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Artigo

Um teatro que fala às profundezas

24.2.2015  |  por Valmir Santos

Foto de capa: André Stéfano

Em sua gênese, em 1989, a Companhia de Teatro Os Satyros emendou o espetáculo infantil Aventuras de Arlequim a dois adultos, Um Qorpo Santo dois e o antológico Sades ou noites com os professores imorais, este no ano seguinte. A trinca embrionária diz muito da identidade artística constituída em um quarto de século de inquietude e transgressão.

Em linhas gerais, a amoralidade do palhaço e servo da Commedia dell’Arte conversa com a disrupção da escrita do gaúcho Qorpo-Santo (1829-1883), crismado José Joaquim de Campos Leão, que por sua vez transluz a natureza humana desnuda em libertinagem, crueldade e perversão sob a pena – e as mãos – de Marquês de Sade (1740-1814), ou Donatien Alphonse François de Sade, aristocrata francês e escritor libertino.

Como os sátiros na mitologia dos povos gregos, seres metade homem, metade animal que acompanhavam o deus Dionísio (do vinho e das festas) em suas jornadas por montanhas e bosques, os fundadores do grupo cortejaram o pendor dionisíaco em contraponto à hegemonia apolínea daquele final da década de 1980. O diretor Rodolfo García Vázquez e o ator Ivam Cabral perseveraram a contramão em termos estéticos e temáticos.

À época, o diretor José Celso Martinez Corrêa, paradigma da consciência “pan-dionisíaca” na cena brasileira, estava prestes a retomar os trabalhos do Teatro Oficina após o exílio condicionado pela ditadura civil-militar. O panorama era dominado pela poética formalista de Antunes Filho e Gerald Thomas, para citar dois ícones, cada um em sua vereda. Nesse contexto, Os Satyros polinizaram um teatro que fala às profundezas.

É o que o público de Piracicaba pode conferir na imersão que o Sesc concebeu para a segunda quinzena de março. São quatro peças daquele repertório, um bate-papo com o diretor García Vásquez e uma oficina sobre os procedimentos recentes de criação. As atividades visam desde o espectador jovem ou adulto apreciador de primeira hora das artes cênicas até os praticantes ou pesquisadores afins ou de áreas correlatas.

Estão programados os espetáculos A filosofia na alcova (Lisboa, 1993, remontada em Curitiba em 2003 e depois em São Paulo); Não amarás e Não fornicarás (ambos integrados ao projeto “E se fez a humanidade ciborgue em sete dias”, São Paulo, 2014), além da produção mais recente da companhia, Pessoas perfeitas (São Paulo, também estreada no ano passado).

A filosofia na alcova é justamente uma transcriação de Sades ou noites com os professores imorais. O campo da sexualidade e a reflexão sociopolítica sobre o antagonismo prazer e castração perpassam também a apropriação dos mandamentos bíblicos Não amarás e Não fornicarás. Corpos presenciais e virtuais reverberam as estratégias de relacionamento nos dias de hoje. Já a dramaturgia de Pessoas perfeitas toma como inspiração as vicissitudes de alguns moradores do centro da capital entrevistados pela equipe.

Uma das peças do projeto 'E se fez a humanidade...'André Stéfano

Uma das peças do projeto ‘E se fez a humanidade…’

Na apresentação ao livro Cia. de Teatro Os Satyros: um palco visceral (Imprensa Oficial, 2006), o jornalista, crítico, romancista e ator Alberto Guzik (1944-2010), ele mesmo incorporado ao grupo em certo momento da vida, nota como o “viés transgressor faz parte da alma da companhia”. Tanto no tocante à arte como à luta pela sobrevivência dos integrantes e pela manutenção de um espaço-sede. Vide o percurso dos últimos 25 anos de história após fixar-se no bairro paulistano do Bixiga, transitar por Lisboa, a capital portuguesa, e Curitiba, a paranaense, para finalmente retornar a São Paulo, em 2000, circunscrevendo os territórios físico e simbólico da Praça Franklin Roosevelt, região central da cidade onde passou mais da metade de sua existência.

Em 14 anos radicado no número 214 do local, o núcleo artístico transcende o espaço cênico para se tornar protagonista na esfera pública. Quer em ações que transformam seu entorno imediato – a praça ressignificada em seu espírito de urbanidade –, quer em ações políticas e cidadãs, como a colaboração central na implantação da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, vinculada ao Governo do Estado, e a organização das Satyrianas, maratona anual de 78 horas de arte e cultura dos mais diferentes naipes, tendo alcançado 14 edições em plena Roosevelt, catalisando milhares de pessoas e antecipando o que a Virada Cultural iria representar tempos depois em outra escala. A convivência teatral plasma uma comunidade reinventada a sua maneira – a começar pela tolerância às diferenças irradiada para a cidade, o estado, o país, o mundo.

.:. Publicado originalmente no programa do projeto “Os Satyros em Perspectiva”, que ocupa o Sesc Piracicaba (SP) entre 18 e 26/3.

.:. O site da Companhia de Teatro Os Satyros, aqui.

Valmir Santos

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