápide, que traz Marco Nanini como um admirador de Oscar Wilde que acaba preso numa caixa de vidro.

Outro famoso na grade é Mateus Solano, protagonista de Selfie. O diretor Ulysses Cruz traz ainda Gabriela Duarte em Através de um espelho, numa versão para o palco do filme de Ingmar Bergman .

Companhia nascida por aqui, Os Satyros retornam à casa com Pessoas perfeitas, indicado a vários prêmios em São Paulo. Tema caro ao grupo, aborda a transexualidade, em sintonia com a norte-americana Surfacing.

Serão cinco atrações internacionais. A house in Asia e Numax vêm da Espanha. Forces, show de abertura, fará uma demonstração de acrobacias, em que participa um artista originário de Curitiba, Fábio Tavares da Silva. E Double rite, da Dinamarca, apresenta bailarinos homens e mulheres nus, cada grupo num dos dias de apresentação.

Além do musical sobre a vida do músico Chorão, está na grade Samba futebol clube, com direção de João Fonseca, indicado ao Prêmio Shell de 2014.

Curitiba contribui com apenas uma peça: Ensaio para um adeus inesperado, de Fátima Ortiz e Enéas Lour.

.:. Publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo, Caderno G, página 1, em 8/2/2015.

.:. Leis mais sobre os espetáculos internacionais da 24ª edição, aqui.

Serviço:
24º Festival de Curitiba
Onde: teatros e espaços alternativos da capital paranaense.
Quando: De 24/3 (para convidados) a 5/4.
Quanto: R$ 30 a R$ 60 (meia-entrada), com taxa de R$ 6 nos teatros cuja bilheteria é administrada pelo Disk Ingressos. Vendas a partir de 10/2 nos shoppings Palladium, Mueller e ParkShopping Barigüi ou pelo site, aqui.

Malu Galli, Andrea Beltrão e Mariana Lima em 'Nômades'Guga Melgar

Malu, Andréa e Mariana Lima em ‘Nômades’ (2014)

>> Entrevista com o diretor do festival, Leandro Knopfholz

O Festival de Curitiba afirma desde seu início a vocação de vitrine nacional, mas neste ano não traz estreias de grande porte. Para o diretor Leandro Knopfholz, foi-se o tempo em que uma estreia era rara e chamariz de público, conforme afirma em entrevista à Gazeta do Povo:

A grade deste ano tem repercussão nacional?
Tentamos trazer trabalhos menos vistos para que ganhem a projeção merecida. Aconteceu ano passado com BR Trans. Mas a estreia em Curitiba deixou de ser um chamariz. De uns dez anos para cá, as peças são subsidiadas, já estão pagas antes de estrear, não dependem mais de bilheteria. Diretores que estreavam um espetáculo por ano, hoje estreiam quatro.

Qual sua orientação aos curadores (Celso Curi, Tânia Brandão, Lúcia Camargo)?
O que peço é que não haja envolvimento pessoal: não chamar amigo, panela, e que façam com que as peças da grade conversem entre si.

Como foi a escolha de Dias de luta, dias de glória, musical sobre o Chorão?
Vai bombar? É provável, mas é um risco. Muita gente que irá ao Teatro Positivo talvez nunca tenha pisado lá e nem visto um musical.

Você acredita que nesses 24 anos de festival houve formação de público em Curitiba?
Não tenho dúvida. As cortesias que distribuíamos a patrocinadores antes tinham uma conversão efetiva em ingresso de apenas 30%. Desde 2011, os parceiros começaram até a pedir mais ingressos.

Nosso festival é o que mais atrai olheiros da televisão?
Imagino que sim. Os protagonistas da atual novela das oito na Globo são Alexandre Nero, Marjorie Estiano e Adriana Birolli, todos daqui, todos vieram do teatro. O festival é responsável por isso? Não, mas não tenho dúvida de que contribuiu com essa cena tanto da formação de profissionais como de público.

O festival perdeu parte do patrocínio do banco Itaú, mas foi mantido pela Petrobras, foco da crise atual no país…
Temos um contato de muitos anos na Petrobras, e neste ano, apesar de muita gente ter sido cortada ou ter tido o patrocínio reduzido, o nosso foi mantido. Mas não chegamos a isso através do Paulo Roberto Costa (risos).

O que acha da possível nomeação de João Luiz Fiani para a direção do Guaíra?
Acho válido. O Fiani seria mais voltado ao mercado, enquanto a Monica Rischbieter [atual diretora] olha para o conceito. Depende das diretrizes. São dois profissionais competentes.

Helena Carnieri

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