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Crítica

‘A luva e a pedra’, pelo Teatro em Trâmite

5.3.2015  |  por Afonso Nilson

Foto de capa: Teatro em Trâmite/Divulgação

Para funcionar como narrativa a solidão não pode ser apenas um mote, precisa ser uma potência. Um homem solitário é apenas um homem, um homem solitário com uma história por contar já não mais esta só. Isso é uma regra? Não. Mas no espetáculo A luva e a pedra, do grupo Teatro em Trâmite, parece funcionar muito bem. Diretor e ator da montagem, André Francisco soube se apropriar bem da melancólica trama urdida pelo argentino Quique Fernández, em que um atleta frustrado descamba em uma série de equívocos rumo à ruína, não sem antes mergulhar os espectadores no universo personalíssimo e cômico de suas pretensões, incoerências e purezas quase ingênuas, assim como no seu incomum senso de justiça alimentado pela mortífera força de seu orgulho.

Cenários e elementos de cena limitados ao mínimo, luz precisa, resumida a momentos essenciais, trilha inserida apenas pontualmente. Resumindo, um espetáculo que foca quase que exclusivamente no ator como fundamento de sua construção e força. Se é suficiente? Um bom ator em cena geralmente é. A compleição frágil do personagem, mas que requer a lembrança do atleta do passado é muito bem arregimentada pelo modo como o ator constitui esse corpo limitado, mas com um passado saudável. Sotaques e gestuais característicos são marcantes no desenho, personagens citados na trama e inseridos na narrativa não se misturam, permanecem claros em sua enunciação, postura e desenvolvimento.

A narrativa linear recorre a inserções de lembranças e momentos significativos na trajetória do personagem. Não há saltos abruptos ou deslocamentos violentos de temporalidades. Um texto com começo, meio e fim bem delineados, sem recursos pós-dramáticos ou performativos tão em voga na dramaturgia contemporânea.

Interessante o modo como a origem dos personagens se emaranha em uma teia de relações ambivalentes, onde a identidade ligada à procedência assume um papel avassalador no desenrolar dos fatos. Uma metáfora ou reflexão sobre a condição do estrangeiro sul americano em uma Europa cada vez mais dada a determinações excludentes e xenófobas? É bem possível, já que o autor vive há anos em uma França cada vez menos afeita a estrangeiros.

Mas talvez o mote para a solidão em terras estrangeiras, e o dramático desenvolvimento da trama de Quique Fernández, abarquem algo mais do que as mazelas vividas por imigrantes em qualquer país. Há uma humanidade repleta de solidariedade nesses personagens. Um quê de ternura na relação entre os vários estrangeiros que se encontram em uma terra estranha e repleta de desafios. Algo um pouco diferente de amizade, algo mais parecido com condescendência, ou mesmo tolerância recíproca. Talvez seja esse mesmo o derradeiro golpe que esse boxeador dançante, que nos conduz pelo rés do chão de sua vida e alturas inexpugnáveis de seus sonhos, queira nos dar: um golpe que antes de ferir nos revela uma diferença a ser contemplada, e mais, uma distância a ser esquecida.

.:. Publicado originalmente no jornal Notícias do Dia, em 18/12/2014.

.:. O blog do dramaturgo e crítico Afonso Nilson, aqui.

Serviço:
Onde: Memorial Atílio Fontana (Rua Romano Anselmo Fontana, 675, Centro, Concórdia, Santa Catarina, tel. 49 3444-0314). No âmbito do Festival Catarinense de Teatro (Federação Catarinense de Teatro)
Quando: dia 27/3/2015, segunda-feira, Dia do Teatro, às 22h
Quanto: Grátis
Observação: A produção prevê apresentações no Rio de Janeiro para a segunda quinzena de julho

André Francisco adaptou o argentino Quique FernándezTeatro em Trâmite/Divulgação

Francisco adapta obra do argentino Quique Fernández

Ficha técnica:
Adaptação do texto original El guante e la piedra, de Quique Fernández
Direção e dramaturgia: André Francisco
Com: André Francisco
Produção e operação de luz e som: Leandro Rovaris
Concepção de luz: André Francisco
Programação visual: Paulo Ramon
Realização: Grupo Teatro em Trâmite

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