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Reportagem

Cabaré Boca Suja faz carnaval das linguagens

13.3.2015  |  por Teatrojornal

Foto de capa: Felipe Larozza

Necessidade de inventar um novo espaço na cidade de São Paulo e gerar meios criativos para proporcionar a ação coletiva de e entre artistas de diversas vertentes e linguagens, e com vontades e atitudes artísticas em comum – gente que comumente não colaboraria ou não estaria junto em cena. Vem daí a força-motora do Boca Suja, “um cabaré para pequenas, médias e grandes rebeldias”, como diz seu epíteto. A primeira edição acontece sábado, 14/3, no Studio Dama, em Pinheiros, mesmo bairro que abrigou o movimento de vanguarda e teatro Lira Paulistana (1979-1986), do qual participaram artistas da música como Itamar Assumpção, Rumos e Titãs, além de escritores, jornalistas, atores, etc.

Outra referência explícita é o Cabaré Voltaire, precursor do dadaísmo em 1916, realizado algumas vezes na cidade suíça de Zurique, no período pré-Primeira Guerra, reunindo artistas de diversas linguagens em torno do desejo de proporcionar o encontro entre pensadores e criadores engajados num mesmo espírito criativo, com propostas estéticas de vanguarda que previam a revisão de conceitos sobre as artes em geral: literatura, artes plásticas, música, etc.

A primeira edição põe lado a lado a banda My Name is Mary (grupo paulistano de punk rock, pertencente à cena musical que lembra as bandas de garagem), acompanhada da curadora e poeta Natália Nolli Sasso e também das atrizes do grupo Teatro Enlatado, integrando um cabaré com poesias eróticas e música punk: o Cabaré das Rebeldias. Os textos são inéditos e de autoria de Sasso com músicas compostas por Raul Lorenzetti, da My Name.

Em seguida, atores e músicos do coletivo teatral [pH2]: estado de teatro, que atua há quase uma década transitando na cena experimental com repertório de dramas e tragédias contemporâneas, e que tem banda própria, a Sturm und Drang. Ela entra em cena com Aos novos e velhos malditos, performando repertório novo e também extratos de seu mais recente espetáculo, Stereo Franz.

Participa como DJ/Franz o ator e diretor teatral Rodrigo Batista, integrado ao repertório da noite, e os músicos, atores e performers Bruno Caetano, Cainã Vidor e Beatriz Limongelli, que performam composições tropicalistas e textos do próprio [pH2] e de Nicole Oliveira (dramaturga, autora do texto teatral de Stereo Franz).

A idealizadora e curadora projeta um cabaré que é também uma miscelânea pensada para acontecer a partir de elos estéticos e de desejos criativos em comum: a rebeldia diante dos modos de produção mais convencionais, de criação e circulação das artes; o desejo de misturar linguagens como a música, a poesia, a performance, o cinema e o teatro numa mesma ação e cena; a atitude de recusa diante de caretices e regras que limitam a ação coletiva e interdisciplinar; repertórios musicais que se inspiram ou são originais do espírito rebelde setentista, e que emergiram tanto na cena brasileira quanto em outras parte do mundo ocidental, durante esse período.

Para Natália Nolli Sasso, “o Brasil começa de novo a cada vez que… A cada vez que alguém quer reinventá-lo, mesclando referências culturais, paisagens histórias em acordo com essas, tomando referências do passado como origem e inspiração, mas principalmente munido de vontades novas, de reinvenção. E é no palco, na coxia, nas casas noturnas, nas plateias e ateliês que começam movimentos que podem trazer algumas incertezas para movimentos já estabelecidos nas artes, no âmbito da cultura, e fazer ressoar na sociedade como um todo. As artes são sempre a vanguarda do espírito de um tempo, catalisadoras do zeitgeist de um período”, afirma.

“E, posso estar me antecipando aos fatos ou equivocada, mas acho que vários modelos e formatos para as relações sociais e de criação artística hoje se mostram desgastados, conformados a moldes que já não se comunicam tão ampla e diretamente com o público e com demandas de nosso tempo. Cada vez menos interessa ao público e aos processos artísticos a inserção pura e restrita em modelos, rótulos, ou em pequenos grupos. O diálogo, as trocas e a interface com outros criadores e maneiras de pensar são emergências num momento em que gêneros e linhas divisórias já perdem parte do sentido que carregavam fortemente até poucos anos atrás. É uma crise, para bem e para mal, de alguns modelos de atuação artística e das relações culturais.”

Boca Suja pretende, assim, realizar o encontro entre poesia e música; música e teatralidade, e o carnaval das linguagens num acontecimento poético-performático-erótico que é, antes de tudo e de nomes para tal, experiência. “Experiência para quem cria, atua, e para quem vê, participa. A palavra como base para o rito, o rito que é poesia e a poesia, performatização, música, festa, celebração.”

Natália Nolli Sasso é pesquisadora e curadora de artes, também programadora e “poeta nas horas vadias”, “autora de escritos poéticos irresponsáveis e desconhecidos”, tendo articulado de projetos em unidades do Sesc São Paulo como a mostra multilinguagens CorpoInstalação (Sesc Pompeia, 2008) e o projeto performáticos_inquietos_radicais (Sesc Belenzinho, 2013.

Atuadores do coletivo [pH2] em 'Stereo Franz'Isa Kaufamnn

Atuadores do coletivo [pH2] em ‘Stereo Franz’

Cabaré das Rebeldias
textos e leitura: Natália Nolli Sasso
música e performance: My Name is Mary
performance e atuação: Maíra de Grandi e Izabela Pimentel
Segundo definição de seu criador, Raul Lorenzetti, é uma banda “oriunda de qualquer lugar onde as coisas precisam dar errado. My Name Is Mary insiste na sujeira e nos cantos escuros que emanam o som dos descarados. Para dar vida ao peso de pensamentos eternos, fantasmas: no baixo, Ciúme dos Diabos; na bateria, a Paranóia Martelante; nos vocais e na guitarra, a Arrogância Desafinada. O suor, o ardido e o salgado nas músicas de um power trio orientado ao punk que não orienta ninguém. É assim desde 2011.” My Name são Raul, Felipe Larozza e Guilherme Lyra. Com repertório próprio e também versões para Stooges, Modern Lovers, entre outras referências da cena punk rock.
As atrizes Izabela Pimentel e Maíra de Grandi (do grupo Teatro Enlatado) perfomarão textos e poesias da também curadora, Natália Nolli Sasso, juntamente com My Name is Mary, num Pequeno Cabaré das Rebeldias. Esse pequeno cabaré, como prefere ser chamado por seus integrantes, é a mescla da escrita erótica e performática da autora, com o espírito intrépido das atrizes-performers, e o som ruidoso e punk da banda paulistana, juntos em cena.

Aos velhos e novos malditos
textos: Bruno Caetano, Nicole Oliveira, Natália Nolli Sasso e versões para Wally Salomão
música, dramaturgia e performance: Sturm und Drang
colaboração e DJ: [pH2]: estado de teatro
Experiência poético-sonora. Como o nome da banda sugere (termo de origem no romantismo alemão), o grupo formado por um trio de músicos e atores do [ph2]: estado de teatro partem da inspiração romântica (movimento dos séculos XVIII e XIX, espécie de reação ao racionalismo europeu e ao iluminismo francês, fortemente enraizado em ações e criações de artistas alemães, poetas e dramaturgos como Goethe e Buchner), numa espécie de tributo neorromântico, com tonalidades tropicalistas. Sim, essa mescla e fusão de mundos tão particulares é o ponto de partida para a atitude em cena dessa banda performática que tem no vocal Bruno Caetano; teclados e vocal Beatriz Limongeli, e na guitarra, Cainã Vidor. Com textos de Bruno Caetano, Natália Nolli Sasso e Nicole Oliveira, e de Waly Salomão, o grupo apresenta performance com repertório musical que passa por Belchior, Noel Rosa, Jards Macalé, entre outros, com orientação dramatúrgica para textos e canções. Com esse espírito e o lema: “For a hungry man every king is good” (para um homem faminto, todo rei é bom), o grupo volta à cena após recente temporada (janeiro/fevereiro) no Sesc Santo Amaro, com a peça Stereo Franz.

Serviço:
Onde: Studio Dama (Rua Ferreira de Araújo, 1.056, Pinheiros, (próximo às estações Faria Lima e Pinheiros / Linha Amarela)
Quando: sábado, 14/3, às 23h (cerca de 4 horas de duração)
Quanto: R$ 20

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